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Cidadania e Sociedade

ADMINISTRAÇÃO DE FUTUROS (QUE NÃO EXCLUSIVAMENTE FINANCEIROS…)

Quando vamos a meio do caminho, é engraçado parar e olhar, primeiro para trás e depois para a frente, observar a evolução e projectar o futuro.

Tenho 43 anos, trabalho há cerca de 20 anos, e provavelmente esperam-me outros tantos. Durante este tempo, tive a possibilidade de conviver com gerações diversas, mais velhos e mais novos, bem como partilhar histórias entre amigos de diferentes realidades profissionais. E apesar do caminho ainda se estar a caminhar, há ideias e conceitos que me são dados a ver, e sobre os quais gosto de pensar, transversais a todos os sectores e empresas.

A minha geração, pós 25 Abril, foi aquela a quem foi dito que o esforço seria compensado. Tendo alguma inteligência e astúcia, um curso nas mãos, e alguma dedicação, o mundo render-se-ia à nossa feliz conjugação de factores, numa ascensão permanente.  Os nossos pais, sempre assentes no critério do curso com empregabilidade, projectaram em nós essa vontade de vencer que eles próprios poderão não ter conseguido concretizar, e já sabíamos, trabalhar e ganhar era quase tão certo como escorregar e cair.  Mentira! Não foi assim! (Só que não, como diriam os putos!)  Alguns conseguiram-no. Outros esforçaram-se e não conseguiram. Outros conseguiram e não se esforçaram. Há de tudo. Alguns ganham € 3.000 (poucos). Outros € 600 (demasiados). Alguns mudaram de emprego em busca de melhor. Outros assentaram arraial. Uns mudaram porque sim, outros porque ficaram desempregados. Uns procuram desafios. Outros procuram estabilidade. Mas coisa que não existe, pelo menos como no tempo dos nossos pais, é aquilo que se designa frequentemente como emprego para a vida.

E depois há a geração seguinte. A estes foram explicados, pelos pais, alguns conceitos que derivam, novamente, das suas experiências pessoais:  o factor empregabilidade poderá ser sinónimo de tarefa punitória, trabalhando-se toda uma vida numa área que se odeia, embora garanta emprego, pelo que deverão escolher um curso baseado nas suas aptidões e gostos, independentemente do resto. Se por um lado só se poderá ser bom naquilo que se domina e gosta, por outro, se for mesmo bom, ressaltar-se-á entre os demais com certeza. Adiciona- se o saborear o momento, patrocinado pela capacidade financeira dos pais que vingaram anteriormente, e lhes permite alguma calma no estabelecimento da independência pessoal. E  há ainda a conjunção social: a menor taxa de desemprego, que vem com o custo de ordenados mais curtos, mais curtos do que na anterior geração. O que é suportável, se se adiar a saída do lar paternal, e se viver para o lazer, enquanto na geração anterior se procurava, quase a qualquer custo, a independência.

E há também o surgimento da geração de “millenials”.  É-lhes atribuído, não sem alguma razão, o mote de “ i want it all , and  i want it NOW”. Como em tudo, as generalizações são perigosas. Há os que trabalham, se esforçam, aprendem, progridem e evoluem. E sobretudo, são respeitadores, dos outros, e do próprio tempo de evolução. Têm ambições, mas são correctos, e estão no mundo com a modéstia de quem sabe algo, mas não sabe tudo. Mas aqueles que me fazem sorrir, ou rir mesmo, já em gargalhada irónica, de quem já tem uns quilómetros disto, são os outros. Os arrogantes, os gabarolas, os “sou-o-maior-da.minha-rua”. Aqueles que olham para os mais velhos e formulam num olhar (alguns correm mesmo o risco de segurança de vocalizar…)  perguntas de espanto: como é que tu, que tens 30 /40 / 50 /60 anos,  ainda não és administrador? Como vives nesse limbo? Que tipo de incapacidade tens? Como é isso possível?! Comigo, será, obviamente diferente!

Há ainda outros géneros, distanciados da escala etária, mais afectos às personalidades:  os velhos do restelo, avessos a qualquer ideia nova, sobretudo vinda dos recém-chegados. Os que questionam tudo, válido ou não válido, funcional ou não funcional. Há os inflexíveis, na rectidão de bocejantes processos e burocracias, porque sim. Há os fazedores de protocolos, incapazes dessa loucura que é criatividade. Há as lutas de gerações emergentes, há o conflito entre os que sustêm a empresa há anos e os que rodam de 6 em 6 meses para fazer currículo. Existe  a ideia que só mudando de emprego é possível a promoção, que ascensão interna não existe. Que os bons são os de fora, e a esses são reservados os lugares cimeiros. E há os amiguinhos do chefe, também.  E as parcerias dos segredos nos corredores. Selva laboral, portanto, sem credos nem cor, leia-se: alargada a todas as actividades e sectores.

Começo a notar em mim o coleccionar de citações, com o que, confesso, me preocupo um pouco, na medida quem indicia alguma anciania.

Um antigo chefe meu, de quem guardo religiosamente algumas máximas, provavelmente aplicaria a este contexto um dos seus comentários recorrentes:

“Contar apenas com a própria inteligência, é um excelente indicador da própria estupidez.”


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