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Cidadania e Sociedade

A BARCA DE NÃO É

Finalmente uma noite de verão, com a brisa quente a acariciar-me levemente o corpo bem nutrido, no conforto da minha varanda com vista para todas as comodidades que consideramos básicas: o quartel dos bombeiros, um supermercado, uma escola, paragens de transportes públicos e, um pouco mais acima, o centro de saúde.

É nesta cidade da periferia, que cidadãos inflamados se envolvem em acesos enredos por questões de somenos importância. Dizem que a disponibilização de uma ciclovia veio usurpar lugares de estacionamento. Em segunda fila, entenda-se.

Se atentarmos nas notícias, percebemos facilmente que somos uma cambada de meninos mimados. Eu sei, cada um com os seus problemas.

Permitam-me trazer à lembrança, porque ela nos foge constantemente, que existem pessoas que compraram a ilusão de entrar num barco em busca de salvação. Prometeram-lhes uma vida assim, quem sabe com uma varanda num terceiro andar, e escolas, e centros de saúde. Duvido que saibam o que são ciclovias.

Entraram na barca da salvação, só para perceberem mais tarde que muitos jamais serão salvos. Ficam pelo caminho. E os que não ficam passam a ser pessoas de ninguém. Arriscaria até a dizer que poucos lhes atribuem o estatuto de seres humanos. Eles queriam ser, mas não são. Parece que lhes faltou a sorte para o serem. Os que quase chegam, permanecem à deriva no mar, tantas vezes doentes e feridos, à espera que outra pátria tenha a bondade de os receber. Como pais separados com filhos problemáticos, vemos países evoluídos que embandeiram a beleza dos Direitos Humanos, num autêntico jogo do empurra: Não falem comigo, falem com outros. Nós fomos os últimos a receber, passa a bomba e não ao mesmo.

E assim vai girando o Mundo, em sentido contrário. A evolução tirou-nos o discernimento e, parece-me, a capacidade de sentir empatia. Levou-nos a concentrar a nossa atenção em questões mesquinhas.

Mas há esperança. Há quem se compadeça e faça por reunir as condições para subir a bordo de uma Barca de Não É e juntar-se aos que Não São. Temos um portugês que é, e é grande. Embarcou no sonho dos que almejam a salvação, com a consciência de que muitos não chegariam. Não pediu protagonismo, mas descobri-o por aí. Este Português é agora acusado pelo governo Italiano de auxílio à imigração ilegal. O Miguel Duarte compadeceu-se, largou tudo, frequentou sessões de stress pós-traumático e serviu a humanidade. E isso custou-lhe um processo legal que terá que enfrentar, aos 25 anos de idade.

Obrigada, Miguel!

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