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GUINÉ-BISSAU EM TEMPO DE CHUVA

Mais uma época de chuvas a lembrar que na Guiné-Bissau muito está ainda por fazer e muito do que foi recentemente feito deveria estar muita mais bem feito.
A chuva que chega em Maio prolonga-se até Outubro e, este ano, o mês de Setembro está a ser particularmente fustigado com dias consecutivos a chover e com ventos fortes.

Esta época é sempre complicada. A falta de infra-estruturas de saneamento básico aliada ao desordenamento urbanístico que tomou conta dos bairros da capital nas últimas décadas, tornam uma pequena viagem de um bairro a outro de Bissau numa verdadeira aventura e, viver em qualquer um deles, um permanente desafio.

Os buracos nas estradas de terra batida enchem-se de água e lama, nas casas fazem-se barricadas com sacos com areia e pedras, por vezes correm verdadeiros rios em que as bermas são as pessoas e os seus bens que tentam por a salvo.
Muitas estradas ficam intransitáveis com a forte pluviosidade, as casas inundam-se, outras ficam se telhados ou caem sob o peso da água. O lixo navega sem norte entre carros, casas e pessoas.

A capital, Bissau, torna-se um caos, o mercado do Bandim uma tormenta para vendedoras e clientes. Mesmo depois de uma onerosa obra de requalificação que nos últimos anos asfaltou estradas e fez valetas cobertas por passeios. Mas de nada adiantou… Lembro-me em 2012 de um jantar que acabou abrutamente com o dono a pedir-nos para partimos rápido porque as águas estava a subir. Nem receber quis e empurrou-nos literalmente para o nosso jipe. Chegar a casa foi um golpe de sorte. A água que corria na estrada cobria o jipe até à altura das janelas. Um táxi que perdeu o chão vinha desgovernado com o motorista e o cliente a segurá-lo, do lado de fora, para que não chocasse connosco. Entre muita água, lixo e medonhos raios a iluminar a cidade escura como breu conseguimos chegar a casa. Nessa noite o avião da Tap que aterraria de madrugada teve que ser desviado para Dakar.

Este ano as chuvas demonstraram de novo a sua força e voltaram a cobrir de água e lama as ruas de Bissau e do país. Talvez se tenham voltado a pescar bagres nas ruas da cidade como cheguei a ver uma vez miúdos a fazê-lo numa vala junto do hotel Malaika, em pleno centro da capital.

No resto do país, a chuva faz rios que correm de forma mais errática pois a pressão urbanística é naturalmente menor. São estas massas de água que isolam por completo populações de determinadas zonas do país, deixando-as sem acesso muitas vezes a víveres ou aos cuidados de saúde mais elementares.

Não é fácil enfrentar as chuvas quando as condições e os recursos são praticamente inexistentes. Como aqui.

Até agora já se contabilizou centenas de desalojados e vários mortos (três em Junho; este sabado cinco pessoas morderam na queda de uma árvore de grande porte numa das ilhas dos Bijagós; fora os outros que poderão não entrar nas estatísticas oficiais) o que exige das autoridades medidas urgentes para evitar mais perdas humanas e materiais. Porque para o ano já sabemos que virão mais cinco meses de chuva. É a lei da natureza. E há que viver com ela da melhor maneira possível.


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