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AMARRAS

Perguntas-me como é possível amar tanto um homem como tu? Como posso eu amar um ser tão vil como aquele que está sentado na minha frente, inundando-me de breu o olhar?
Não sei responder-te.

Continuas, questionando-me como posso eu nutrir amor por um homem sem princípios e sem nobreza de carácter? Como pode uma mulher, séria e honrada como eu, amar um violador que não respeitou o corpo, a liberdade e a autodeterminação de uma mulher?
Respondo-te em silêncio, com o ribombar desacertado do coração.

Desesperado, continuas interrogando-me sobre como é possível uma mulher amar um ladrão que não respeitou a propriedade e os bens alheios, conquistados, não raras vezes, pelo sangue, suor e lágrimas de quem tanto trabalhou?
Talvez nunca venha a saber a resposta.

Com a revolta embargando-te a voz, encostas-me uma faca de palavras afiadas ao peito, através das quais pretendes saber como pode essa mesma mulher amar um traficante que destruiu, grama a grama, um sem-número de famílias iguais àquela com que, durante toda a sua vida, sonhou?
Como pode uma mulher amar um homem que enrolou na mortalha o futuro dos jovens que nunca chegarão a ter futuro?
Sem forças mantenho-me petrificada na ausência do porvir.

Cansado e com os olhos vermelhos, inundados pelo sangue dos inocentes que vítimaste, pretendes perceber como posso eu amar o assassino que agora habita atrás das grades e que passarei a ver, todos os dias, numa rotina sem esperança, que se repetirá durante os próximos vinte anos, quando todos lá fora me dizem mereço melhor sorte?

E eu, com lágrimas doces regando-me o rosto, toco-te na pele com carinho, pouso delicadamente a voz sobre a mesa que nos separa e, sem que do meu olhar se desvaneça o brilho, respondo-te:
– Como pode uma mãe não amar o próprio filho?

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