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CAMINHANDO ATÉ S. TIAGO DE COMPOSTELA

Quando esta crónica sair estarei (se tudo correr bem) a meio do meu Caminho de Santiago. Este ano decidi fazer o Caminho Inglês que começa perto da Corunha. É a terceira vez que o faço. A primeira vez fiz o Caminho Português de Santiago com duas amigas em 2016. O ano passado fiz a versão Santiago-Finisterra com um amigo e duas primas. E agora estou a fazer este com um amigo. Aqui em Resende há uma adesão considerável ao caminho. Não sei quando começou a moda, se é que se pode tratar algo como o caminho por moda, mas o certo é que até há uma quantidade considerável de pessoas que o fazem e até que o repetem. O que leva, a eles e a mim, a fazer e repetir? Não sei. Acho que nunca encontrei uma resposta que pudesse dar que fizesse com que toda a gente pensasse: “Ok, tens mesmo que ir.”

(Valença – Santiago – Março de 2016)

A primeira vez que o fiz estava com receio. Achei que as pernas não iam aguentar. Que a mochila era demasiado pesada. Que eu não era capaz. Que estava a embrenhar-me por piso desconhecido e que me iria arrepender. Arrependi-me? Nem um pouco. As pernas aguentaram (mesmo estando eu com uma entorse num pé). A mochila deixou de ser um carrego e passou a ser a minha melhor amiga. O que custava depois era andar sem ela. E eu fui capaz. Muito mais capaz que o que achava que seria. E tive duas corajosas a acompanhar-me. Que nunca desistiram também, mesmo que a uma o último dia já estivesse a ser demasiado penoso. Foi um caminho mais rigoroso, levantávamos religiosamente antes do sol e a tentar não fazer muito barulho para não acordar os colegas de quarto que saíam mais tarde. E ao referir-me a colegas falo em cerca de 25 beliches o que perfaz 50 pessoas a compartilhar um quarto.

As pessoas pelas quais passávamos desejavam-nos bom caminho, outras quando nos viam com ar mais de estafadas davam ânimo com frases do género: “Falta pouco”, “Vocês conseguem”. Havia até aqueles que nos davam água. Vá eu é que ia pedir por estarmos sem passar por fontes há imenso tempo e como água não se nega a ninguém eles lá nos enchiam as garrafas. Mas há um espírito do caminho. As pessoas reconhecem os peregrinos e são simpáticos. Também vamos acabando por conhecer outros peregrinos por nos cruzarmos nos albergues à noite ou durante a caminhada. A chegada a Santiago é um misto de emoções. Eu que não sou muito religiosa não digo que não tenha sentido algo ao ver a catedral. Nem consigo exprimir bem. O que mais me vinha à cabeça foi: “Meu Deus, consegui! Eu consegui. Nós conseguimos.” E, como boas peregrinas que somos, fomos à missa e abraçar o santo.

 

(Santiago – Finisterra – Abril de 2017)

O ano passado já fiz um caminho mais descontraído. De Santiago a Finisterra não vão tantos peregrinos o que faz com que não haja pressão para sairmos tão cedo para conseguir lugar nos albergues, fomos mais a nosso ritmo, não tão em passo marcado. A nível de pessoas achei que não eram tão receptivas a peregrinos e até eram raros os que nos cumprimentam com a típica frase do Bom Caminho. Se bem que no penúltimo dia encontramos um albergue gerido por voluntários que foi a melhor parte deste caminho. Só estávamos nós, um casal alemão (mãe e filho) e o voluntário Enrico. Tivemos um serão daqueles que nos fazia sentir em casa mesmo que falássemos em português entre nós, em espanhol com o Enrico, que por sua vez falava em francês com os alemães que falavam em alemão entre si e em inglês connosco. Sim, naquele jantar havia quase mais idiomas que pessoas. E mesmo assim entendemo-nos todos perfeitamente. A chegada a Finisterra também é diferente. Chega-se ao farol, ao cabo e a emoção é outra. Continua a existir aquele pensamento. “Meu Deus, consegui!” Mas ficamos ali a contemplar a imensidão do mar e depois é tirar as sapatilhas, sacar das havaianas e ficar simplesmente ali a olhar o infinito até acharmos que está na hora de regressar.

A versão deste ano ainda não vos posso contar como é. Talvez numa das próximas crónicas se proporcione. Não sei se será mais rigorosa, descontraída como a do ano passado, se nos irá custar mais as etapas longas, mas como tudo na vida só se sabe quando se está a passar por isso. Sim, comparo imenso o caminho com a vida. Aliás o nosso dia-a-dia é um caminho, certo? Temos na mesma as pedras. Apenas são metafóricas e não estão propriamente no chão a moer-nos os pés. A maior parte das vezes moem-nos a alma, o que é bem pior. Temos também muitas vezes a dúvida por qual das bifurcações  seguir, porque a sinalização por vezes não é muito visível. Quantas vezes ficámos divididos no dia-a-dia por seguir entre a esquerda e a direita? Entre a cabeça e o coração? A razão e a emoção? E depois temos momentos de tudo, temos a introspecção, o convívio, a gestão de stress (e sim por muito que nos demos bem uns com os outros é necessário ser pessoas com uma boa gestão de stress para não discutirmos uns com os outros na hora do cansaço). É tal o qual o nosso dia-a-dia com a diferença que andamos mais a pé de mochila às costas.

O Caminho mudou a minha vida? Não posso dizer que tenha feito e que cheguei ao final uma pessoa iluminada com as soluções para a minha vida, isso não. Mas mudou a minha visão das coisas em vários aspectos. Primeiro mostrou-me que consigo viver com bem menos que o que se imagina. Consegui sobreviver com o que levava numa mochila. Por vezes queremos tudo e são alturas como estas que nos mostram que não é necessário querer tudo, que vivemos bem sem muita coisa. Depois mostrou-me, ou comprovou-me porque já acreditava nisso, que companheirismo e espírito de entre ajuda é do melhor que há. Se alguém vai mais devagar, abrandamos também. Se se queixa com dores e que não aguenta, paramos e esperamos com ele. Se está mais em baixo, a duvidar das suas capacidades damos ânimo, mas nunca se deixa um amigo para trás. Nem no caminho nem na vida. E a maior lição que me deu foi de que eu sou capaz. Mesmo quando parecia que não conseguia mais em vez de desistir continuava. Porque lá só há duas hipóteses, ou andas… Ou andas. A maior parte das vezes estás em becos que ninguém te consegue ir buscar e também nem sabes explicar onde estás para darem contigo. E depois chegas ao final e pensas “Achei que não conseguia mas consegui”. Sim, foi preciso ir a Santiago para perceber de uma vez por todas que o maior entrave está na nossa cabeça. E depois há sempre as peripécias. O (re)contar da aventura aos outros que não foram e começarmos a olhar entre nós e desatarmos a rir sem dizermos nada, porque quem lá esteve percebe, viu e não esquece.

Voltarei depois deste? Não sei. Há pessoas que fazem todos os anos. Há aquelas que fazem uma vez para ter a experiência e eu sou aquela pessoa que faz um e o próximo logo se vê. Não sei se farei outro para o ano, daqui a 20 ou nunca mais. Como já referi é imprevisível. Uma coisa é certa, a frase cliché “O Caminho faz-se caminhando.” é verdade. E a vida também se faz assim portanto… Bom caminho a todos.

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