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Cultura, Literatura e Filosofia

A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO DÉCIMO SEGUNDO

Ergástulo nenhum. A feérica certeza reforça o lais de guia que nos confere translúcida comunhão. Ancoradouro do qual nunca largamos, intensa a laborada ligação.
Degraus, subidos, em mão única contados. Amarela a tonalidade que me cumprimenta sem servidão alguma, não abrindo, mas como que abrindo, as portas que estendem a essência de toda uma aldeia para o interior de sagrado espaço que partilha de artéria mesma relativa humildade que verte da ação dos seus.
Não requerendo qualquer divina intervenção, sei-me dentro de um alvéolo, que contínua ligação tem com o que o exterioriza e o adorna, sem recusa de importância a mesma.
Para trás, não olvidando, fica a matiz que decantará para cena recriada em futuros próximos o representativo do momento que observo e escuto. Silenciosamente.
Dobram os sinos. Não se excluem, e ninguém o fará por eles, do momento sentido. Ingrediente duma mesma receita, não anotada ou decorada, de felicidade.
Dessa mesma torre, singular relógio-que-nunca-nos-apressa olha o deslizar do tempo, no pacifismo que o interior da igreja permite sentir. E nesta sensação, fácil nos é pernoitar.
Percorro levemente central corredor, ladeado por compridos bancos que se perfilam, orientando a visão de quem descanso ao corpo dá, de uma sacra tela, onde figuram elementares símbolos que corpo e significado maior dão ao espaço.
A ré olhando, onde coro se eleva, em navio este poderia ser o parque de sinais, onde não de muda forma, mas de harmonia, traduzindo a profunda fé e entrega ao ali estar. Hoje ouvintes todos somos, da corporal entrega de componentes que se fundem e em nós despoletam um sem número de sensações que não prescindem de aval nosso, onde a lágrima ou o sorriso suspendem todas as impossibilidades até agora em busca de alimento novo.
Amantes nos tornamos de momentos como estes, aqui sentidos que, na extensão do que sou, das palavras tentáculos faço, sóbrios do sentido, interditando alienação alguma do espaço e do que representa. Apenas musculando o humano e a sua sensibilidade, como que nova quadro pintando e a cada visita novo recurso à paleta, sem adulteração qualquer do que a olho despido se apresenta, tabu nenhum, realidade que promete o não enclausurar de uma liberdade que aprofunda o conceito de comunidade.
No dia que vivemos, fruto da memória que guardo, mas não pensem que a sete chaves a diminuo, nada se altera. Há um viver que não se despede de diário habitar, mesmo no reforçar da comunhão que ali se vive. Não desertam do que representam. Aqui, continuidade são.
A manhã, que se desprega do tecido laborado incessantemente, é sagrada, onde crentes e outros que de fé se munem, ali algo partilham para com o Outro. Chamemos-lhe o próximo, o semelhante. O critério vosso é. Importante será a não perda de necessidade sua no diálogo, que abre como precedente humana pluralidade.  A celebração em torno de sagradas palavras dita a continuidade do dia que não se avizinha. Já o é.
Ao despedirem-se do espaço que lhes permitiu refletir em torno de escritos aliados à terrena existência, de exemplos temperada, aproxima-se reunião outra, casa a mesma. O celebrar a música portuguesa numa morada de portas a todos aberta. Portas que estruturadas de respeito e compreensão para o que tanto dentro, como fora, dos limites das mesmas se realiza, vive, sente.
Desculpem este brincar com e no tempo, acomodando-o a horizontal plano, munindo-me de analepses e prolepses que poderiam servir de floreados literários. Aqui, aparecem, no impulso de um presente momento que vivo, capaz de chamar cada um desses recursos a um só tempo. Este que vos conto. O tempo que me habita.
Mais não somos do que um lugar habitado.
E neste chamar aos braços do presente, este se despede de roupagem dada, impondo nome outro que ajustado fica ao que representa no momento que vivendo, já o deixa de ser.
Pensamentos que escritos, mãos em corpos seus, sentisse cardíaco batimento, indicando vida que instiga ao aprofundar dos laços que se vão criando em torno dos espaços.
Pensamentos que em pandeiro se interligam, múltiplas as sinapses, dispostos na tolda de coração meu. O chicote dos cabos que os constituem, como que decidido a um término não ceder, tocam-se, barreiras ultrapassando, certos de que a compreensão será o mote para a decifração de um quadro que frequenta a simplicidade no tato. Costados que se encontram. Sentem. Sabem-se próximos. Partilha de comuns alvéolos que embalam, crias defendendo, a beleza recriada em cada fechar de olhos, ou pestanejar simples, num mimetismo perante a batuta, em cândido bailado, desorganizada, como que em pantomina, poeticamente, no vazio.
