Cultura, Literatura e Filosofia

LEI DO RETORNO

(Argumento original de Nuno Zeferino, composição de Raul Tomé)

Era sábado à noite e jantava eu, pacatamente, no restaurante que havia sido inaugurado na rua Central há sensivelmente uma semana. O local era acolhedor, bem organizado e estava praticamente cheio.

Num átimo, entraram alguns indivíduos encapuzados, fecharam as portas e tomaram conta do espaço.
Apoderaram-se da comida e trataram mal clientes e empregados, agredindo-nos e roubando aquilo que era nosso por direito.
Fiquei petrificado, vendo aqueles meliantes ficarem com tudo aquilo que não lhes pertencia.
Antes da sua entrada naquele restaurante, cada um de nós tinha o seu espaço, os seus alimentos, os seus pertences e, de um momento para o outro, ficámos sem nada.
Agora nada era nosso, tudo era deles, apenas e só deles.

Um estremecimento, provocado pelo suor gelado e pelo grito que se fazia garrote na minha garganta, fez-me acordar do pesadelo em que o sono me havia afundado sem sequer pedir licença.
Atónito, permaneci imóvel tentando perceber se era apenas um devaneio da minha prodigiosa mente ou se era a minha consciência julgando-me através de metáforas que me despertassem para a realidade em que vivemos.

E, de facto, a história do nosso planeta Terra não é assim tão diferente.
Já existiu um tempo em que tudo era de todos.
Reinava a harmonia e os equilíbrios eram respeitados. Hoje, estamos à beira da decadência e do colapso.
Convencidos de que a nossa espécie se encontra no topo da cadeia alimentar, exercemos, com recurso à superioridade que julgamos ter, uma enorme pressão, desrespeito e terror sobre tudo e sobre todos quantos habitam nesta casa que a todos deveria pertencer.

Todavia, para este tipo de abusos, tremendamente criminosos, parece não existir lei, mas ela existe.
Há quem lhe dê um nome e, identifiquemo-nos ou não, é vulgarmente conhecida por Karma. Dizem os entendidos que, segundo esta lei, todo o bem ou mal que fazemos aos outros, por alguma forma, ser-nos-á retribuído.

Desconhecemos, contudo, sob que forma chegará o retorno de todo o mal que temos feito proliferar. Talvez chegue sob a forma de doenças, de disfunções da natureza que resultarão em catástrofes ambientais capazes de enormes devastações ou se simplesmente chegará através da total ausência de recursos que impeçam a continuação da nossa sobrevivência.

Mas o que mais podemos esperar da nossa mãe Terra que não seja uma valente punição por tudo aquilo que explorámos, escravizámos, sugámos e matámos?

A vida é feita de escolhas e nós ainda temos o poder de fazê-las a níveis que, por vezes, nem sequer imaginamos.
Não são grandes nem radicais, são pequenas e diárias, mas verdadeiramente essenciais.

Por isso, se teve a coragem de ler este texto até aqui, coloco-lhe uma questão:
“Quer continuar a viver assim ou ajudar a nossa história a ter um outro fim?”


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