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Cultura, Literatura e Filosofia

A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO DÉCIMO SEXTO

Em telhas sentado, absorvo a maresia que o aldeão deambular estende por íngremes ruelas.
Nas patas, acomodado o queixo, olhos que riem, extrapolando o devido descanso, ou repouso talvez o seja, em inclinado plano, comunitário cão se espraia.
Deixou entardecer. Entardeceu-se. No simples amanhecer dos pensamentos o sentia. Pálpebras que gesticulam, ternas, em pequenos encontros com circundante ar, dissertações sensoriais, profundas, que em pele de alperce acreditar o faziam, tamanho o desabitar de pressões maiores.
Convenceu as lágrimas a abandoná-lo. Atalho nenhum. Orquestração em sintonia com as folhas que buscam aquelas como essencial toque a solo outro. Tapete que se forma, gélido a montante, impossibilitando no seu pautar que aglomerados críveis se tornem e obstruam aquilo que nossos olhos tomam como honesto, não implicando ornamento algum, que financie o que límpido se quer, fundo, onde pés pisam, visível se mantendo.
Andar primeiro do local onde o badalar em torre se concretiza, contabilizando para outrem, temente em muito ao tempo, o que lhes sopesa.
Declino horizontal olhar, para me dedicar ao que naquele humano quadro antecede, incomensuravelmente, o prorrogar da dedicação a um legado que prescinde de apresentações a quem o habita, em condições várias de proximidade e presença.
Suave a azáfama do seu dia, crescido já, de mão dada com um esboço do tempo que outros percorrem em virulenta intensidade. Descrentes desta teoria com prática associada, questionada não, crianças riem enquanto coletivo espírito as organiza para a tarefa que celebrará o ano de nascimento de alguns que assim, em analepses, viverão anos idos, culpados do que representam na comunidade e, para lá dela, outras formando, com o que os humanamente preenche.
Outros, caminhos paralelos constroem. Momentos onde porta alguma se fecha, convidando a quente bebida, amolecendo o pão que nessas casas se molda com a força de todo um coração que, não queimando, tosta apenas a superfície que transporta o calejar da vida. Aqui, sentimental ingrediente passível é de mistura.
Margens do pensamento, cedendo-me espaço pouco, essencial para o não concluir do que se vertebrava. Sob este concluir versei minha ação. Talvez aumente, aumentei o foco no desejo maior destes que agora chamam velha senhora à janela que na porta desenhada foi, como que um primeiro bom dia a determinar entrada que se faz tardia, aquando do abeirar da acentuada curiosidade destes que se disponibilizaram, por intrínseca necessidade, a abraçar a memória coletiva da aldeia que os viu crescer e percorrer, também, os campos dos erros, pertinentes para o redefinir de rota, quando porto algum à vista se despe de neblinas que corpo conferem a um nu que o olha, aguardando amarração que cabeço envolva.
Jovens estes, cuidadores que não se demitem do que sentem. Sentam-se, atentos, ouvintes daqueles que apesar de longos dias, carentes se manterão. Cuidadores de cada velho-embarcação. Navios que se enrugam pelo envolvimento das marés que, da amura à alheta, os relembram da incógnita presente na vida. Bonitas as pregas que se revestem desse sal, depositado pela partilha, traduzindo cada olhar no mundo, perpetuando nos outros toque seu. Imenso, como malagueiro este, batuta nenhuma, que nos salpica perante embate nem sempre pacífico.
Como que esperando a visita, uma das anciãs da aldeia a sua porta manteve entreaberta, não vá estar impossibilitada, uma vez entregue aos seus afazeres, de ao seu nome atender. Da confiança surgem imensas brechas que não se fecham, mesmo as do coração, que de cadeados se munem para obstruir curiosidade alheia que não a de próximo círculo. O sorriso serve precisamente para nos traduzir essa incapacidade de fileiras cerrar, muros por terra deitados.
O cheiro quente que se fazia sentir, como que corpo detinha, quando em contacto com apurados sentidos de quem na cozinha presença marcava. Outonal paleta não se fazia sazonal. Talvez as cores sejam a do constante conforto, do amadurecimento dos lares e de quem os habita. Nada relativo a temperaturas que não as que ao coração dizem respeito.
