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Cultura, Literatura e Filosofia

ENTRE O SONO E O SONHO

Parcialmente rabiscado à mão, debaixo da sombra de uma árvore, no jardim situado na cidade onde atualmente habito.

Foi assim que surgiu o poema com que viria a participar num novo desafio literário que me foi dado a conhecer por amigos com quem deambulo por este novo mundo.

Desde o seu início ao momento do seu envio decorreram quatro dias.

Ainda que não totalmente preenchidos com tinta, foram dias, na sua maioria, de concentrada cogitação sobre o tema a ser trabalhado.

Metade delineado ao ar livre numa manhã de verão e a outra metade digitado entreportas no conforto da penumbra de um lar com calor.

A obtenção da versão final deste texto foi um misto entre o antes e o depois, o tradicional manuscrito e o contemporâneo dedilhar de um teclado, como se estivéssemos perante uma harmoniosa melodia.

Lido, relido, feito, refeito, apagado, corrigido, arestas limadas…

Finalmente pronto!

Sob a chancela da Chiado Books iria ser publicado o Volume X da Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho”. Esta obra pretendia reunir mais de mil poemas de autores contemporâneos escritos em Língua Portuguesa.

Seria a primeira vez que iria participar e por essa razão, foi com redobrado afinco e nervosismo que me propus escrever algo diferente e inovador para mim: um poema estruturado sem qualquer semelhança com os que frequentemente crio.

Depois de remetido, rapidamente me foi informado que o mesmo faria parte da obra.

De repente, aquela pequena palpitação no peito…

Um em mil, mera gota num imenso oceano…

Chegado o dia do lançamento, tive o privilégio de o partilhar com a Sandra, amiga literária de todas as horas, usufruindo da sua companhia rumo a Coimbra.

Tagarelámos novidades no aconchego das vozes audivelmente saudosas de se fazerem presentes.

À chegada, repusemos as energias despendidas no puro deleite de um grande pastel de nata e um saboroso café, acompanhados pela simpatia do empregado do restaurante mais próximo. Com descontraída afabilidade, confidenciou-nos um episódio caricato que havia acontecido recentemente. Alguém bem aprumado, exibindo um fato impecavelmente feito à medida de um corpo esbelto, perguntou-lhe se naquele estabelecimento existia um wc extra só para pessoas que se apresentassem com semelhante indumentária. Olhámos para ele e sorrimos em sinal de solidariedade para com a incredulidade da ocorrência.

Seguidamente, cumprimentámos a cidade com um passeio pelo Parque Verde do Mondego. Respirava-se vida serena através dos corpos que corriam e da família que com pedaços de pão alimentava os patos que se moviam vagarosamente pela vegetação aquática. Ao sabor de uma temperatura agradável, atravessámos uma pequena ponte onde os cadeados aí pendurados sussurravam antigas juras de amor eterno.

Encontrávamo-nos a meio do almoço quando uma chuva grossa começou a cair e foi escorrendo, apressada, os minutos. A hora foi-se acercado querendo envolver-nos no abraço da expectativa. Corremos pela rua, por baixo das varandas, chapinhando na água que se acumulava no chão.

E de repente lá estava ele: o Grande Auditório do Convento São Francisco.

Subimos.

Entrámos.

Sentámo-nos aleatoriamente nos lugares por nós escolhidos, estrategicamente ao centro.

“A emoção com que bate o meu coração já me derrete ainda o evento se encontra a média luz.”, pensei.

Tendo em nosso poder os livros, começámos a folheá-los procurando as palavras por nós sonhadas. O momento em que os nossos olhos tocam o texto impresso é sempre precedido por um friozinho eletrizante projetado pelo coração em direção a todo o corpo.

Deu-se início à apresentação da obra com a leitura de alguns poemas escolhidos pela organização.

Confesso que houve ali uma fração de segundo em que ainda tive esperança que o meu pudesse constar desse restrito grupo, porém, tal não aconteceu.

Pelo menos, não ainda desta vez…

Ou de todas as outras vezes, se as houver…

A velocidade com que sonho acordada a maior parte do dia, transcende-me!

Originais, criativos, engraçados, profundos e ousados, um a um lá foram desfilando fazendo-se ouvir por várias vozes, em diversos tons, em português de Portugal e do Brasil.

Após esta declamada leitura, foram exibidos, numa grande tela, os nomes dos mil e dez autores enquanto os mesmos iam sendo anunciados em voz alta e encaminhados para o palco para tirar a fotografia com o fundador e diretor executivo.

Gostei particularmente dos amigos que acompanhavam alguns autores espalhados por todo o espaço e que, de cada vez que algum dos nomes era anunciado, elevavam a voz num evidente sinal de orgulho e apoio.

Foi neste clima festivo que me deixei submergir por toda aquela atmosfera, observando tudo e todos os que me rodeavam numa clara tentativa gorada de absorver cada um daqueles pedacinhos dispersos de felicidade.

Como se tal fosse, efetivamente, possível…

Acabei por ser a última a subir ao palco e a tirar a fotografia, o que me valeu ser brindada com a pergunta “Como se sente por ser a última da fila?”

“Sinto-me bem!”, sorri maravilhada!

Por que não?!

Toda a experiência me pareceu fantástica e é cada um destes pequenos pormenores que a tornam ainda mais deliciosa!

Houve ainda tempo para cumprimentar e rever uma outra recente amiga que já anda nestas lides há algum tempo, Paula.

Seguiram-se mais algumas fotos e uma troca de palavras encorajadoras rumo a novos desafios em busca de algo mais.

Aqui fica o resultado de quatro dias de intenso trabalho em tempo de férias, neste que foi um mês de agosto demasiado quente e que se estendeu até ao domingo passado: Desadormeci

Desadormeci

Abri os olhos e inspirei-me

Que faço eu aqui estendida

Dona de tão profunda ferida

Acordei sozinha, perdida e triste

Deambulei na ilusão do que não existe

Sonhei-te uma e outra vez

Procurei-te no intervalo do espaço que destruí

Apertei-te na ausência do teu corpo em mim

Despertei-me na inocência do que refleti

Desinquieto este imenso adormecimento

Desacelero esta tranquila serenidade

Rejeito a inércia que cresceu

E transformo em sonho sonhado

O doce devaneio encantado

Que há muito tempo renasceu

Quimera vencida, acabada, irrecuperável

Anseio, entorpecimento, fleuma

Quietude, sonolência, madornice

Alento breve de uma vida memorável

Repouso em ti a coragem no caminho alcançada

Trilho imaginado na perdição dos pensamentos

Observo o mundo de outrora em liberdade

Imobilizada, sem receio e por minha vontade

Fecho os pesados olhos e tudo esqueço

Retorno a mim ou simplesmente adormeço


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