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Cultura, Literatura e Filosofia

SEI QUE NÃO HAVERÁ REDENÇÃO

O homem acredita que é livre. E no entanto, ao longo dos anos,  nada mais fez do que construir a sua servidão.
Todos os dias,  à hora marcada, o relógio  (instrumento de servidão ) acorda – nos para começarmos o dia, quantas vezes em detrimento do ritmo biológico que nos é próprio .  Estremunhados, obrigamo-nos a realizar um determinado número de tarefas, usando os nossos pequenos/grandes escravos técnicos  (outros tantos condicionadores da nossa liberdade ); e, durante as horas úteis do dia ( úteis,  no sentido em que poderíamos fruí-las em nosso proveito), alienamos o nosso ser, a nossa energia, as nossas emoções,  enfim, tudo o que faz de nós humanos, a serviços que a maior parte das vezes não nos dizem, de facto, respeito. Fazemo-lo em prol de uma outra alienação pois, com o salário que daí resulta e que é, invariavelmente, a razão que nos leva a trabalhar, compramos o nosso sustento.
Absolutamente dependentes , levamos a vida, aspirando ter um grande número de bens. E logo deles nos tornamos também escravos.
Quem compra uma casa, admite fixar – se num determinado local, condicionando a sua vida a um espaço restrito; quem compra um carro, vai depender dele para uma multiplicidade de trajectos que, passado o tempo da habituação,  já não saberá fazer de outro modo. Em casa, adquire – se um conjunto de equipamentos,  tidos como indispensáveis. Sem frigorífico não saberíamos como conservar os alimentos, sem fogão não conseguiríamos transformá -los em refeições, sem camas, cadeiras e mesas não saberíamos viver.  Temos uma ou muitas televisões que alienam o nosso descanso e desvirtuam a nossa necessidade de divertimento. Com o telefone, comunicamos à distância;  mas a nova geração de aparelhos de comunicação multiusos, isolaram – nos daqueles com quem a princípio queríamos contactar e tornámos a relação comunicativa incorpórea, abstracta, irreal. Não comunicamos, portanto,  mas criámos uma dependência irracional de pequenos aparelhos, aparentemente inócuos,  mas repletos de um poder, em absoluto, galvanizante.
Nós,  humanos,  acreditámos que a tecnologia iria servir – nos, libertando a nossa energia para padrões elevados de fruição do mundo e de nós mesmos. Em vez disso, somos servos da tecnologia que nos manipula de múltiplos modos e o nosso tempo útil de vida superior, em seres racionais, dotados de inteligência e criatividade, reduziu – se, a uma escala impressionante.  Não somos mecanismos, mas adoptamos uma existência mecânica, de uma terrivel falta de originalidade, em que todos se copiam,  numa clonagem hedionda.
Alguém espalha uma notícia qualquer, verdadeira ou falsa, pouco importa. E logo, o chavão é reproduzido e acrescentado e revestido de cambiantes, de tal forma que se converte em verdade absoluta e uníssona .
Os nossos heróis são personagens absurdas ou ridículas, guindadas à dimensão divina por pequenos feitos, quando não medíocres ou nefastos : mas tão apregoados e engalanados com os efeitos especiais da tecnologia que cedo se agigantam muito para além do mérito real.
Escravos,  sem dúvida alguma, eis o que somos todos. Mesmo que queiramos fugir e mudar o rumo da nossa existência, escassamente teríamos um sítio para recomeçar,  de tal modo poluímos a atmosfera, a terra e as águas.  E ainda que encontrássemos esse paraíso, talvez não conseguíssemos aí habitar, tanto  estamos dependentes dos nossos pequenos e grandes mecanismos.
Somos uma raça que evoluiu para a superioridade à escala dos seres a que somos idênticos. E no entanto, engendrámos criminosos e párias, construímos prisões,  inventámos a polícia e os serviços secretos, colocámos alarmes nas portas e fechamos tudo bem fechado com medo daqueles que são como nós.  Mas dizemos que não, achamo – nos superiores, porque a nossa escravidão nos levou a criar um nicho secreto onde afirmamos que somos livres.
Não podemos, por isso, surpreender – nos, se o planeta que nos aloja e que temos destruído de muitas maneiras, esteja,  ele próprio,  a dar sinais evidentes de exaustão e declínio. A Terra já não é o que era antes da nossa chegada, porque decidimos usá -la de um modo insano, escavando – a,  perfurando -a, roubando – lhe recursos que lhe eram necessários, erguendo construções,  pontilhando -a de estradas, túneis e pontes de que ela, a Terra, não precisava, espalhando nos ares gases tóxicos e desvirtuando a pureza das suas águas  (da Terra) e do seu solo ( da Terra, ainda.). Nada era nosso. Ou se era, porque afinal somos seres da Terra, deveríamos ter vivido em  harmonia com ela, respeitando a sua dinâmica que é também a nossa.
Não podemos fazer nada e estão cegos ou querem enganar – se e enganar – nos os que afirmam ser possível salvar o planeta em que vivemos. Não é,  de facto. A uma velocidade impressionante a devastação prossegue e é irreversível : porque,  ambiciosos,  temerários,  oportunistas,  incautos atentámos contra o nosso chão a uma escala tão feroz que pouquíssimo restou incólume.
Escravos e impotentes para reverter a nossa escravidão, o que fazemos, todos e cada um, é este tremendo equívoco a que chamamos viver. E é por isso que os lúcidos permanecem calados e quietos, cônscios de que para nada serve a sua lucidez, certos de que lhes atirarariam pedradas todos  aqueles que sentem prazer no logro das suas existências ridículas.
Escrevo na primeira pessoa do plural porque percebo que faço parte desta massa de alienados que dá pelo nome de humanidade e contribuo, como todos,  em pequenos gestos e singulares atitudes, para o grito esterteroso que a Terra lança e que, também, só escassamente tenho conseguido ouvir. Oiço,  então,  a fúria dos elementos,  em tempestades,  a confusão do clima, em alternâncias bruscas e equilíbrios precários, vejo os animais despojados do seu carácter e desprovidos de um habitat próprio,  assisto à correria das gentes em absurdos périplos para coisa nenhuma e escuto o ruído das máquinas,  a toda a hora, ocupando todo o espaço e limitando todo o tempo.
Sei que não haverá redenção.

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