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Cultura, Literatura e Filosofia

PESSOAS COM GENTE NO OLHAR

Há pessoas que transportam no olhar aquilo que são.
Levam gente delas mesmas, sonhos e cansaços que almejam subir a um patamar que vai aquém daquilo que os olhos vislumbram.
Não há local onde passe que não me pertença e ao qual eu pertenço.
A vegetação. As pessoas. Tudo, assemelha-se a um respirar, a inspiração e expiração do que me habita e permite afirmar, ainda que inocentemente: estou em casa.
O vento, amigo de há longos anos, tem-me levado para locais onde posso observar um pouco mais, onde posso fechar os olhos e ver a paisagem, as gentes, os sons dos grilos, a água fria e límpida, as sombras dos pinheiros retorcidos pelo vento da montanha e a montanha dentro de mim cujo cume nunca atingi(rei).
Cogito sobre as pessoas que passam por mim na estrada, paradas, em movimento, o seu dia-a-dia é de facto um quotidiano, um dia de cada vez.
O domingo da missa pela manhã, outra qualquer diuturnidade que somamos sem que saibamos auferir o que não vence, porque o valor com que me pagam vale pouco do que me comprar, retomando, o chegar a casa comer uma bucha e depois sair para o campo ainda que as raízes nos queiram no recobro da existência.
O meu fascínio pelo aperto de mão fica fortalecido quando a minha mão encontra mãos de gente de labuta – de apaziguadora luta contra o inimigo ignorante que golpeia as vestes com medo de se despir do que não é – gente do campo, do Campo, mãos retorcidas como cepas, caras curtidas pelo Sol que vale 30 € por um dia de trabalho no Douro ou noutro património não unesquificado.
A bucha a meio da manhã é composta por uma chávena de café, um bocado de boroa caseira com um par de dias na côdea e um naco de bicho morto, nascido para morrer na força da idade, para que a fraqueza esfomeada dele se possa conspurcar, tudo se aproveita.
A mão segura um pedaço de carne gorda, a sola, o couro ainda com pelos que resistiram ao chamusco com os pedaços de palha, quase nem dá para cortar com os dentes, chupa-se enquanto se tritura aquele pão dourado e pelo meio, entre duas mastigadelas na alimentícia, o transístor roufenho toca uma música para alguém do lado de lá da coluna telefunken, um golfada de tosse desentope a via faladora, atira-me uns perdigotos sem moléstias, e sobre a cantoria a serenata dos ricos pobres ecoa:
– Há-de ser o que Deus quiser.
Tento recortar toda a paisagem e guardá-la no olhar, para mais tarde contar-te o que vejo.
Vou fotografando tudo com o olhar, falo baixinho como se estivesses lá, vou empurrando os sonhos para todo o corpo e, muitas das vezes, tenho até que tirar os meus sonhos do coração, para caberem lá outros sonhos, que não os meus. Quando, mais tarde, menos cedo, chego a casa fecho os olhos. As imagens que me rodeiam surgem à minha frente, vou distribuindo os sonhos por ti, enquanto fico à espera que outros sonhos surjam junto a mim e subam, saltando de lágrima em lágrima, para dentro do meu coração, outra vez.


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