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Cidadania e Sociedade

ADEUS DINHEIRO!…

«Quando a última árvore for cortada, o último rio envenenado e o último peixe pescado, então o homem percebeu que o dinheiro não se come» – frase atribuída a Gerónimo (1829-1909), chefe índio apache.

Esta frase, proveniente da sabedoria indígena, vem a propósito da estupidez humana, supostamente num mundo evoluído, mas que engloba crimes ambientais de consequências trágicas, além de outros crimes que geram cada vez mais desigualdades entre povos, conducentes à guerra, à fome e a migrações em massa, em várias partes do globo.

Segundo a Newsweek, o presidente norte-americano Donald Trump quer «aumentar para 716 mil milhões de dólares o orçamento da defesa», em 2019, representando um aumento de 7% face ao ano anterior. Em julho deste ano, exigiu em Bruxelas que os países da NATO[1] «aumentem os gastos com a defesa [de 2%] para 4% do PIB», reforçando que «os países europeus devem contribuir com mais [dinheiro]». Segundo o SIPRI[2], a China terá um orçamento de cerca de um terço e a Rússia cerca de oito vezes menos do que os gastos dos EUA com a defesa / manutenção das guerras. Com a recente ameaça de denúncia unilateral, pelos EUA, do acordo com a Rússia sobre o nuclear, feito entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, está aberto caminho para a proliferação de armamento nuclear, para regozijo do lóbi da indústria de armamento norte-americana, e desassossego do mundo. Os EUA são livres de fazer novos acordos ou quebrar os existentes, como é o caso do comércio, e que envolve também a Europa. A propósito do comércio, o presidente Trump, em agosto de 2018, também ameaçou retirar os EUA da OMC[3], levando a um aumento de tensão com a China e junto de uma diversidade de países. E porque não falar em “guerra comercial”, em que todos perdem? Com o aumento das despesas militares, “voa” o dinheiro dos contribuintes. Com a desordem do comércio mundial, abre-se caminho à queda do sistema capitalista. A banca, que tem vindo a dar sinais negativos, tem feito “voar” muito dinheiro dos contribuintes e depositantes.

Diana Cooper, no seu livro “2032 – A Nova Idade de Ouro”, escreveu: «Diz-se que as culturas têm os líderes que merecem. A Lei da Atração postula que atraímos os reflexos do nosso ser interior. A humanidade tridimensional vota em líderes de baixa qualidade. Durante séculos tivemos a denominação masculina. Do ponto de vista negativo, os homens exibem características como: controlo, lógica desprovida de sentimento, autoritarismo, separação e curto prazo. (…) os trabalhadores (…) começam a esperar que os seus líderes demonstrem mais fibra moral e mais honestidade. Este raio está a dissolver o velho paradigma masculino e a tocar a consciência das pessoas com o novoO poder está, realmente, nas mãos da população. No mundo tridimensional demo-lo aos políticos e às grandes empresas. Para entrar no novo temos de o exigir de volta». É neste livro que se pode ler que o dinheiro irá mesmo desaparecer! Os leitores foram sossegados, ao afirmar que as pessoas serão capazes de encontrar caminhos alternativos.

Em julho deste ano, escrevi a crónica “Evolução – Entre Cemitérios e Corridas”. Nela referi a Suécia, por ter criado o maior cemitério de viaturas automóveis do mundo, originando um impacto ambiental negativo com este abandono de viaturas, ao adotar o que era comum na Europa – viaturas com o volante do lado esquerdo. Recentemente, a marca sueca Volvo anunciou que, a partir de 2019, só vai produzir automóveis com motores elétricos, mostrando estar numa onda positiva, favorável ao ambiente. E é precisamente da Suécia que vem a notícia que este será o primeiro país do mundo a abolir o dinheiro de papel. O Banco Central da Suécia refere mesmo a data de 2030. Tudo isto vem favorecer a atuação da Agência Nacional Anticorrupção e da Autoridade Sueca para Crimes Financeiros, que se situam fisicamente muito próximo, fiscalizam e atuam com firmeza. Gunnar Stetler, responsável pelo funcionamento da primeira instituição, afirmou numa entrevista à jornalista Claudia Wakkin, autora do livro “Um País Sem Excelências e Mordomias”, que só se registaram dois casos de corrupção desde os anos setenta (século passado), envolvendo deputados e membros do governo. Quanto a outros setores, em 75% dos casos investigados verifica-se condenação. Refere ainda que o que mantém a Suécia no topo dos países menos corruptos é a «transparência dos atos de poder, o alto grau de instrução da população e igualdade social».

Em Portugal, ao ter ficado escandalizado com a atuação do meu banco – três vezes no espaço de um ano, abusou na subida de comissões bancárias – cancelei a conta e mudei-me para outro banco, de atendimento personalizado, que não tem tesouraria, logo, não movimenta dinheiro físico!

Vejamos outra realidade, caricaturada por Chico Buarque de Holanda, cantor e compositor brasileiro, um homem de grande coerência poética e enorme consciência política. Tem algumas peças musicais que falam de dinheiro, claro, como crítica social. Uma dessas canções intitulou-a “Dinheiro em Penca”, é pouco conhecida em Portugal e tem uma extensa letra, como é seu hábito; a dado passo, pode-se ouvir-se/ler-se: “(…) Meu padrinho quando moço / Era muito fazendeiro / Tirou ouro do sertão / Foi gastar no estrangeiro / O dinheiro da boiada / Transferiu pro estrangeiro / (…) Eu também já tive um tio / Que virou velho gaiteiro / Que gostava de mulher / Como eu gosto de dinheiro / Era louco por mulher / Eu me amarro no dinheiro / Fui mascate no sertão / Caminhei o norte inteiro / Vendi grampo a prestação / Guarda-chuva em fevereiro / Até hoje estou esperando / A remessa do dinheiro (…) / Uma vez em Nova York / Liguei pro meu feiticeiro / Que atendeu o telefone / Lá no Rio de Janeiro / Eu então falei pra ele / Procurar meu macumbeiro / Pra avisar pro pai-de-santo / Pra arranjar algum dinheiro / Pra pedir pro delegado / Pra soltar meu curandeiro / Ao doutor seu delegado / pra soltar meu curandeiro / Mas o tal telefone / Lá se foi o meu dinheiro (…)”. Pelo teor da letra, literalmente, disse adeus ao dinheiro. Mas se o Chico esperasse mais uns anitos para compor esta canção, ela deixaria de fazer sentido, já que, ao que tudo indica, o dinheiro deixará mesmo de circular.

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[1] Organização do Tratado do Atlântico Norte.
[2] Stockolm International Peace Research Institute – que realiza pesquisas sobre conflitos, tendo em vista a paz e segurança internacional.
[3] Organização Mundial do Comércio.

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