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Cidadania e Sociedade

AFINAL, MUDA A HORA?

Afinal, muda a hora?

Pouco importa à patusca da minha vizinha; vizinha que se deita cedo com as galinhas; galinhas que dão uma saborosa canja; canja que há quem diga ser boa para a alma; alma francamente despreocupada com o inferno; inferno que estará a abarrotar de bem-intencionados; bem-intencionados que persistem em mudar a hora; hora de inverno, hora de verão, porque desde 1916 que é assim; assim, a pensar num esforço de guerra, pretendia-se poupar combustível; combustível atualmente com injustas sobretaxas por corrigir; corrigir estúpidos erros de um passado bélico, quando ainda se lia à luz da vela.

Afinal, muda a hora?

É irrelevante para a minha gata; gata que é um regalo vê-la dormir; dormir bem não é para muitos; muitos acham mesmo que as insónias são um inferno; inferno que é somente aqui na Terra; terra que nos dá o pão; pão que não há em todas as mesas; mesas onde se tomam decisões; decisões nem sempre as mais acertadas; acertadas as horas, teimosamente, duas vezes por ano; ano que devia contemplar esta simples mudança; mudança que dizem ter implicações – esforço inútil no argumentar; argumentar tosco, simulando preocupação com as alterações na rotina dos animais, e de humanos com problemas cardiovasculares e perturbações de sono.

Afinal, muda a hora?

Quer lá saber a criança, ao ver desenhos animados; animados são os dias de quem tem entusiasmo pela vida; vida que deve ser vivida no presente; presente, disseram e responderam à consulta pública 4,6 milhões de europeus, que não querem a mudança da hora; hora é problema e chatice para o presidente da Comissão Europeia (CE), deixando-o agoniado; agoniado, fica todo e qualquer eurodeputado se tiver de debater o assunto à sexta-feira; sexta-feira é bom dia para os membros do Conselho Europeu reunirem e prolongar a estadia de férias num dos 27 estados-membros; estados-membros, CE, PE[1] e portugueses que não reagem ao saber que, entre 2006 e 2018, os consumidores portugueses desembolsaram 22,6 mil milhões de euros de rendas excessivas à produção de energia elétrica[2], sob a forma de enormes impostos indiretos, sem discussão nem transparência.

Afinal, muda a hora?

Irra! Há cem anos que se anda a discutir a mudança de hora, quase sempre em torno da energia. Já não há paciência, nem para encadear mais acontecimentos. Não leio nem escrevo à luz da vela, embora reconheça que possa ter o seu encanto, numa perspetiva romântica. Eu faço a minha parte: com preocupações ambientais e de poupança nas finanças pessoais, uso as vulgarizadas lâmpadas LED e equipamentos elétricos e eletrónicos, classificados com A e alguns + + +. Vá, meus senhores, deixem-se de pruridos, despachem-se na formalização da decisão e deixem-nos à nossa sorte com o horário de verão o ano inteiro! Cá nos havemos de desenrascar, e não há outro povo como os portugueses para o desenrascanço; nisso somos mesmo bons. Quero pressa neste assunto, pois não achei graça nenhuma ter gozado o meu aniversário num dia com apenas 23 horas! Certamente a gata pressentiu a minha indignação e ficou com o sono alterado – só por isso. Quanto à minha vizinha, que continue a deitar-se cedo com as galinhas, que não é da minha conta. Quanto à criança, custa-me vê-la tantas horas a olhar para os desenhos animados no televisor ou no smartphone, quando se pode desenvolver harmoniosamente com tanta coisa agradável para fazer/mexer. A menos que, até lá, seja preciso esperar pela aprovação de dossiês legislativos pelo PE, para uniformizar o modo como todas as criancinhas devem brincar no espaço europeu. E se for um ato legislativo abrangido pela codecisão e o Conselho Europeu estiver em discordância? Ou a CE meter, dissimuladamente, a colherada onde não lhe compete, e revirar o processo, que nos obriga a repensar a apregoada democracia. A ser assim, as criancinhas bem podem ficar à espera… mas também, ao fim de poucas horas, caem para o lado carregadas de sono; ah… e sem preocupações com a mudança de hora.

Afinal, muda a hora?

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[1] Parlamento Europeu.

[2] Divulgação feita por Abel Mateus (antigo presidente da Autoridade da Concorrência), na comissão parlamentar de inquérito às rendas excessivas da energia, em 11-09-2018.


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