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CUMPLICIDADES GRANÍTICAS

Há quem defenda que não devemos voltar onde fomos felizes, por medo de por em causa uma memória feliz, ou de nos decepcionarmos com algo que já foi mas já não é. Há os que acham possível ser-se ainda mais feliz na volta a esse lugar, revivendo emoções e memórias. E há ainda os que acham que partilhar lugares secretos, histórias da infância  e outras recordações com alguém que nos é especial, é o cumulo da felicidade. Eu sou dessas. Lisboeta, alfacinha de gema, passava os longos Verões das infâncias de outrora numa aldeia da Beira Alta.

Eu e o meu filho partimos de viagem. Os dois apenas, com  o mote do Motorfestival Caramulo. Mas a viagem revelou-se produtiva. Nunca fui daquelas pessoas que acha queos adultos têm tudo a ensinar e as crianças tudo a aprender. Não, todos podemos aprender. Entrançámos coisas do “meu tempo”  – já lhe expliquei que ainda estou no meu tempo – com interesses dele, de vista no futuro, e ambos resultaram num presente maravilhoso. Ter um filho com quem se pode conversar, livre das disciplinas e deveres, é um prazer imenso. Surpresa, às vezes, com a forma adulta como conversa comigo, deixava-o eu também surpreso com a confissão de travessuras infantis. – Sério, mãe? E foste castigada? Acredito que nos aproxima bastante se nos distanciarmos de vez em quando daquela figura adulta sempre com preocupações , prazos e objectivos.

O Caramulo, vila de antigo sanatório para problemas respiratórios, e agora mais conhecida pelo Museu Automóvel, foi invadida: automóveis e amantes dos mesmos, novos e velhos, donos ou curiosos, tornaram o Caramulo num ponto de encontro imperdível. Porsches, Lamborghinis, Ferraris, Bugattis, nacionais e estrangeiros, concentraram-se num local onde para além da exposição pública, à vista de todos e capturados em objectivas várias, participaram também em corridas na célebre Rampa. Não tenho a aspiração de algum dia perceber 1/10 do que o meu filho percebe, mas adorei que me explicasse que o Dino, por exemplo, foi um carro, casualmente encontrado num celeiro, por crianças. Ao que consta, o dono queria que os empregados o lançassem no rio, para dessa forma poder resgatar o prémio do seguro, no entanto estes, nao sendo capazes de o fazer, esconderam-no um celeiro abandonado, onde décadas mais tarde crianças  utilizaram o seu vidro frontal e capot como escorrega. A cada passo, a cada carro, uma história, uma achega, uma curiosidade. Demos por nós a falar com um casal inglês, dono de um AC Cobra, réplica feita à mão, que fez questão de lhe abrir o capot para lhe mostrar o motor e insistiu para que ele se sentasse ao volante do lado direito. Prometemos todos voltar no próximo ano.

Quanto a mim, mostrei-lhe a aldeia onde fui apenas mais uma miúda, como os que lá moravam, nadando no rio, guardando o gado com eles, escamisando milho, colhendo batatas e só não participei nunca das vindimas porque estas eram tardias nessa zona, já a escola começara. Corri aqueles caminhos de cabra, mete-mo-nos a monte, redescobri antas e dolmens, bebi água das fontes, subi aos miradouros a pé, recordei amigos com quem dancei nos bailaricos de verão. Mas inesquecíveis são os aromas dos figos maduros e da videira com pintor, a alternância dos eucaliptos, pinheiros e castanheiros, cantando ao vento ondulante, o céu estrelado, o cheiro do queijo de cabra em leitosos panos brancos, o som da torre da igreja.

Não creio que um dia ele tenha esta paixão que eu tenho pelo granito. Não creio que um dia eu tenha a paixão que ele tem pelos automóveis. Mas o que temos, notória numa imensa cumplicidade, é uma paixão recíproca, que valida a partilha dos interesses de cada um, daquilo que nos faz sentir vivos. Fomos ambos merecedores dessa partilha.

Talvez um dia ele tenha um filho, a quem traga ao Caramulo. E talvez ele se lembre que a avó Sandra um dia mentiu à avó dela  para ir com uma amiga à festa da aldeia vizinha. Ou talvez conte que no caminho encontrámos 1 cadela com 3 crias, e nos apressámos a sair do carro, sem pensar no perigo,  para evitar que um camião os atropelasse. Ou que o carro ficou preso numa valeta que não se via, encoberta pela vegetação, e foi preciso chamar ajuda para o retirar de lá. Ou que dormimos um sono vespertino na rede, no alpendre do hotel rural.

Um dia destes, uma amiga falou-me num artigo que defendia que não devemos preocupar-nos em criar memórias, mas antes cumplicidades. Concordo inteiramente, mas atrevo-me a firmar que desta vez, pelo menos desta vez, criámos ambas.

“Há entre nós algo melhor que um amor:uma cumplicidade.”

Margaret Youcenar


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