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Cultura, Literatura e Filosofia

MÃOS ENRUGADAS, ESPIGAS DOURADAS

As espigas douradas vão passando alegremente entre as mãos enrugadas que as vão despindo do casaco de folhelho, deixando a descoberto os pequenos grãos flamejantes como gotas de luz.

Espigas douradas pelo tempo, que despejou nelas a luz trazida pelo beijo amoroso do sol, ao longo dos dias, muitos dias de verão. Mãos enrugadas pelo tempo implacável, que lhes talhou sulcos vincados como fundos carreiros por entre os campos que tão arduamente cultivaram, ao longo dos dias, muitos e muitos dias de um tempo quase já sem memória.

 Algumas mãos já pouco podem, cansadas, endurecidas pela idade ou pela doença. Mas os sorrisos abrem-se, mais luminosos do que a tarde, que essa, promete chuva.

Efetivamente, o céu vai escurecendo, à medida que as nuvens se vão adensando, como emaranhados de algodão sujo. A chuva parece pendurada, prontinha a cair ao mais leve sopro.

“É dar-lhe antes que caia, vá!”, vai ela dirigindo, de olhos presos nas espigas já desfolhadas que alguém lhe vai colocando no colo. Sentada na cadeira de rodas, as mãos imobilizadas por um AVC antigo, vai-se deliciando com os presentes que lhe vão caindo na regaço, doirados, a sorrir-lhe matreiros. É também com o olhar matreiro que aponta com o queixo na direção de um dos recipientes:

 “Chega para cá, anda. Está cheio, é levar e trazer outro. Antes que chova.”

Sorrio-lhe. O seu olhar divertido, enquanto lhe tiro o monte de espigas do colo, e lhe coloco, em substituição, outro acabadinho de despir, delicia-me. Sinto-a orgulhosa, como se o trabalho tivesse sido seu. Só por participar.

“Leva-me para dentro, vai começar a cair”, pede-me, de olhar preso no céu cada vez mais carregado.

 Agarro-lhe a cadeira, com intenção de a levar.

“Não. Espera mais um bocadinho”, acaba por decidir.

Entretanto, ele vai desfolhando, vagarosamente, à medida da velocidade das suas mãos cansadas, os tesouros que lhe coloco no colo.

“ Eu é que vou fazer isto tudo?”, admira-se.

 “É para mim e para si. Para não ter de me vergar tanto, doem-me as costas”, desculpo-me.

 “Estás velha. Estás pior do que eu, caramba!”, sentencia, olhando-me com ar trocista.

Rio-me da sua valentia. É tão bom vê-lo empenhado. Ele que, quando não se está a queixar e a resmungar, permanece alheado, como se este mundo já nem lhe dissesse respeito. É tão bom senti-lo presente. Mesmo quando, sempre em atividade, e de olhar satisfeito, vai murmurando baixinho:

“Isto não presta para nada. Na minha terra é que era bom. Havia concertinas e cantigas. Agora isto…”

Suspiro. Ele é incorrigível. Sempre o mesmo. Mas gosto dele assim. Sorrio, enquanto me debruço para apanhar mais uma braçada. E enquanto atiro mais um punhado de espigas douradas no recipiente que se vai enchendo.

Por trás de mim, oiço vozes que comentam baixinho:

“Neste Lar acontecem coisas…”

“E olha como eles trabalham. Parece que nem estão cansados.”

“Estão felizes. É mesmo assim.”

“E olha os pequenitos da Creche, também estão ali. Olha como gostam.”

Milho rei! Nas mãos de um pequenito, surge, triunfante uma espiga vermelha. A criança corre para uma das cadeiras de rodas e abraça a sua ocupante. Recebe, como recompensa, um sonoro beijo nas bochechas encarnadas.

Outros esperam pelo abraço. Em vão. A criança deve ter achado que a missão estava cumprida. Porque escolheu aquela e não outra, que nem familiar era? Não interessa. Naquele momento, somos todos um só. Como netos e avós, num abraço entre gerações a alastrar ao mundo inteiro. Bonito de ver. Ainda mais bonito de sentir.

“Leva-me agora. Leva-me”, apressa-se ela a exigir.

Um pedido urgente dela, em boa hora, diga-se a verdade. Está por um triz. A minha filha leva-a, quase em corrida. A chuva desprende-se do céu, após um relâmpago repentino. Eu levo-o a ele. Se não for o primeiro, fica enciumado. Corremos todos, levando-os um a um. Quase não dá tempo, mas lá conseguimos. Na hora certa. O trabalho ficou feito.

É hora do lanche. Segue-se o bailarico no salão. Os acordes alegres do Rancho Folclórico entoam na aparelhagem. Os presentes, visitas, familiares, amigos, animadora, começam a dançar. Eles, os residentes do Lar também dão o seu pezinho de dança. Os que podem, evidentemente. Os que não podem, assistem, recordam. Sorriem.

Ela ri e abana a cabeça, ao ritmo da música. Olha para mim e incita-me:

“Não vais dançar?”

É claro que vou, não perco tempo.

Ele, que não pode, e nunca foi muito dado a danças, observa, atento. Embalado pela música, adormece. Regressou ao seu mundo.

As mãos de uns e outros descansam no regaço, cansadas mas felizes. Mãos enrugadas, sulcadas como a estrada da vida. São mãos douradas e preciosas. São mãos que viveram, trabalharam e hoje recordaram, num brinde à vida e ao sol que doirou as espigas e as doces memórias de cada um deles. De todos nós, afinal.

“Neste Lar acontecem coisas…”, ouço novamente alguém comentar num sussurro.

Neste Lar acontecem coisas, sim. Ainda bem que sim.


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