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VIDA SEM PENDURA

Por estes dias resolvi, finalmente, ir às Festas do Mar em Cascais.

Aproveitando o bom tempo e ausência de crianças, partimos a dois para um passeio vespertino pelas praias e pela vila, saboreando os recantos e a paisagem. Chegada a hora de jantar, antecipando uma noite de espectáculo que entraria noite fora, sentámo-nos numa esplanada para repor energias e alimentar o corpo. Levantou-se aquele vento de fim de tarde, quase frio, agitando furiosamente as árvores, e o empregado, gentilmente, trouxe mantinhas polares às senhoras. Entregou-me uma, e à senhora da mesa ao lado, outra. Viria a pensar mais tarde que as mesas dos restaurantes deveriam estar localizadas mais ou menos como as sogras: não devem estar muito longe, mas sobretudo não devem estar muito perto.  Ao contrário do que esperava, o espectáculo não começou pelas 20.30, começou antes. O espectáculo de rua, quero dizer. É inevitável ouvir alguma coisa das conversas alheias, e no caso concreto pareceu-me que estavam ambos preocupados com tudo menos com aquele jantar a dois. Ela atendeu várias chamadas sobre encomendas da loja que teria, de clientes, da mãe, da irmã …O marido estava mais preocupado com o jogo que passava na televisão. No fim do jantar, ainda ouvimos uns azedumes em voz feminina, que reclamava que ele na véspera teria ido aos touros e agora só queria ver o jogo e ela não era senhora de fazer nada à vontade dela. O homem resmungou entre dentes, sem direito a resposta clara.

Pouco depois partimos também para a emblemática Baía de Cascais.

Pessoas de todas as origens e sotaques circulavam descontraidamente pela praça, mirando a paisagem, apreciando o aroma das barraquinhas presentes, saboreando um petisco, observando a construção de areia que um homem fez. O detalhe e a precisão daquele castelo de areia contrastavam com a imprecisão com que as pessoas atiravam as moedas, caindo ao largo do recipiente que aí tinha sido colocado para esse efeito.  O homem, de cócoras, apanhava as moedas, barafustando. Na praia e na praça pequenos grupos iam-se aninhando, preparando-se confortavelmente para o espectáculo, maravilhados com o reflexo da lua num mar de prata. Jovens, menos jovens, sozinhos ou em grupo. Aos poucos a praça foi enchendo e todos aguardavam Pedro Abrunhosa na sua enérgica excentricidade vocal e literária.

Mas era impossível, ainda assim, não reparar nas diferentes personagens que como nós estavam a assistir ao espectáculo de abertura. Um homem franzino dançava, como se em transe, entre as pessoas, agitando as asas, bamboleando entre as pessoas, deslocando-se num ritmo rápido, quase como se desse balanço para o voo. A princípio pensámos que estaria a brincar com uma criança, mas não, brincava apenas consigo mesmo. Muito perto, uma mulher instalou-se com uma cadeira de praia e um saco-cama de apoio. Olhares inevitáveis dos transeuntes, para aquela mulher andrógina, de baixa estatura, como se pretendesse pernoitar. Ao nosso lado, sentada no muro, uma senhora de aspecto distinto e cuidado. Sozinha, rapidamente entabulou conversa, num tom nasalado e cheio de adjetivos em grau superlativo absoluto sintético. Contava ela, sem necessitar de incentivo, que era queridíssima, mas não suportava pessoas rudes, a tocar-lhe nas pernas enquanto se sentavam, falando claramente da contemporânea de muro. Que veio sozinha, que sozinha foi também ao concerto da Shakira. Que o amigo arquitecto, a amiga da Comissão Europeia, era tudo gente extraordinariamente amorosíssima. O marido ficara em casa.  À nossa frente uma família a três níveis. todas loiras de raiz escura, em estilo boémio-chique, trouxe os Bernardos e as Carlotas para o meio do povo.

Pedro Abrunhosa entrou, entre jazz e rap, entre amor e sexo, entre balada e ritmo de dança. Pedro e a sua banda, numa sintonia perfeita, num local perfeito. O vento amainou, talvez tivesse abrandado para escutar a música que em crescendo enchia a praça.

A praça adensou-se, sendo agora mais difícil encontrar personagens por entre a multidão, mas, por ter chegado cedo, fiquei com os anteriores sinalizados. O homem franzino, a mulher andrógina, a queridíssima, na solidão da multidão, apreciaram a noite que lhes surgiu como uma dádiva, como celebração da vida. Cada um na sua forma distinta, ondulando e esvoaçando de braços abertos, sentada e aquecida na cadeira de praia, ou meneando alegremente as ancas, foram felizes. Alheios ao aglomerado, sem censuras, sem preocupação com o olhar de outrem, sem receio do preconceito, da tipificação, sem qualquer pejo do ridículo. Fiquei a pensar que aquelas pessoas, a quem facilmente entregamos olhares de estranheza, procurando perturbações comportamentais ou mesmo mentais, que referenciamos como padecendo de isolamento, são afinal muito mais autênticas e mais felizes. Têm a coragem de ser, sem qualquer travão social, e sobretudo de fazer desacompanhadas as coisas que os fazem sentir-se vivos.

Quantos de nós não deixamos de ir aqui ou além por receio do desconhecido? Quantos não nos controlamos no ímpeto do som, do canto e da dança condicionados a opiniões terceiras? Temos a coragem de sair de casa para um programa que mais ninguém aprecia? Temos a segurança de fazer o que nos apetece, uma vez na vida, realizar uma vontade, sem nos trancarmos na vontade do outro de nos acompanhar?  Fiquei a pensar neles, e como às vezes somos tão limitados a julgar os outros. Pensei também na dona da loja, cujo marido só se preocupa com a tourada e o futebol, e talvez ela, se tivesse a coragem, pudesse estar também ali, aconchegando-se na mantinha que nos deram, dançando sozinha, ou simplesmente observando a lua, que alumiava os corações e energizava os corpos daqueles que não têm medo.

“…Sem pendura que a vida já me foi dura
P´ra insistir na companhia”

125 Azul, Trovante


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