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DESPEJO

Despeço-me de tudo o que é meu!
Das paredes mudas que durante décadas se fingiram surdas, dos móveis de madeira tão maciça e pesada como os pecados que se cometem numa só vida, dos naperons bordados pela minha mãe que, em cada linha, acariciou o meu intrincado futuro e da velha e rangente cama onde derramei o sangue que me tornou impura aos olhos dos homens sérios por quem nunca me apaixonei.

Despeço-me de tudo o que me pertence!
Do degrau de mármore carcomido, gelado e virado para a rua onde tantas vezes me sentei a descascar as favas contadas, nas porções ideais porque os tostões eram escassos e os meses todos iguais.

Despeço-me de tudo o que julguei ter!
Das vielas por onde o meu falecido, entre muros caiados e cargas de ombro, se deixava conduzir até casa sob a melodia doce do álcool que se arrastava pelas pedras cravadas no solo por onde brotavam, a cada primavera, os filhos das outras que, ao contrário de mim, não tinham barrigas ocas.

Despeço-me do que não quero.
Das gentes ébrias gritando em línguas que julgo desconhecer, das caras sempre novas que me encaram a cada ruidoso amanhecer.
O turismo é o novo rei – afirmam aqueles em quem, ingenuamente, durante anos votei.
Querem a minha casa para dar nova vida à cidade, porque o futuro não espera e da minha vida pouco resta, por já ter – dizem eles – demasiada idade.

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