Cultura, Literatura e Filosofia

APENAS O SILÊNCIO

É com as memórias tumefactas que me irei deitar, na cama, talvez na terra, e deixar que a argila se molde a mim e eu renasça por obra de um sopro, órfão de costela.

Talvez assim, semi-enraizado, me surjam das mãos pequenos galhos que floresçam um dia quando desfolhar um conto qualquer de Miguel Torga e me adopte, o conto, como cedro, vinha, apeadeiro de abandonos abandonado ou, até, como fraga perpetuamente admiradora de uma paisagem que por imutável me obrigue a descobrir novas pétalas nas mesmas flores.
Carregarei valados acima os cestos das minhas palavras e tentarei semear, com meus parcos conhecimentos de semeadura e agricultura, as palavras que gostaria ver desenhadas nas encostas onde espero acordar quando pousar este corpo e me erguer, livre, pelo infinito que primeiro me envolver.
Mas agora, resta-me pouco mais que o silêncio e o calor do corpo.
Tenho as palavras a latejar no chão, dispersas, sem saber como as agregar e elas, abandonadas, sem se saberem soletrar.
Nada mais que atropelos, dedadas fugidias no vidro do autocarro, corpos habitados por gente demente, que esbracejam e falam, vociferam, com fantasmas que, acredito, nem elas conseguem ver.
Cansa-me o cansaço, correr sem sequer levantar os pés, aprisionados pela calçada que, até ela, foge debaixo de quem se quer ser chão.
Mas esse, chão, solo, litosfera, chamem-lhe o que quiserem, é-o apenas para lá, lá, longe, atrás da última colina, escondida sob um nevoeiro cerrado, onde não estou.
Que nuvem torpe desce sobre nós?
Há apenas uma criança, a cantarolar na paragem do autocarro, uma letra que desconheço, creio que apenas ela a conhece, nunca ouvi ou houve alguém a agregar sílabas daquela forma.
Faz-se tarde, para dormir, descansar, para viver.
Sinto por vezes que tropecei algures, entre uma raiz de eucalipto ou numa pedra mais elevada naquele caminho que não cheguei, ainda, a percorrer e, trôpego, deixei cair a bandeja onde trazia as letras prontas já, agrupadas em palavras que gostaria de deixar gravadas, senão no papel, pelo menos em mim, ou em ti, para que nunca me esqueça que fomos servidos em bandeja e não de bandeja, para que esta máquina grotesca, ferrugenta, crispada, liderada pela escumalha, pela escroquicidade do ser humano, funcionasse e se alimentasse dos nossos dedos gastos, de nós feridos, de sonhos, creio que perdidos.
Arrefece.
O calor dilui-se na sonoridade.
Resta-me apenas o silêncio.

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