Sentados à pequena mesa, de vazios lugares cheia, outrora hospedeiros de sorrisos e palavras que lareira construíam em torno do sentido. Quadros que se pintavam a cada ocaso e que a ordem natural das coisas subtrai para uma galeria onde o acesso se faz reservado, receio muito que a azáfama, ou vento de maior, os abanem, ao chão entregues, de restauro amputadas. Por isso, cada recôndito espaço da casa era tratado com a suavidade de toda uma vida dedicada a amor maior, até ao presente transportada.
Companheiro seu, de toda uma existência, truncada ainda, noutro porto de abrigo a esperava, sem pressa alguma, devendo em nada a local qualquer parte de si. Perda que preenchida é pelo respeito da união que ainda os liga.
Olham-na e nela reveem um futuro onde habitar podem, com a simplicidade que é inerente às coisas da meninice. Lendo os olhos e os gestos destes que não se ausentam do seu aconchego, sabe que o seu amor olvidado não será. Sentia que cada um dos miúdos detinha um coração desinquieto, desabitado do absoluto que a ação lhes limitaria. Em momentos certos, certeza em nenhures de si.
Mulher que contorcionismo nenhum com as palavras usava. Detinha-se na humildade a que as remetia, sem adornos de maior que caminho engordasse até destinatários seus.
Longa trança, de profunda e orgulhosa tonalidade branca, acomodava-se na sua cabeça, outrora estendida, suspensa, aguardando o toque, o deslizar de mãos, como boneca que de minucioso tratamento necessitasse, fios que, se tocando, refletiam a demanda de uma bonita existência, agora acondicionada no leito que a sua cabeça a si chamava. Como que todos os afetos à razão convocados fossem e pequenos ganchos os abraçassem para lhes lembrar que os detalhes dos momentos vividos, dedilhados deverão ser, quando não inóspito é o terreno onde se dispõem, e partilhados com aqueles que percorrem barra sua, em rota de profícua aprendizagem.
Adornados os queixumes por estórias que despontavam sorrisos. Gargalhar sentido. Como que entrecortadas rimas. Aqueles diluídos, sobejamente, nas juvenis peripécias da velha-senhora-sempre-criança.
E na oral tradição se laborava, tendo contacto com aquela poesia que se faz pão e amassada é. Visível o encanto. Numa rendição total ao verbalizado, musculado por singulares marcas de oralidade que, pontualmente, levava o seu rosto a sentir a carência do toque das mãos, indecisas na temperatura a acolher. Naquele momento, o sangue migrava, em quantidade maior, para aquele, ruborizando-o. Ainda se mantinha menina, quando falava de si e dos seus, em tempos em que tudo era embebido em simplicidade e num malmequer o bem-me-quer finalizava o desprender do dia.
Sentados, maravilhavam-se com a convidativa divisão da casa, certos de que cicatrizes antigas o espaço conservava. Outras agora acrescidas. Cada elemento, uma moldura na luta, vincada, pelo não olvidar. Das anteparas que constituíam, redondas em si vigias que se abriam para interiores seus, onde escotilhas, não vedadas, acesso dão às estórias que agora nossas são, também.
Povo este que nos escolhe, intocáveis mantendo doces recantos de si, impossível de acesso a salazar que, rasando, recolher queira o que peado no tempo se manterá. Um passado resolvido que fecunda um presente de inesgotável gratidão para quem o trabalho de parto facilita.
Na contemplação, acomodados não se deixavam, a concêntrico circuito entregues. Nisto, veriam, a magro prazo, o esmorecer. Algo que os faria ruborizar, quando hipótese em mesa, tamanho o desrespeito ante a luta, a demanda de muitos. Dos seus.
Prova de amor esta em que o recolhido em vida, colocado é nas mãos de curiosos seres. Transportarão peso muito, mas de erguido peito, com a responsabilidade de graúda gente.
Poetas que rugas usam, não linhas, para desprender de sua corda, já enxutos, os versos de toda uma vida. Ígnea, para muitos.
Orvalhavam, tocando a pele que o ensurdecedor cair escutava. Rasando, torrencialmente, exercia um sem número de sensações, ampliadas pela ternura do espaço que os aconchegava como se de materno leito se tratasse.
