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FLAGRANTES… EM NOITES FRESCAS DE VERÃO

Tal como o crescimento económico tem vindo a arrefecer, o mesmo acontece com as noites de verão, ficando o registo que julho de 2018 foi o mês mais frio em Portugal nos últimos trinta anos. Mesmo que se diga, e sinta, que as noites de verão já não são o que eram, sabe sempre bem relaxar perante espetáculos ao ar livre e gratuitos; se uns serão de puro entretenimento, outros possibilitam um autêntico “banho” de cultura e dão mais cor à nossa existência.

As festividades do 308.º aniversário do Regimento de Cavalaria N.º 6 encerraram na avenida Central, em Braga, com um concerto da Orquestra Ligeira do Exército, que brindou e encantou o numeroso público presente. Tendo a basílica dos Congregados mesmo ao lado, não se evitou o badalar dos sinos em pleno concerto, pelas 22 e 23 horas. Foi um facto desagradável a merecer um reparo, pois bastar-se-ia pedir previamente para se desligar o som ou reduzir o volume do toque eletrónico dos sinos, mas de difícil aplicabilidade, uma vez que aquela avenida está quase permanentemente em festa. Centrando-nos nas coisas boas, sobrepôs-se a já esperada qualidade do espetáculo.

Cinco dias depois, realizou-se um “Concerto de Verão” pela Orquestra Filarmónica de Braga, agora noutro local da cidade – o Rossio da Sé – mesmo ao lado da Sé de Braga. No alinhamento do programa surgiu a peça “1812”, de Tchaikovsky. Antes de se iniciar esta peça – superiormente escrita para comemoração da vitória das tropas russas sobre as de Napoleão –, o maestro Filipe Cunha fez uso do microfone para fazer o enquadramento e informar que os sinos da Sé iriam estar sincronizados com a música da orquestra; seria uma forma de dar ênfase ao sentimento de júbilo pelo fim da ameaça francesa. E os sinos tocaram mesmo, durante uns minutos, enquanto era executada esta peça! Parece ter sido pregada uma partida a quem antes do início do concerto afirmou: “Espero que os sinos da Sé não toquem durante o concerto”. Mais uma vez, com foco no lado positivo… foi um concerto de repertório bem seleccionado para a época e que cumpriu, visível pelos fortes e prolongados aplausos.

Pouco depois, e durante três dias, a avenida Central voltou a ser palco de novos festejos, desta vez em simultâneo: o Vinho Verde Fest e o Festival Internacional de Folclore. Enquanto esperava pelo início deste último, após ligar um canal noticioso de televisão no smartphone, deparei-me com o ministro da Administração Interna, no Algarve, rodeado de “autoridades”, a tentar chamar a atenção para os efeitos nefastos do elevado consumo de álcool e a necessidade de moderação no consumo. Olhando à volta do palco, nas bancadas e na própria avenida, era impressionante o número de pessoas com copos de vidro na mão, já vazios ou contendo bebidas. É que decorria a iniciativa a estimular a “prova de 200 vinhos [verdes da região] e harmonizações gastronómicas e vínicas, ‘showcookings’, animação com DJ’s…”. Não deixou de ser irónico!…

No Festival Internacional de Folclore, os espetadores mais atentos conseguiam observar algumas curiosidades e recortes de um passado longínquo ao recente, a evidenciar as inúmeras diferenças culturais entre povos de regiões distintas, mas, nalguns casos, com denominadores comuns. Continuando na ordem do dia a problemática da igualdade de género – conducente a “guerra de sexos” – e a violência, inclusive a doméstica, estas pareciam estar ali estranhamente representadas. Havia a presença de grupos do Minho (Portugal), Índia, Peru, Sérvia, Espanha, Eslovénia, Eslováquia, Itália, Polónia e Madeira (Portugal). O grupo indiano denotou performances distintas, mas em quase todas via-se claramente a separação por sexos – mulheres para um lado e homens para outro –, mas em que pairava no ar a magia da sedução, sem toque físico, tanto na dança mais clássica como ao estilo “bollywoodesco”. Do Peru, através de uma dança executada por um casal, ficou realçada novamente a sedução, a fazer lembrar um ritual de acasalamento entre aves sul-americanas. Ele rodeava-a, de lenço na mão, a tentar tocar-lhe e ela furtava-se ao toque; quando finalmente acedeu, ele pegou nela às costas e saiu de palco. O grupo da Sicília iniciou com os homens de cajado a ver as mulheres dançar. Aos poucos foram-se metendo, formando pares, até que estalou o desentendimento – a eterna luta de dois ou mais homens por uma mulher –, levando a parar o baile, afastamento das mulheres e simulação de uma tremenda luta com cajados; logo que reposta a serenidade, o baile prosseguiu, com o efeito tranquilizador da música. Da Eslovénia, surgiu um casal de noivos a brigar verbalmente em palco; descarregada a tensão, surge a reconciliação, o casamento e o animado baile com os noivos e os muitos convidados; numa das danças, surgem dois homens juntos, a dançar agarrados, o que leva a refletir sobre esta realidade – os sinais do tempo parecem acenar-nos com outras opções e mais tolerância –. Da Sérvia, verificava-se um início da dança a tender para a separação por mulheres e homens, e performances a ritmos vertiginosos, com graciosidade das mulheres, sempre sorridentes, e postura musculada dos homens, de cordoamento na mão, como se tratasse de um chicote, fazendo-o tocar com estrondo no chão, para intimidar e submeter. Os homens, com esse “chicote”, iam supostamente “eliminando os adversários” até ficar só um deles com uma mulher. Ironicamente, no fim, o homem saiu de palco amarrado pelo seu “chicote”, puxado pela mulher, deixando a ideia que, afinal, o homem machão, musculado, pode ser subjugado pela beleza e inteligência feminina.

Uns dias depois, quando uma massa de ar quente levou a que se tivessem vivido os dias mais quentes de sempre no interior e sul de Portugal, estava-se de volta à avenida Central para se viver “Do Bira ao Samba” e um carnaval fora do tempo. Um animado programa, a interligar Portugal e Brasil, incluiu a presença dos caretos de Ousilhão, de Trás-os-Montes (Portugal). Estes, com as suas travessuras e achocalhar, fizeram a ronda entre o público e criaram o “caos” junto das mulheres. A dado passo, vê-se um careto a agarrar uma jovem, colocá-la aos ombros e simular afastar-se do recinto com ela.

Não tem necessariamente de haver “moral da história”, mas daqui resultam evidências: as mudanças bruscas e extremas de temperatura, resultantes das alterações climáticas; o interesse da animação cultural na vida das pessoas; a complexidade do relacionamento humano, mesmo que visto sobre o prisma do folclore; o por quê de Braga ter a cidade com mais qualidade de vida[1] e a população com maior índice de felicidade em Portugal[2].

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[1] Fonte: Eurobarómetro – Percepção da qualidade de vida nas cidades europeias [75 cidades].

[2] Idem.

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