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Cultura, Literatura e Filosofia

A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO DÉCIMO QUARTO

Esvazio-me.
O que me preenche, aguardo que me devore. Desosse.
Tudo o que sinto, sustenho, em doses poucas.  Alagamento anseio. Possibilidade nenhuma de estancar o que pressiona para um exterior que não se prepara para um bem-vindo desenhar.
Coração-baloiço, estendidos os cabos, presos ao pensamento, suspensos, a uma domável razão por lacrimejante órgão, que só inquietante sobrevive, sobressaltado pelo aquiescer de criminosa mão, em terreno seu, que chama de maior pensava em si alimentar, mínimo oxigénio de então, sufocante o espaço seu e o circundante, que avizinhava, pueris não sejamos, o eclodir de um algo que se faz muito, no derrame pelo espaço que em si continuidade vê.
Em quilha minha cirandam, unhando-se, pensamentos que, vezes algumas, avisos à navegação remetidos menosprezam. Confortáveis se sentem na aproximação e participação da edificação de estórias que se concretizam nas alvoradas, sorrindo e despontando no que recíproco considero.
Utilização nenhuma de adversativas conjunções no limiar da entrada numa aldeia que não me deixa à deriva. Meridiano meu de dadas provas.
Sob a égide da confiança e da ternura com que amorteço peso meu no solo que não dista em muito, quiçá em nada, penso que o posso afirmar, sigo, gravitando entre a sempre incógnita do sentir e o que sentido se afirma, nutrindo-me, impulso dando ao que cabos sustentam, de cerrados dentes.
Sei-te presente. É precisamente esse teu estar, persistente, que não permite que solilóquio algum merende no tempo que não se adequa, mas se dispõe à mercê do que da nossa permeabilidade pulula.
Lembras os recantos do desconhecido que entre nós se apresentava? Espécie alguma agora nos faz. Compartimentamos esses não sei, alegando essencial para dias outros, vindouros, onde a necessidade de um retorno ao ignoto se desenhe, inéditos em mim promovendo, não transcritos, até então, do coração, que ao toque, cócegas provoca e sincopado apresenta pautas suas.
No prefácio de toda uma aldeia deixamos a descrença. Exercício constante de fé na construção de um nós para lá de portas suas. Maledicências incapazes de entrecortar o que impossível é de rutura. Palavras como cheias luas que não permitem luminosidade que encandeie o que em emocionais vasos transita, sem coágulo algum, consentem.
O ronronar do que sinto, embate nas paredes destas casas, que retiraram ao sol, sem permissão, rebeldes então, sua russa tonalidade, na esperança de novos amanheceres renderem outros que descanso anseiam.
Dissimulação nenhuma, tampouco maquilhagem que renegue o que vincados trilhos dimensionado querem. Coeso compósito, polposo no discorrer de afetos, capaz de segredar a nua pele, em calejado percurso sensorial, o quão lúcido é o sentido, consentido. Neste deflagrar, insistimos em existir. Soberbamente.
Precedentes estendemos, sabendo eterno o retorno a um ponto que de fuga não se insinua. Como que em busca, interior, de um eu, um nós deflagrasse, disposto em largo este, útero que nos recebe, em celebração do partilhado e que sem condicionamento que não o da liberdade, da entrega. Nele propusemos uma adenda, se pensar melhor, várias, que se vai moldando ao nosso existir. No operativo te falo, conjugo, pois é nele que crescemos, como que ultrapassadas as memórias vividas no jardim de infância e primária escola. Pontos de valorização deste povo que se insurge contra a censura afetiva e a liberdade própria de quem traduz erguido punho em amor e amizade.
Caminhamos, ladeados, pelas ruas que se vão despedindo de solar luz. Locomoção que se faz fluída, floreada por olhares que do ponto de partida se distanciam, confluindo para o espaço que agora partilhado, se expande para quem sentado nos bancos, estendidos, copiando horizontes, ou vozes que se fazem ouvir pelas pequenas janelas, como aquela agora de esperança revestida, nos cumprimenta, sabendo-nos em breve entregues a um mesmo abraço, que em embarcação de porte médio, equivale às pagaias que, como coletivo, nos levarão a seguro porto.
Com os olhos nos abraçamos, nos tocamos, envolvidos os dedos, como em tela maior, eternos amantes o fazem, no limiar de um penhasco que a outras águas os levará. Apesar do abismo, a certeza da continuidade. O solo que nos suporta, não precisa de qualquer rolamento que nos apresse o momento. Sabemo-lo cumprir, na sua janela, ilimitada, tal como naturais recursos o deveriam ser, fosse outro o humano comportamento. Aqui detemo-nos no tempo enquanto não existência pelos cânones do imposto. Ressonância alguma sentida é de realidade que somente encarece a entrega.
Fecundo terreno para a súmula de afetos, de um amor que nos leva a mútua aprendizagem e que se tece pela truncada conclusão de quem a compreende. Um sem número de sentimentos que, no seu crescendo, istmo formado, nos ligam como ilhas, pertencentes a um mesmo arquipélago.
Aldeia-istmo, estendidos os braços, não esquecidos ambos os portos. Em pé de igualdade fortifica, cedendo de si, sem esforço algum, o que de sol a sol na terra fértil, lavrado é. Coletivo o colher.
Apesar do sentido silêncio, quase que poderíamos afirmar trepidante, as palavras deambulam, olhando o mar que os pés lhes rasa, dura pele agraciando, camadas várias, sentindo atritos vários, intensificando a expressividade, quando permitida.
