Cultura, Literatura e Filosofia

SONHO DE POETA

Folhas de outono são pedaços da alma do poeta;

Fragmentos soltos ao vento, no entardecer da vida;

Estilhaços ensaiando voos improváveis,

Que acabam despedaçados no chão da terra,

Transformados no húmus de que se nutrem os sonhos.

 

Tarde de outono. O parque, envolvido na ligeira penumbra, com o sol a espreitar por entre a ramagem, tem um aspeto algo surreal, místico até.

Uma aragem refrescante, há muito esperada após o calor sufocante de um verão renitente em abandonar o seu posto, sopra benfazeja, descida da encosta ao vale.

As folhas vermelhas e alaranjadas lançam-se em voos graciosos, acompanhando o ritmo das asas da passarada que evolui pelos ares com elegância e destreza. Após descreverem largas espirais impulsionadas pelo bafo fresco do vento, quais bailarinas subitamente exaustas do seu constante bailado, vêm-me descansar aos pés. Convidam-me a pisá-las com doçura, hipnotizada pelo murmúrio dos estalidos que fazem debaixo dos meus sapatos. São o canto das sereias em terra, chamando os incautos a viagens de sonho e perdição.

Aos poucos, vão engrossando o tapete com que adornam o parque. É uma manta de retalhos cobrindo o solo de cores quentes, acolhedora, reconfortante, apelativa, irresistível, com que cubro a minha necessidade de sonhar.

Sem pensar nem oferecer resistência, respondo ao chamamento, levanto-me do banco onde me sentei a contemplar o espetáculo outonal e estendo-me ao comprido no tapete macio e estaladiço. Sinto-me como um viajante das mil e uma noites no seu tapete voador persa, porque, quase de imediato, levanto voo. É um voo improvável, bem sei. Mas que importa! Aproveito. Vou com elas, as folhas bailarinas, acompanho-as nas suas danças e volteios, dominada pela emoção.

Invadem-me os sentidos doces fragrâncias que vêm ter comigo, trazidas pela brisa, provindas lá de baixo, dos campos, da serra, do rio, das ruas… Contemplo, de olhos fechados, o mundo que sobrevoo. De olhos fechados, sim. Para estes voos prefiro usar os olhos da alma. Veem melhor, penetram com maior profundidade. Sou mais eu, quando fecho os olhos.

Abro as minhas asas, para que me possa confundir com os pássaros que se agitam nos preparativos para a grande viagem rumo ao calor que, por estes lados, muito em breve, não será suficiente para que as suas vidas frágeis possam resistir. Ainda me passa pela cabeça ir com eles. Acompanhá-los na sua aventura de ir e voltar. Mas, esta coisa de, por e simplesmente, deixar-me ir… Não, ainda não estou preparada. Quem sabe, um dia!

Ninguém olha cá para cima? Ninguém me vê? Tanto melhor! A minha dança aérea, adormecida no tapete voador, causaria estranheza. É um momento meu, solitário, no aconchego da alma, que ela e só ela tem o poder de sonhar.

Mas, que pena! As folhas que me servem de leito, empurradas por uma repentina rajada de vento mais forte, começam a descer. Parece que o meu amigo vento não gostou da minha invasão do seu espaço aéreo. O tapete voador começa a desfazer-se, vai perdendo altura, acabou-se o meu sonho de chegar… aonde? Até onde poderia eu ter chegado? Que importa? A delícia está na viagem; a meta… A meta, afinal, parece que é o chão. Apenas o chão.

Abro os olhos. O tapete continua lá, dormindo aos meus pés, deslizando suavemente no solo, desfazendo-se, misturando-se com a terra que o recebe grata. Húmus a dourar os sonhos de poeta. E eu continuo sentada no meu banquinho do parque, de onde, pelos vistos, nunca saí. Ou sim? Quem sabe!

Ser poeta é assim. Viaja-se sem sair do lugar, levado por voos improváveis, mas tão reais como quaisquer outros. São voos só nossos, leves, bailarinos como folhas de outono. Mas reais. E ai de quem diga que não!


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