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Cultura, Literatura e Filosofia

SOB O SIGNO DA VIOLÊNCIA – SEGUNDA PARTE

“Deveria ser deste modo o mundo dos homens que insistimos em perpetuar, crendo que a humanização é,  no fundo,  esta contínua desordem, este caos absoluto sob o signo da violência? Quando, por exemplo, geramos um filho, fazemo-lo por razões nossas, queremos perpetuar a estirpe, deixar de nós um rasto no mundo. E ele? Se pudesse comunicar connosco,  esse embrião,  se pudesse conhecer a priori o plano em que o incluímos  (e que é apenas nosso) aceitaria fazer parte?”
De modo nenhum pretendo defender a violência. Porém, observando toda a realidade, seja ela natural ou humanizada, percebo que ela está na génese de tudo quanto vive.
De vez em quando,  observando o mar, ocorre-me um pensamento: que força indómita é a desta massa de água que constantemente se agita numa espécie de furor, de encontro à areia, às rochas, aos que dela se aproximam e  precisam de tomar cuidado para não serem engolidos?  A ciência já estudou, é claro, a causa do contínuo ondular das águas; e quem delas se abeira sabe como proceder para não ser arrastado.  Mas não é da ciência que agora me ocupo. Vejo, nesse mar em perpétuo movimento, ora suave, ora em vagas tumultuosas, uma espécie de desígnio comum a todas as coisas,  uma predestinação de  fúria e consumpção, constantemente adiadas, mas ali presentes como marca e sinal.
O mar representa instabilidade e violência e pode assumir – se como paradigma.
Também nós, indivíduos desta humana racionalidade, albergamos oceanos de muitos matizes. E se uns dias nos vemos na calmaria de um quase lago, noutros irrompem as forças violentas de que somos, igualmente, feitos.
É por esta razão que apelar à não -violência se traduz num acto condenado ao insucesso.
Vejamos esse fenómeno,  tão antigo como a própria humanidade : a guerra. Lançando um olhar, nem sequer muito profundo, sobre a história, não conseguiremos descortinar nenhuma época que não tenha sido marcada por ela, até às mais terríveis consequências. A guerra parece ser a condição única da afirmação  dos povos, quer se trate de conquista, quer seja uma questão de preservar território. E a guerra continua instalada entre nós,  homens de agora, de múltiplas formas e com múltiplos aspectos.
Combater a violência, e fazê -lo de acordo com os nossos princípios racionais e logo marcados pela moralidade, afigura-se um propósito digno. E contudo esse combate está votado ao fracasso porque contraria o princípio propulsor da nossa natureza : de seres do Universo,  de habitantes da Terra,  de seres vivos, de animais e também de humanos. E reparem : a própria expressão “combater a violência ” encerra o princípio activo da luta e portanto da violência. Não há fuga. Nada terá poder para eliminar da Terra a força prodigiosa que empurra os elementos uns de encontro aos outros, num combate sem quartel.
Somente numa perspectiva individual e logo muito restrita, ou a uma escala social confinada,  poderemos ter marcas de sucesso nesse empreendimento.
Ouvimos quotidianamente falar em violência doméstica.  Homens atacam as suas mulheres e vice-versa, filhos atacam os pais,  pais atacam os filhos, irmãos pugnam contra irmãos e, muitos dentre eles, digladiam-se até à morte. Pensemos lucidamente : será possível erradicar, de uma vez para sempre, este fenómeno, no contexto do qual o amor, tido como base da relação familiar,  vem a dar origem ao ódio,  à violência,  à morte? Podemos tentá-lo, sem dúvida.  Dominar impulsos que nos acometerão, neste ou naquele momento das nossas vivências particulares, deverá ser o correlato lógico da nossa condição de humanos.  Mas observemos novamente que dominar impulsos  (os nossos impulsos) é lutar, ainda, de nós para nós próprios e, por essa razão, uma vez mais , violência.
A paz,  aquela que vamos experimentando, no nosso íntimo ou à nossa volta, acontece como uma espécie de hiato durante o qual acedemos ao descanso para novas odisseias bélicas. E a paz que almejamos como sendo o nosso desígnio ou a nossa finalidade é do foro utópico : está ali, como horizonte do nosso desejo; mas, tal como qualquer horizonte,  desvanece -se e foge de alcance à medida que nos aproximamos.

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