Cultura, Literatura e Filosofia

A ESTRANHEZA HUMANA

Os seres humanos são,  sem dúvida,  a espécie mais estranha que habita a Terra. Essa estranheza advém de uma condição única ou, pelo menos, rara, que faz deles os donos do planeta onde vivem: a consciência. Pela consciência,  o homem percebeu o alcance do seu poder sobre tudo o resto, conheceu as vantagens da sua astúcia, garantiu um lugar cimeiro no plano biológico, adquiriu supremacia mental e fez-se tirano.
Tirano, na exacta medida em que se apoderou, gradualmente, do território, dos mares e do próprio espaço aéreo,  crendo que tudo lhe pertence, que em tudo pode apor a sua marca e que a isso tem pleno direito. O homem fez-se o senhor absoluto da Terra.
Ora, uma tal supremacia, podendo ter efeitos benéficos, já que o homem é inteligente, tornou-se, com o correr dos anos, a razão de múltiplos atentados. Eles são conhecidos, aliás, os efeitos estão aí,  à vista de todos, e antes de serem, deste modo, evidentes foram anunciados à saciedade.  E a estranheza, característica que enunciei como sendo típica do homem, reside justamente aí. Como é possível ver e saber que certas atitudes e certos actos prejudicam gravemente o habitat do qual dependemos, em absoluto, e prosseguir a escalada destruidora?
Mas essa estranheza do ser humano  não fica por aí.
Somos todos humanos, biologicamente falando,  portadores de características que nos aproximam, revelando necessidades em tudo idênticas. Somos todos extremamente semelhantes, pesem embora diferenças pontuais, e o pensamento, pelo qual nos enunciamos e engendramos palavras com as quais comunicamos, é  a linha que nos une e nos permite uma identificação  individual e social.
E contudo criamos barreiras de todo o tipo entre homens e homens e ousamos estabelecer hierarquias. Absolutamente nada, no que humanamente nos estrutura  como seres conscientes deste planeta concreto, legitima qualquer supremacia.  Ninguém é mais ou melhor do que ninguém, no que diz respeito à estrita humanidade de que somos feitos.  Mas, hábitos e vícios contraídos ao longo dos séculos semearam a diferença. E essa sementeira foi de tal modo frutuosa que já nos parece normal estabelecer separações e diferenças,  criar barreiras e construir muros entre homens e homens.
Estranho é,  também,  não darmos absolutamente conta desta aberração em que nos tornamos. Andamos todos, por aí,  fechados nas nossas individualidades, olhando o desconhecido com indiferença ou ostensiva hostilidade – e achamos que está certo.
Homens houve, e haverá ainda, que deram conta desta anomalia intrinsecamente humana – porque os outros seres naturais lhe são alheios – e deram disso testemunho com a vida ou com a obra. E, circunstância ainda mais estranha: damos – lhes vivas,  fazemos -lhes homenagens. ..e não seguimos o seu exemplo, prosseguindo, de imediato,  a nossa estranha condição destruidora.
Não creio que existam soluções,  a não ser que  a humanidade se extinga. E esta é, ainda, uma conclusão estranha: para que se resolva o problema humano, na Terra, é urgente fazê -lo desaparecer de uma vez para sempre!  É urgente acabar com esta espécie,  tornada, primeiro inconsequente e depois absurda, para que um mundo humano possa ser restaurado!
Paradoxo lógico,  sem dúvida. E contudo,  extinguir o homem,  tal qual ele se apresenta, hoje,  é o único modo de restabelecer a condição primeira que deu consciência a um certo ser animal e lhe conferiu características superiores, pelas quais deveria acrescentar superioridade à sua envolvência. Não o tendo feito, porém,  perdeu esse direito, pelo que está na hora de o obrigar a deixar livre o lugar para novas odisseias.

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