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“SAUDINHA E BOA SORTE”

Já passou um mês desde que deixaste de dar pão à Maduky às escondidas e sempre disseste “Eu nunca lhe dou nada.” (até ela estranha a tua ausência);
Já passou um mês desde que deixaste de “romper sapatos” e “borrachas de bengala” de tanto caminhares no estradão e subires e desceres as escadas de tua casa;
Já passou um mês desde que deixamos de implicar contigo porque empurravas a comida com os dedos para o garfo porque não querias usar faca e o pão já o tinhas comido;
Já passou um mês desde que perguntavas em quase todos os almoços: “Não tenho remédios, pois não? É só à noite.” —- “É avó, é só à noite.”
Já passou um mês e parece que foi ontem…

Parece que foi ontem que te mataram…

Sinto que mataram a minha avó…

Sinto que te mataram no dia 19.08 quando não quiseram saber porque caíste…
Sinto que te mataram quando te trataram só da queda sem querer saber o que a motivou…
Sinto que te mataram quando no dia 20.08 regressaste ao hospital e «ninguém» se preocupou com o teu estado:

– ninguém quis saber se suspeitávamos de um AVC

 – ninguém quis saber como estavas diferente antes e depois da queda

 – ninguém quis saber se tinhas dor ou se tinhas fome: afinal durante todo o dia ninguém te alimentou nem te deu medicação

 – ninguém quis saber se respiravas bem, se estavas aflita…

  – ninguém quis saber de ti…

Só nós, quisemos sempre saber de ti… Não te sintas sozinha porque nunca estiveste… Não te abandonamos ao contrário daquilo que o médico quis dizer quando cerca das 18h nos disse “Vai ter alta.”
Como é que vai ter alta? Perguntamos nós. Andava e não anda, não se segura em pé, não come nem bebe, está algaliada… Como é que vai ter alta?
“Deixem-na ficar prai que depois a Assistente Social vai falar convosco.” Foi a resposta que este Sr. Doutor nos deu…

Não te deixamos prai… Como poderíamos fazê-lo se nunca o fizemos em todos estes anos? Sempre viveste “com todos nós”… porta com porta, lado a lado!

O que fizemos foi esperar por um médico. Esperamos que finalmente um médico entrasse naquela urgência… E entrou! Entrou finalmente uma médica que agiu como uma médica, que fez tudo por ti! Fez o que pode, mas já não fez a tempo!

Foste internada nesse dia… pioraste no desesperante dia 21 e morreste na madrugada do dia 22 precisamente aos 89 anos e 6 meses…

No internamento muitos lutaram por ti, médicos e enfermeiros, independentemente de teres 89 anos e 6 meses! Houve um em especial: «enfermeiro J.», eternamente gratos – eu e toda a família – por teres tentado tudo para a manter viva; obrigada por teres cuidado dela com profissionalismo e com carinho; obrigada por teres ficado com ela até ao fim… Obrigada por ter morrido contigo! Obrigada pela forma como trataste do seu corpo, já sem vida… Fossem todos como tu…!

Mas em nenhum momento naquela urgência durante todo o dia 20.08 pedimos que fossem carinhosos contigo; pedimos sim que te cuidassem que te observassem, que tratassem de ti… E ele nunca quis saber! Que um dia, quando ele tiver 89 anos e 6 meses ninguém queira saber dele também… que ninguém cuide dele, que ninguém o trate… Não devia dizê-lo, mas é o que sinto! Tão simples e directo como isto!

Fizemos reclamação/queixa sim, queremos saber tudo o que aconteceu sim… Não te trás de volta, mas pode ser que mude alguma coisa naquela urgência!

Depois do teu funeral, estávamos cá fora à noite e a Mariana afirmou com convicção que aquela estrela brilhante ao lado da lua eras tu! E eu acredito nela… As crianças nestas coisas vêem mais do que nós, os adultos de visão simples!

A Maduky continuou, durante alguns dias, a procurar “comida” perto da tua cadeira (aqueles que deixavas cair do teu prato). Agora já percebeu que não caem mais! A Mariana também falou e perguntou por ti algumas vezes; chegou a perguntar se vinhas comer: às vezes chegavas mais tarde porque te lembravas de ir dar uma “voltinha” na hora do almoço! Agora pergunta menos…

Eu guardo comigo as lembranças:
– de quando me ensinaste a rezar o «Pai Nosso» e a «Avé Maria», mas principalmente, a «Salvé Rainha» – era tão difícil e dizias tão rápido – e ainda hoje não sei se digo as palavras todas certas;
– de quando me davas 50 escudos para eu compras clicletes na mercearia perto da escola primária e eu conseguia autocolantes para a caderneta da Barbie: só faltou 1 para a completar;
– de quando plantavas flores e mais flores: vasos de um lado para o outro, rebentos daqui e dali e todas de aguentavam…
– de quando comias a fruta toda num só dia, que a tia te comprava para a semana toda…
– … e aquelas frases que te caracterizam tanto: «É POUQUINHO MAS É DE BOA MENTE» ; «SAUDINHA E BOA SORTE»

FICAM AS MEMÓRIAS… Há mudanças que são inevitáveis na vida de todos os que “viviam contigo”… Essas temos que aprender a lidar com elas… Espero que as evitáveis se evitem durante muitos anos sem ti!!!

Avó, ​um grande beijinho de todos nós!

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