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BOLSONARO E O CHEQUE EM BRANCO

O Brasil está a mudar. E os tempos não se adivinham melhores. A propósito, ainda se lembram de Marielle Franco?

Tenho sempre comigo aquela imagem de quem se prepara para aterrar no Rio de Janeiro ao nascer do dia. É uma imagem que fica, não se esquece. Como nas novelas. Aqueles pedaços de terra recortados por águas de azul ainda meio escurecido. São apenas os primeiros raios de luz. O espetáculo, esse, começa a sério quando ao “deep blue” se junta na linha do horizonte o laranja tórrido do sol. Daí em diante, é ver o dia a clarear e o Rio ali aos nossos pés. Como quem espera o melhor e o pior da vida.

Apesar de conhecer outras zonas do Brasil, é pelo Rio de Janeiro que o meu coração bate e, confesso, é o Rio que por razões várias conheço melhor. É a cidade onde sinto sempre uma onda quente de energia que sobe pelos pés e enche a alma. Onde a vida ganha intensidade, onde o sorriso se rasga mais vezes, quase por tudo e por nada. Só por estarmos ali, no calçadão ou na lanchonete, a desfrutar do momento.

Foi num desses momentos, há menos de 2 anos, que conheci a Marielle Franco, assassinada no último mês de março. Confesso que era impactante aquela postura, mesmo num convívio de amigos, de total determinação na luta pelas liberdades e por uma sociedade mais igualitária, quase disposta a matar ou a morrer. “Mas é de mulheres determinadas e corajosas que o mundo precisa”, pensei na altura. Escusado será dizer o que senti quando me chegou a notícia da sua morte, da sua execução.

Marielle era de esquerda. Era política, ativista, e denunciava a toda a hora o que ela própria assistia na favela onde viveu e cresceu por parte da polícia militar. “A dada altura já não sei quem é o inimigo, se o traficante ou a polícia”, contava. A sua voz começou a ouvir-se cada vez mais alto e, entretanto, alguém a quis calar. Denunciava a parte do mecanismo que se ramificou pelas favelas. Tornou-se verdadeiramente incómoda.

Pensei honestamente que a sua morte se tivesse sentido mais entre os brasileiros. Que perpetuasse e representasse uma nova bandeira de luta político-social no Brasil, contra tudo e todos que pudessem representar qualquer resquício de extrema direita.

Jair Bolsonaro também vive no Rio de Janeiro. Num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, de frente para o mar. E o certo é que a grande onda brasileira está com ele. Apesar de não gostar de homossexuais, apesar de defender instrumentos na justiça como a tortura, estar a negociar com os fazendeiros o grande assalto à floresta da Amazónia, de se incomodar tão pouco com as matérias de direitos humanos… Acreditam nele porque sim: “ele é contra a corrupção”, dizem.

Marielle também era contra a corrupção, mas mais: era de uma intransigência notável na defesa dos direitos humanos. Jamais votaria em alguém com um discurso e um pensamento ditatorial, que vai amordaçar o país e fazer estragos no mundo, nomeadamente em relação ao ambiente.

Sim, o Brasil está à beira da ditadura em pleno séc.XXI. Porque há mesmo quem veja a eleição de Bolsonaro como um cheque em branco na esperança. Um que fosse, era demais.


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