Num ápice, abraçados, a este momento voltamos. Sentados em bancos que são envolvidos pela frescura sentida no interior do edifício. Meus braços nos inexistentes braços de um deles. Não que concordância esperasse, apenas simples gesto de aproximação e interseção nos pensamentos que soltos se encontram e, vezes muitas, se sentem, repensando-se, num contínuo exercício de aperfeiçoamento do humano. Braços que nos servem de compreensão incondicional e que sem confessionário fechado, ouvintes se tornam, como que em múltiplos canais auditivos distribuídos, a interior regaço conduzidos, onde sussurros nossos depositados são, jamais ao esquecimento remetidos.
Altar este que me serve de horizonte próximo, elemento fundamental no espaço fecundo na comunhão de emoções. Olhos que me escutam, pelos movimentos que vou rabiscando, quer num isolamento que nunca o é, certo que para mim o sinto, quer nos dias em que me ladeio de uma alegria que se traduz nos sorrisos que olhos esboçam, mesmo que fechados, ou não seria esse ocular descanso uma outra forma de sorrir.
Pesco, suavemente, sem nunca corpo todo da memória se ausentar de salgado lar, memórias de um entrelaçar de corpos que lágrimas permitem balançar nas cordas que os unem. Sentida a música que não se esquece de quem a aprecia na beleza que o lugar traduz.
Paredes cúmplices de um amor pela arte de saber ouvir e sentir. Em momentos como esses, onde o artista se confunde com o público, ou não seria este a batuta que marca o compasso emocional de quem se entrega integralmente à arte que tão bem tece.
Se à vida sinónimo atribuirmos de uma peça, aqui certo que só de um ato estruturada seria, de cena única, mesmo que hiatos temporais existentes. Não seriam os suficientes para amenizar a força que esta imagem confere ao ali vivido. Só o estar permite tal constatação. E quão bom o é.
Ali, filhos de uma mesma mãe, mesmo que adotivos. É a casa de uma aldeia. É a aldeia. E ali bem-vindos todos o são. Pois mãe é ser-todo-em-tudo-humano.
Cerro os olhos. Os nossos, já. Respeito o que meu coração pede. Fecha-os. Não me apoio na rebeldia de contrariar inexata tabuada, onde pálidos se encontram os números que pontualmente apontam o dedo e riem perante pessoas que em muito se apaixonam pelo que vive.
Pecado assumo se isto de me apaixonar por pessoas muitas me eleva a um patamar de famélico do sentir.
Julgo que é a entrega ao momento que me orienta para o culminar de um degelo emocional que se traduz no reaparecer no que no subcutâneo do pensamento se mantinha, prolongando a sua estadia em longos períodos de hibernação, retendo qualquer possibilidade de conhecimento de outrem.
Há uma entrega à arte e ao espaço que somente nesse abraçar é possível perdurar na memória. Luzes que expandem na sua simplicidade, irradiando a felicidade do que ali se comunga e até nosso corpo chega, onde porosos nos encontramos à coexistência. Os ornamentos de uma igreja que só se equiparam à riqueza afetiva que ali transpira.
Ouvir o mundo do Miguel, do artista, de humano ser, é entrar nele. Dele parte fazer. De presságios alerta, tamanhas as tragédias, boas aqui também, mas sobre firme solo caminhando. Como que costurados em linhas tingidas de intensidades mil chegássemos até nós. Nos visitássemos.
Voz que nos abraça como se pressentisse desespero. Límpida, marítima, que dupla grafia permite.
Ela, olha-o. Não se repele. Caminham ladeados pela certeza de um bem maior fazer a quem os olha, mesmo que não olhando, olhando. Mãos que se orquestram. Dedilhando-se. Em cordas não sucumbem o amor que nutrem e depositam no que os une. Nos une.
Felicidade. O estar. O saber estado. O querer continuar, em casa, aldeando cada um destes pequenos grandes mundos que esta nomenclatura artística permeia e nos permite ao ponto de autorizar assertiva máxima.
Neste castelo mando eu.
Um eu, que é um nós. Que representa toda uma comunidade que de afetos compreende e os pratica sem recurso a sumários.
