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Cidadania e Sociedade

FUGA AO INVISÍVEL

O gelo corta os rostos sofridos, na noite ondulante e salgada de verão. O silêncio espesso das bocas fechadas é denunciado pelo medo atroz que o olhar oferece sempre que avista, por cima do ombro, a presença dos seus incansáveis predadores.

O sol nasce para mais um dia sem rota, que ruma a um qualquer destino sem terra à vista.
A fragilidade da embarcação sobrelotada não assusta os tripulantes porque não existe medo de naufragar para quem tem mais pavor de ficar do que ânsia de partir.

A perseguição continua e a fuga angustiante parece não ter fim.
A poucos metros do bote preto de borracha, outro segue no seu encalço, pejado de guerra, de medo, de pobreza, de miséria, de desemprego, de falta de condições sanitárias, de analfabetismo e de vis ditadores.

Das crianças que seguem a bordo por entre os adultos, nem uma lágrima, nem um choro, nem um lamento. Elas aceitam que o seu fado é não terem fado.

A ténue linha do horizonte, até então perfeita, torna-se irregular e disforme.
Os corações humanos começam a bater, não se sabe se pela aproximação à terra, se pela aproximação do barco que os persegue.

Ninguém ouve os corações alheios, apenas o seu, ribombando na garganta, ensurdecendo a razão.
E a espuma salgada desfaz-se na areia dourada pejada de pessoas e objetos coloridos.

O bote invisível já roça no bote dos fugitivos, está quase a alcançá-los e os seus ocupantes esticam os braços, ficando a poucos centímetros de puxar os ousados desertores para fora da embarcação que se encontra prestes dar-lhes uma nova vida.

Embatem, então, vigorosamente na areia e começam a correr pela praia, dispersando como pequenos insetos escondidos debaixo de uma pedra que alguém levantou. Apressam-se, mato adentro, desaparecendo.

Na praia há quem se assuste com a invasão dos indigentes e segure os filhos, há quem comente, quem ria e quem tudo filme para a posteridade.
É sem dúvida um dia diferente. A praia invadida por selvagens permite a rápida circulação de vídeos nas redes sociais que se tornarão num importante acervo para mostrar aos netos, quando a velhice já não tiver futuro e o passado for amarra até ao fim dos dias.

O outro barco, o invisível, os veraneantes não viram atracar, não foi filmado nem objeto de curiosidade, mas os seus tripulantes continuaram a perseguição feroz aos fugitivos que procuraram, cada um por si, fugir dos agressores que os violentarão, agora, em solo europeu.

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