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SEM ESPAÇO DE ARMAZENAMENTO

Por uma vida inteira, auto-analisando o mais possível as coisas que decorrem deparo-me com a extraordinária sensação de que um algoritmo ou uma divindade tem andado a providenciar-me pequenos fragmentos não casuais de informação. Detalhes aqui e ali que escamando tudo revelam que estou algures num trilho correcto. Não são só as pessoas, mas também as situações que as envolvem, os temas e as paixões. Tudo conflui no mesmo sentido, parecendo que deixei num tempo esquecido as migalhas que agora recolho. Nem o Google é tão bom a fazer estas associações de preferências e gostos nos convites a compras.

Acho-me, não como um pensamento sobre mim mas antes como um encontro, estranhamente exacta, e chuto para fora todas as tristezas que geraram aquele “porque é que me foi acontecer isto?”.

A vida é tanto genial quanto ridícula nos seus tempos devidos, histórias, bondades e indelicadezas. Há de tudo e cada vez as narrativas dos outros mostram esta dicotomia e multiplicidade de vidas. Pequenos enredos que quando contados são melhores que a telenovela. Encontros que mudam vidas. Pessoas que transportam galáxias. A partilha nunca foi tão desregrada e domina-nos também, de vez em quando, a nossa necessidade de deitar fora, de destralhar. Mas do que nos devemos desfazer sem perdermos toda a riqueza que isso nos traz? Como continuar no facebook quando grande parte dos comentários é um desperdício do nosso tempo?

Começamos a estar presos a demasiadas coisas e estamos presentes apenas em parte nos momentos importantes. Na nossa agenda sobrepõem-se actividades e no nosso coração o aperto dos contratempos. Os olhos resmungam e o sorriso quer estar no futuro pela pressa que temos pelo acontecer.

Entender o que move o outro e aquilo a que se dispõe dá um trabalho desmesurado. Não é algo com procedimento fixo. E, claro, depois perceber se o outro quer ser entendido. A exaustão disso. Avaliarmos os outros, avaliarmo-nos, avaliarmos os preços de folhetos de promoções e todas as opções do supermercado, registar todas as tarefas pendentes como lista de obrigações, tentarmos adaptar-nos a todos os papéis e correr para chegar a tempo do tempo. Tratamos os nossos dias como um produto de consumo: ter mais, ser mais, viver mais. Por isso o incómodo cada vez mais frequente de que tudo passa depressa. Fazemos uma viagem a Londres num fim de semana enquanto na geração anterior a tinham como a viagem única de uma vida.

Adoramos ser deuses omniscientes e omnipotentes.

O som profundo do mar, a sua rotina… Quem de nós hoje conseguiria ser mar?! Ou formiga?! Pobre Gregor Samsa se acordasse barata hoje.

Quem consegue adormecer, deixando os problemas na gaveta das meias?

Retomando o início que é mais luzidio,  não nos percamos por causa das obrigações, os cansaços ou exigências. Não nos percamos com a enorme base de dados viva com que lidamos diariamente, com o que os outros pensam, como os outros reagem, ou como salvar o mundo. Façamos uma coisa de cada vez, aprendamos a dizer “não” as vezes precisas e, no silêncio da noite antes de adormecermos, pensemos no tudo que nos trouxe bons dias. Destralhar é preciso. Cada vez mais. Não só as casas mas também a mente e o espírito. Destralhar a vida. Encontrar e ficar apenas com o que nos é útil. Só assim conseguimos atender àquilo que nos faz bem, e só assim nos permitimos ver bem o caminho percorrido e o que há a percorrer.

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