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SEI QUE NÃO HAVERÁ REDENÇÃO – II PARTE

“Sei que não haverá redenção. ” Assim terminei, e deste modo intitulei, a minha última crónica.
Mas, tal como me acontece amiúde,  fiquei a reflectir, ponderando, a utilização do termo redenção, no contexto respectivo.  E pareceu-me oportuno retomar a questão,  analisando a palavra e o conceito que lhe subjaz.
“Redenção é o acto ou efeito de redimir ou remir, que significa libertação, reabilitação, reparo, salvação.  É o acto de adquirir de novo, de resgatar, de tirar do poder alheio, do cativeiro. É livrar-se de um passo arriscado, é livrar-se das penas do inferno.
A locução adverbial “sem redenção” significa irremediavelmente, inevitável, infalível.
Redenção, no sentido figurado, é o auxílio ou recurso capaz de livrar ou salvar alguém de situação aflitiva ou perigosa.”
O dicionário deu-me estes múltiplos significados; e contudo, não esclareceu cabalmente o sentido do que, tão radicalmente, desejei exprimir.
A redenção de que falo não tem qualquer conotação metafísica ou religiosa, não apela a rituais esotéricos,  à magia ou às ciências ocultas. É,  em vez disso, uma redenção – que não haverá – de ordem puramente física, química e biológica, uma impossível redenção da organização natural de um mundo – este, aTerra – cuja deterioração é de tal modo profunda que atingiu mesmo a essência própria do planeta.
Os homens,  individualmente ou em grupo, são os artífices por excelência da avalanche destrutiva que, um pouco mais em cada dia, dilapida o único património vital de que dispomos para sobreviver. Começou a fazê – lo há milénios; e apraz – nos a narração das glórias dos nossos antepassados das cavernas , dos insaciáveis pioneiros das descobertas, por terra e por mar e fendendo a atmosfera, dos construtores de mundos de pedra, madeira, argamassa, tijolo, da impante tecnologia que inundou os ares de vapores corrosivos, das nossas estradas, elas próprias construídas na terra, nos rios e mares e por invisíveis linhas traçada nos ares.
Circulamos nas cidades,  esses aglomerados irracionais de multidões, e pisamos o asfalto com as rodas dos nossos veículos ou a sola dos nossos sapatos, esquecendo que esse chão existia para ser o local de habitação de espécies animais e vegetais que fomos trucidando. Se deparamos com um jardim ou com um lago, sabemos que mãos humanas desviaram a água e as plantas, constrangendo – as ali, numa ordem que não lhes era original;  se um insecto ou uma ave nos apanham na caminhada,  achamos que o lugar deles não é aquele, porque somos nós os soberanos. E apressamo – nos a dizimar, florestas e prados,  aves e insectos, crentes do nosso  indesmentível domínio  e da nossa apregoada superioridade.
A redenção seria, paulatina e metodicamente,  restituir cada peça da harmonia natural ao seu exacto lugar na ordem das coisas. Seria arrasar, pedaço a pedaço,  casas, estradas, meios de transporte, máquinas, tudo aquilo que, aos poucos, deixamos que invadisse o único território de que dispúnhamos e se convertesse na nossa natureza, tão artificial. Seria limpar os ares de vapores envenenados e as águas de miasmas empestados e a terra de uma crusta repugnante de resíduos mortíferos.
Porém,  não despertou ainda a consciência dessa necessidade imperiosa, porque andamos todos extraordinariamente ocupados em batalhas infindáveis, rumo a objectivos inúteis,  embrenhados em ocupações de lazer estéril, vicioso e viciante, fechados nas pequenas conchas,  quantas vezes hediondas, a que chamamos o nosso lar.
E o que fazemos, enquanto seres dados à sociabilidade, é inventar falsos sentimentos de afiliação e partilha, chamando amizade e amor a simulacros com que disfarçamos um insuportável egoísmo.
Somos estéreis,  mesmo gerando filhos, mesmo criando obras literárias e sinfonias, mesmo elevando o nosso coração para as alturas – que, no fundo de nós mesmos, gostaríamos de perfurar e possuir. E essa esterilidade de que só vagamente temos um vislumbre, nas horas em que nos sentimos mergulhados em inexplicável inquietação,  acrescenta ao mundo, à  Terra, cada vez mais desassossego,  não o desassossego humano, que também nos assalta, mas um clamor profundo urdido nas entranhas, feito tumor incandescente prestes a explodir, devorando-nos.
Somos unos com a natureza, filhos da Terra que nos permite ser; se olharmos de frente a vida que o nosso próprio dinamismo artificial dita para o curso da existência, que ainda supomos ser uma escolha nossa,  perceberemos o logro. O certo é que não olhamos,  de facto. Desviamos o relance da nossa vista da clamorosa evidência em que redundou aquilo a que chamamos evolução e  entregamo – nos ao destino. E essa unidade matricial rompe-se diariamente, reduzindo – nos a despojos.
Esta é uma reflexão quase apocalíptica,  convenhamos. Sei bem que é possível experimentar um ou dois átomos de autenticidade,  decerto os temos, sem saber, na hora em que nascemos e ainda um pouco mais à frente, nos momentos lúcidos em que despertamos de um sonho revelador,  nos instantes – limite em que, de um modo ou de outro, somos postos à prova. Só que, a seguir, a névoa do olvido abate – se sobre nós para que nada possamos fazer – apesar da clarividência instantânea.
E então, se acabo de traçar um retrato incompleto da nossa indesmentível deterioração,  enquanto seres da Terra, como advirá a redenção? Sei bem que inventámos deuses e religiões e vidas eternas e transmigrações e paraísos e infernos e que muitos dirão que a devastação deste mundo será compensada ou punida no além. Não é,  porém,  a essa redenção que aludo quando digo que ela não virá. Não me ocuparei da negação ou da afirmação de um lenitivo extra-terreno, que apenas uma crença desrazoável pode justificar. Falo de realidades simples e concretas, evidentes aos que tem olhos para ver. E sei que não haverá redenção.

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