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Cultura, Literatura e Filosofia

VOU CHAMAR-TE HISTÓRIA

I
Algo em mim é um caos. É um facto e não vou voltar para trás. Parece estranho. Conto-lhe várias histórias e não acredita em nenhuma, melhor do que nada. Pago-lhe para ouvir a minha mente a transbordar, as minhas náuseas, os meus medos, as minhas memórias e os meus déjà vus, uma e outra vez. Às vezes é desmancha-prazeres. Será que alguém me roubaria a vida? Na verdade, nada muda nas noites cinzentas. Sento-me no sofá, todas as noites, e olho o vazio, como se fosse um pedaço de nada de um rapaz que finge ser alguém. Tão só de mim e dos outros. Voltei em metade do tempo, ao contrário do que era habitual. É mais fácil a minha vida quando ajudo os sonhos a serem vividos com pó. O vício da morte pela vida. É tão fácil viajar assim. Ouço o meu coração doente, a minha pele seca e nada dói. Cansam-me os olhos e a veia que sofre de tão picada para ser feliz. Sempre fui um pouco solitário, Eu não me importo tanto com os outros, eles nunca serão apenas meus. Por outro lado sinto-me frustrado, como se nunca estivesse errado…
II
Os dias de Setembro passado, dão-me saudades. Naquela época acreditava e desvalorizava o que era impossível e lá no fundo estava na merda. Aos fins-de-semana o amor acontecia e na minha cabeça continuava a construir «nada». Era uma sensação importuna e a vida lá fora era diferente. Ninguém podia sentir o que eu sentia… era um pulha, sabia a verdade e nunca fui apanhado desprevenido (como desejava). As mensagens com carinho ocupavam-me afectivamente. Hoje não existem. «Olha à tua volta. O que é que vês?» Disseste-me tantas vezes e não fiz nada para mudar. Nada.
O meu amor continua igual no meio do teu silêncio…
III
Em tempos que já lá vão, eu amei o Manel. Nunca amei outro homem, sentia-me uma espécie de doente mental, eufórica, sei lá, às-vezes-pensava-que-era-só-pelo-prazer-de-o-ter. Nunca conseguiu esgotar o afecto do olhar… um abismo de líbido. Aquecia-me a alma nas madrugadas de nevoeiro e beijava-me a pele intacta. Aninhava-me entre as pernas dele bem quentinhas.
Contei-lhe, devagar, entre os dias, os meus sonhos condenados à morte e fartei-me de fingir ser feliz.
IV
Vou chamar-te História e estou a escrever esta carta para ti.
Já não há poemas sobre a nossa história e os dias passam sem verdade. Mais uma vez e o olhar não convence ninguém. Vou transformar-me em quê?
Estava feliz e eu era a parte solitária da História. Perguntei-me, embora, é claro, que nunca ouvi da tua boca o meu nome, se gostavas verdadeiramente de mim.
Afogava a rejeição nos teus braços. Éramos duas crianças e eu era a parte da fronteira do amor. Eu sabia e iria acordar, mais cedo ou mais tarde, sobressaltado do sonho. Ou talvez não (acreditei na tua diferença). Mas sempre foi assim. É irónico, aconteceu. Espantoso, já não estás. Não compreendo.
Incomoda-me esta maneira animal de rejeição, aquela sensação deprimente que estamos a mais e que adormecer não resolve. Acho que inventei uma História e um lugar para não me sentir sozinho. Não interessa como as coisas acabam. Prefiro esquecer. Há lugares que a memória apaga.
É isso que estou a fazer…

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