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Cidadania e Sociedade

O REGRESSO DOS QUE NUNCA FORAM

Ou foram, mas nem deram por isso.

Chegou Setembro, e com ele chega também a confirmação de dias mais cinzentos e de pessoas absolutamente negras. Não é difícil adivinhar que muitos de nós sejamos tomados por instintos assassinos, com o encolher dos dias e o regresso ao emprego.

Com o olhar vazio, semblante transtornado e caninos afiados, colocamos um pé fora da cama quando o que nos apetecia mesmo era colocá-lo – com uma força musculada – sobre o despertador. Gostávamos de ter, ali mesmo na mesa de cabeceira, não o copo de água mas o balão de Gin tónico para nos dar o ânimo que parece ter-se esvaído sanita abaixo juntamente com o último xixi da noite.

Espera-nos o trânsito caótico, as superfícies comerciais caóticas – animadíssimas por mochilas holográficas e pais desesperados em busca de material escolar – e o chefe. O caótico chefe.

Não tivémos sequer duas semanas de férias, tivémos uma semana e meia porque nos restantes dias já estavamos demasiado deprimidos para usufruir do descanso. E, no entanto, lá vamos empurrando aquele emprego com a barriga. Afinal, é ele que nos paga as contas. E, abençoado seja, com tanta gente sem emprego. Mesmo que o chefe não nos valorize, não nos ofereça possibilidades de progressãona carreira, mesmo que a empresa tenha uma fraca política de gestão de recursos humanos. E a produtividade desce. E o chefe já nos trata como se fossemos algum tipo de empecilho que mantém ali por pena, que a pena sempre disfarça qualquer inaptidão para gerir a insatisfação do empecilho. O empecilho, às vezes disfarçadamente, lá vai deitando o olho ao telemóvel, que as redes sociais ainda são um elo de ligação às pessoas que lhe aliviam o fardo. Sejam os amigos, a família, aquele hobby que lhe dá prazer, ou uma qualquer janela para um mundo longínquo e bastante mais inspirador, o que não será difícil de acontecer.

Mas o chefe não aceita alguns minutos de paliativos, que os colaboradores estão ali para colaborar, não para confraternizar. Pagam-lhes (mal) para morrer friamente, paliativos são para maricas. Não querem lá pessoas emocionais, ligadas aos laços que se encontram no exterior.  Querem lá gente que ambicione, estupidamente, ocupar o lugar de relevo guardado para os lambe botas e para os tios e os primos, de um sobrinho ou de uma prima qualquer, que já por lá se senta numa cadeira fofa. E cala-te bem calado, porque há muito quem ganhe o ordenado mínimo.

Sejamos pragmáticos. O universo laboral não é para introvertidos, é para quem convive interna e alegremente com a língua pendurada. O meio laboral não é para quem deita o olho a uma rede social, é para quem convive nas salas de fumo, várias vezes por dia. O trabalho não é vida, é uma questão de sobrevivência. Ninguém quer saber da tua essência. Na verdade, ninguém quer saber de nada a não ser da baixa produtividade gerada pela  insatisfação crónica.

E é assim para muitos de nós. Até que a regra, que deveria ser exceção, nos adoeça o corpo e a mente.

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