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COMPLEXO FUNERÁRIO DA IDADE DO FERRO EM YORKSHIRE NÃO PARA DE SURPREENDER OS ARQUEÓLOGOS

Nota: Alguns de vocês devem lembrar-se que o meu percurso aqui na BIRD Magazine começou com a crónica Londinium, O Templo de Mitras (quem não leu vai sempre a tempo de o fazer) Volto assim, ao início desta aventura, para dizer que o projeto de recolocar o templo no seu local original e torna-lo acessível ao público através de uma experiência multissensorial com luzes cuidadosamente dirigidas, neblina e som ganhou o prémio de BEST PUBLIC PRESENTATION OF ARCHAEOLOGY nos BRITISH ARCHAEOLOGICAL AWARDS 2018. Parabéns a todos os envolvidos no projeto e não se esqueçam de, se eventualmente, passarem por Londres, visitar o London Mithraeum Bloomberg SPACE e viver esta galardoada experiência.

Foi descoberto aqui em Inglaterra a inumação de uma carruagem com os respetivos cavalos e condutor. Sim, até os arqueólogos ficaram surpreendidos com tão incomum enterramento. No entanto, este não é o único enterramento “fora do normal” e esta também não é a primeira carruagem a ser encontrada em Yorkshire, onde os investigadores identificaram perto de 142 sepulturas datadas da Idade do Ferro (sendo presentemente considerado uma dos mais importantes complexos funerários da Idade do Ferro em Inglaterra.)

Mas vamos por partes, que este sítio arqueológico tem pano para mangas.

Nesta imagem podemos ver os dois cavalos e uma roda da carruagem descoberta recentemente em Yorkshire.

Vamos encetar esta viagem à idade do Ferro, precisamente por compreender o que foi a Idade do Ferro. Posterior à Idade do Bronze, a Idade do Ferro é a última era conhecida pela Idade dos Metais (Idade do Cobre, Idade do Bronze e Idade do Ferro). Esta ocorreu quando as sociedades pré-históricas passaram a dominar e a usar o ferro em vez do bronze para fabricar vários tipos de materiais (o ferro é superior ao bronze em termos de dureza) esta também foi a última idade da pré-história e deu-se durante o séc. 1.200 a.C. a 550 a.C. (estas datas são relativas, pois o domínio do ferro ocorreu em momentos diferentes e em diferentes partes do mundo).

“É concebível que a família e a comunidade do homem aqui enterrado acreditassem que a carruagem o ajudaria a alcançar o outro mundo ou seria útil para ele quando lá chegasse”, disse Dr Melanie Giles da Universidade de Manchester.

A carruagem, os cavalos e o condutor, que foram escavados nos últimos dois meses vão agora ser alvo de estudos que puderam ajudar os investigadores a compreender melhor, tanto as sociedades da Idade do Ferro Britânica, bem como, o complexo funerário onde este foi encontrado. Por agora, resta-nos esperar a divulgação dos estudos.

Esqueleto do “guerreiro” que foi enterrado no ritual post-mortem. As setas vermelhas indicam os locais onde as pontas de setas foram encontradas.

Mas este complexo funerário que tem sofrido intervenções arqueológicas ao longo dos últimos 3 anos, tem dado origem a outros enterramentos peculiares.

Entre as sepulturas escavadas nos últimos três anos, está a de um guerreiro enterrado por cima de seu grande escudo de madeira de forma retangular, sendo visível sobre o seu torso a fivela de couro e respetivo fecho, fecho este que apresenta decorações.

Outra sepultura particularmente interessante é a de um possível guerreiro inimigo, isto porque para além, de ele apresentar indícios de uma morte violenta foi enterrado a uma profundidade muito maior que a normal e o corpo encontrava-se voltado para baixo. Investigadores acreditam que se uma pessoa fosse enterrada numa cova mais profunda que o normal e voltada para baixo era uma forma de impedir que o morto, normalmente inimigo da comunidade, ressuscitasse dos mortos e viesse assombrar os vivos.

Um terceiro enterro interessante foi o de um guerreiro, enterrado com sua espada, que passou por um bizarro ritual post-mortem. O ritual consistia em: quando o corpo foi depositado na sepultura, as pessoas que compareceram ao funeral (provavelmente outros guerreiros) arremessaram ritualmente seis lanças contra o corpo. A sepultura foi posteriormente preenchida com terra, cobrindo o corpo e as lanças. Este é um ritual funerário muito especial, do qual apenas cerca de uma dúzia de outros exemplos são conhecidos e possivelmente estava reservado para indivíduos que lutaram bravamente em batalha ou que se distinguiram de alguma outra forma.

Vista panorâmica do complexo funerário da Idade do Ferro descoberto em Yorkshire e onde até agora já foram identificadas mais de 142 sepulturas.

Outros indivíduos cujos túmulos foram escavados incluem uma mulher sepultada com braceletes e um broche de bronze com três contas de coral incrustadas, sendo as contas de coral originárias do Mediterrâneo; um guerreiro, enterrado com sua lança e um grande vasilhame provavelmente contendo comida ou bebida; uma jovem de 17 a 20 anos de idade, acometida por uma gravíssima artrite na zona pélvica e espinhal, que morreu perto ou durante o parto.

“Este espetacular grupo de sepulturas traz novas informações extremamente importantes sobre a vida e a cultura da Idade do Ferro. É um dos mais significativos complexos funerários da Idade do Ferro descobertos na Grã-Bretanha nos últimos cinquenta anos ” disse um dos arqueólogos envolvidos no projeto, Dr. Peter Halkon, da Universidade de Hull.

Sem dúvida que este complexo funerário mostra muito da cultura de enterramento das sociedades da Idade do Ferro, mostrando a história das pessoas que lá foram sepultadas, assim como, peculiares e interessantíssimas formas de inumação.

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