A um enlaçar de mãos de ambos. Tecido. Profundo na simplicidade. Do respeito pelo que os circunda. Não se ausentam um do outro. Presenciam-se. Saem do seu universo para nos sussurrar ao ouvido, calmamente.
É assim que sangrámos.
Polvilhados pelo amor, os afetos não se fazem esperar a cada tertúlia entre vogais e consoantes, não permitindo andamento menor.
Na imensidão da arte que cúmplices os encarcera perante anteparas estanques em nada. Maresia que circula na liberdade que o é o da criação.
Como que requerendo ser crianças, puerilmente revivendo temas aqueles nessa cronológica condição e até adulta idade acompanhar seu urdido trilho. Isto, o tempo não destrói.
Plena, sentida, uma sobriedade percorrendo todo o seu mundo que encantatório se nos apresenta.
Vulneráveis, insuflando-se de severidade para com a auditiva função de não escrutínio em demasia, de cada melodia, aliada a simples mas vincadas letras.
Muitos os que entraram, desconheciam o ensaio do humano que lhes propunham. Sem levantamento algum de variáveis de análise, suspenderam o tempo.
É nesse tempo que nos encontramos. O tempo do Miguel e da Marta, e de tantos outros oleiros que aqui laboram os afetos nas melodias que as cordas de um piano e da voz tecem.
Contam, recontam, a cada entrega e celebração do humano num espaço de crença e fé nos homens. Ali se escuta, se pensa a dignidade. Entrave algum quando o respeito é o alicerce para tal belo edifício. Inacabado, certo é. Mas orgulho maior nos sara pensamentos menores, quando possível é outros andares acrescentar ao já erguido.
E por esperança haver e fundar momentos como estes, parte fazem da memória coletiva deste povo, que contando alegremente o vivido, não acrescenta um ponto. Sim, a saudade. Indizível.
Terno o espaço que nos agradece a presença, não vá ser remetido a um esquecimento ou a visitante que se encarcera em catalogações, questiúnculas que em nada favorecem a beleza e respeitabilidade que lhes são inerentes.
Ali é o próprio espaço que presencia o que em seu coração serve de batimento e propulsiona o transporte de paz e sinceridade aos que constituem sua forte e musculada parede, revestida de um humanismo que somente os presentes podem ceder sem pedido primeiro.
Olho. Num mesmo olhar abarco o espaço e quem responsável é pelo despoletar do que vos tenho contado. Sem escrutínio maior, sinto o que me entregam, na intensidade suave do toque, onde a música gosta de si própria, orgulhosa menina, enquanto expressão e representação emocional.
Continua o dedilhar de cordas. Sua composição em materiais diversos, que antecedem o eclodir de emoções que não interferem no trânsito de outras que em vias outras circulem. Braços que envolvem o corpo que paralelas mantém suas cordas, como que não querendo diminuir igualdade que as significa. O entorpecer, no toque de corpos, sentido é, como que meus pés recetores de tal comunhão fossem e função determinante na não tradução adquirissem, mantendo a singularidade do toque intocável na raiz que o amanheceu para a aldeia. E nela, todos somos seus artesãos. Seus andaimes. Suas tábuas. Braços em perpendicular e paralelo. Um todo.
O avesso da superficialidade que domina cantos outros, aqui, a antítese encontramos, tempo tendo para em tecido a ponto de cruz viver e não por meio ponto ficar.
Ergo-me. Não recolho qualquer emoção ou pensamento meus ali sentados. Sei que em boa companhia ficarão. Poucos serão os ocasos que nos separarão de encontro que na despedida já se impõe como evidente vizinho.
Deixo as portas que não se fecham à minha passagem, adivinhando, por certo, retorno meu, numa saudável inquietação que me permite concretizar profundo conhecimento do eu.
Agora, já ninguém escreve, em redentor silêncio, linhas mestras de uma poesia que o lugar-não-comum propulsiona, sem qualquer descaramento. Honestidade lhe chamamos.
Mania esta de em tudo uma embarcação ver, dimensão qualquer, mas sóbrio que nela cabem todos os afetos que transporto e outros tantos que paridos são na confluência do sentido.
Talvez eterno construtor, em naval estaleiro, horas muitas ao corpo de cada um dedicado, munido de uma ansiedade de ao mar os lançar, sabendo-me entre a necessidade de outros construir e a bordo permanecer em função que compreenderá o porquê de um todo tecido com verdadeira camaradagem.
Talvez seja tradução minha de um mundo que meus olhos e coração alaga, carregando até ao mar o que com ele partilhar desejo.

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