Percurso que se faz de pensamento, onde palavras, as mesmas, reivindicam a sua leveza quando ouvidas. Lidas, peso acresce. Olhar basta para a leitura de uma mão delas e o impacto, a densidade que assoma à atmosfera envolvente, abrindo corredores de fuga ao curioso leitor, que se destacou pela bravura de as entender, no desenho que as imortaliza em páginas, não pálidas, velhas, mexidas, rasuradas, de uma intolerância à crueldade com que elas são alienadas.
Migrantes, obesas de uma cavernosa dor, impossibilitadas de percorrer o vocal trânsito de muitos, por vontade própria expressa. Palavras que requerem berço, na imersão dos sentimentos que razão dá a ligações como esta.
Sentados, olhamos um não-horizonte. Talvez a necessidade de um ponto de referência querermos interditar. Percorremos mar chão, que tocando pés nossos e elementos que nos aconchegam a este espaço, nos lembram a carência de às vezes em mar a emoção viver, alto mar, e voltar não.
Afirmar não ouso que tudo contigo seria. Talvez um egoísmo feito missão e cumprido, efetivamente, o tenha de ser. Ou fruto do que anseio, no limiar da passagem para um patamar da existência que se despe de floreios e, simplesmente, aviso remete à navegação, onde a jangada que represento, o recebe, sem necessidade de descodificação.
Vivo-te, por enquanto. Num quanto que se adensa. Sem medida. No tempo em que perduramos, a beleza do existir matura. Pratos há que frios servidos são. Há quem o diga. A beleza talvez seja um outro que se levanta de popular dito. Digna de encantamento, como luz que de um farol nos impede de esperança agrilhoar.
Pois se esperança existe, aqui vê sua natural formosura. Embandeiramento sem saber que festejo se insinua, percebendo que neste cais, apesar da luminosidade que sorri a quem a olha, adornando os mastros de navios que se abraçam, se amarram à certeza da verdade do mar, hora despertará para inopinada incumbência.
Vagueia pelos cheiros, pelo silêncio, pela aragem que de encontro vai às habitações que nela moram, imbuídas de humana criação. Sentimos que nos toca e sem receio de exagero para com seguinte passo, o amanhã, que hoje se veste, envolver nos deixamos. Parte fará da intensidade com que lidamos com as nossas mãos. Juntas.
Neste pequeno muro, que não nos cede passagem para saída alguma, não a querendo nós também, olhamo-nos. E sempre, sempre, como se fosse vez primeira. E não o é. Momentos destes prorrogamos nas visitas que nos fazemos.
Boca tivesse esta aldeia e em todos os seus vértices ecoaria o quão felizes aqui somos, na iminência de uma entrega que careceria de ferramentas para a estanqueidade garantir, de peito cheio, que em nós foi crescendo, não admitindo recorte. Talvez a explosão do sentido para toda uma população que alberga, fraternamente, o que vamos construindo e derramando no solo, para coletiva força outorgar ao que em vindouras gerações se colherá.
Volto. Voltamos. Vezes em que sinto que te escondeste em mim e, por muito que ao meu redor te procure, jamais te verei. Mas sei-te presente.
Ligação esta que nos une, uma de outras, muitas, que me impede de rasgar afetivas memórias, mesmo que pouco distem precários sentimentos que nos remetem a desumana distância.
O eterno retorno a sazonal casa. Nua de estações agora se apresenta. Não permite que a remetam a catalogação alguma, minimizando a sua capacidade de sorrisos desenhar e de um lugar de descoberta e aprofundamento de relações criar, como esta que aqui vos trago. Alerto-vos para o dia em que se depararem com translúcidas palavras. O aqui contado rumo outro pode ter tomado. Fugacidade em pernas suas. Mas certo será o concluir de que outras esferas de absorção partilho com outrem que percebe a importância do vivido e sentido em lugar o mesmo.
Continuamos sentados. Como que numa cerimónia onde coreografias esboçadas são, movimento o meu corpo no sentido contrário ao que o sol diariamente reitera. Pouco esperei para que me acompanhasses. Olhos teus fizeram-me perceber que estávamos a tempo pouco de recortar um outro momento que solidificará a massa que representamos e que estes oleiros vão moldando, à medida que lágrimas nos despem, na soma dos momentos, sujeitos jamais à noção de cedo ou tarde.
Na minha mão resguardo todo um mar que verte, fruto da tempestade avultada que em mim se impõe. Na faina que decorre do meu interior para o local onde agora to apresento, a maresia não se permite casta, tampouco o marulhar se traduz em gestual língua.
Sem o pedir, já o sabes, unes mãos tuas, imperfeito berço recriando. Toco-te. Entrego esta parte imensa de mim, com a certeza de que nos teus limites sussurrarão memórias de tempos então idos.
Pernoito nesta entrega. Num gesto que simboliza o que nesta aldeia me transmitindo vão. O dedicar, a entrega, a fé e a esperança no Outro. A confiança em dado passo.
Olhemos este pontuado silêncio com o conhecimento que o mar de nós pretende. Não se descuidem nesta entrega. Em relação ao tempo, em nota de rodapé o coloquem.
Apropinquação física reduzida. Reduzindo-se. Amanheceremos com a certeza da vontade.  A nossa.
Sentado na areia, que chão este também o é, o aproximar das vagas sentindo, os pés rasando, meu corpo vestindo. À passagem, dobro lençol este, depositando o que sou, como que debaixo de almofada, não esperando aqui fada alguma.
Há uma nudez que acompanha esse arrastar. Nela me conforto, sem rubor algum, cercando o movimento do tecido que suave se faz viajar.
Mãos minhas. Olho-as. Nelas, o sal sinto que, por dura testa, deliberou em tuas não migrar.
Missão atribuída temos.
O mar não deixar adoecer.

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