No decorrer da conversa, de câmara e bloco de notas munidos, iam tecendo a malha de questões que sentido faziam para o todo que era a comunidade, nunca menosprezando a importância da individualidade para a conservação e maturação do coletivo que densidade afetiva vai garantindo ao longo das gerações que respeitam os seus antecessores e o caminho, importante, por eles trilhados. E sempre, sempre, de corações entreabertos. Batente colocado para entrada imediata, familiar, no desaguar de emoções que os carateriza.
Surpreendidos eram, infindavelmente, pelo sem número de episódios que já não cabiam nas pessoas que os viveram. A partilha era uma necessidade. Importante era vista. Era precisamente em momentos como aquele que as canetas repousavam sobre a mesa e as perguntas demitiam-se das funções a si atribuídas. Corações escancarados para o jusante que representavam, recolhendo a mescla de palavras e emoções que não se detinham em represa alguma.
Absorviam o mais-que-suficiente para o seu bater. Desalento nenhum. Não se exercitava qualquer síntese. Fruíam da intensidade do momento que lhes estava a ser proporcionado por um simples à mesa sentar e ouvintes, de moralismos despidos, serem. Era mais do que imagem captar. Muscular o já de si exercitado músculo. Unanimemente o sentiam.
Na mesa, o pão que os afetos amassaram. Residia numa perpetuidade que lhe conferia insolubilidade nas desavenças e entorpecimentos que, em lengalenga, a vida acrescenta, fiando-se num arquétipo que estranho lhes era. Preferiam a insciência à recusa de a mesas como essa se quedarem.
Pela pequena janela, de azul vestida, ameada, enquanto recolhe em pequenos pratos os doces que talentosas mãos laboraram, vagueia o olhar pelos desenhos que a locomoção das pessoas, fugindo à chuva que se fazia sentir, concretiza. Por vezes, pensamos que se abstrai do interior, de quem à sua mesa se dispõe, agrupa, convive, quando a vemos em profunda quietude sorrir. Espelhando-se. Uma não dissonância com a beleza do que vê. Arpoamos aquele momento como se nosso fosse. Quiçá o silêncio, a quietude, premissa primeira seja para a entrada nele. O respeito, a anuência.
Um apologético opúsculo às vísceras de humana existência. Chuva caindo, gotejando, como as lágrimas entre a felicidade da vida e a dor, de descanso pouco, da morte. Da saudade, amantes. Beijando-se. Exasperadamente.
Às gotículas que se desprendiam de raiz sua, tentava encontrar em exteriores harmonias uma orquestração que sentido fizesse.
Pela janela sentia o que no chão salpicava, requerendo atenção sua, rasgando o silêncio que ensurdecia em si, como em alto mar se sente, em noite que se faz senhora e determina o cancioneiro dos marujos que a salgada água se entregam.
A morte entornou-se para dentro do corpo do seu amado que, de memórias emagrecido, solidez não encontrava no esqueleto do vivido.
Num repente que não tardou, em torno de redonda mesa se sentou, novamente, e insistiu, suavemente, na catadupa de estórias que sentido atribuía a comungado presente. O seu primeiro beijo acompanhava-a e à mesa se dispunha, como forma de suturar o que em feridas, vezes várias, a inquietava.
Entre dois soluçares, o cão pela porta entrou e em seu regaço, agora, repousava. Amaciando o pelo que se fazia chuva, odor assim o determinava, não esmorecia nas vírgulas que acrescentava ao rol de peripécias que de uma infância até rugosa idade se estendiam e pelo tempo brincavam como se ao agora pertencessem.
O bruto tecido que ali absorviam dignificaria a comunidade e a compreensão que os outros dela teriam, assim que baú aberto, nunca cerrado. Forma outra de valorizar os afetos e a importância que detêm na ação de quem ali mora. Espaço nenhum para mágoas. Entre a chuva passavam e à sua vida iam, calcorreando trilhos que não os que encostados corações requerem para a continuidade do seu bombear.
Dizia a velha senhora que, destravada no léxico, idade tinha a mais para que gato a língua lhe comesse, que o adeus que cada um sinaliza no existir é como que a chegada do outono. Uma ramagem que nos é atribuída à nascença, num de partos vários, e folhas perdendo vai, sabendo-nos aconchegados pelo tapete que agora nos serve de caminho. Da continuidade do percorrido até então, que se estende por esta aldeia-ventre, como súmula da sapiência afetiva dos seus cirúrgicos artesãos.

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