Cultura, Literatura e Filosofia

DESPERTARES

O tempo flui por entre os interstícios nebulosos do Outono. E entretanto sentimos que o infinito ameaça invadir todo o território outrora reservado aos sonhos. Imersos na noite, nem sabemos que o dia esplende do outro lado do mundo. Parece-nos sempre que o nosso território,  este que abrangemos com os olhos e não passa de uma superfície,  é o único que importa reter. Prendemo-nos à linearidade visível e fechamos os sentidos a tudo o que subjaz ou se eleva por debaixo de nós ou para além dos céus.  Somos limitados.  Vivemos ancorados no rés do-chão,  presos na cave do ser, algemados em cavernas e cavernícolas por onde escorre um húmus bafiento a que chamamos a nosssa atmosfera.  Se acaso abrissem sobre nós uma clarabóia,  uma janela, uma brecha, ficaríamos cegos e regressaríamos, revoltados,  à nossa plúmbea escuridão.
Evoco, deste modo, Platão  na famosa alegoria, tantas vezes  citada a despropósito,  vejo os prisioneiros,  amarrados à parede, contempladores de sombras indecisas a que dão a única veracidade de que são capazes. Vejo que, no meio deles,  alguém levantou a cabeça,  esgotado do círculo aberrante de sombras incorpóreas. Ele soube que a luz da fogueira e a potência da chama apelavam a novos cenários de contemplação e que um outro mundo, desde sempre alienado dos acorrentados,  seus pares, se abriria ao seu desejo de vastidão,  caso ele pudesse voar. Percebeu que não tinha asas. Ou, se as tinha,  o espaço para abri-las precisava ser disputado ferozmente.  Iniciaria uma guerra? Explicaria aos seus companheiros que um outro mundo lhes lançava,  de longe, o mais prodigioso dos apelos, e que era necessário quebrar as correntes e voar?
Soube então que, amarrado de pernas e pescoço à solidez de uma parede, teria que ser paciente: perderia a guerra se a intentasse sozinho e ninguém ouviria as suas explicações.  Lentamente, começou o trabalho duro de desprender – se das correntes . Percebeu, a cada novo dia, estar um pouco mais próximo do esplendor da luz que lhe daria a verdade das coisas. Nunca mais contemplou as sombras obscuras projectadas na parede. Nunca mais se entreteve a escutar  as conversas estultas dos companheiros.  De olhos fechados, foi sentindo a mornidão da fogueira longínqua e  o corpo distendeu-se numa imponderável condição. E todos os sentidos se expandiram no vórtice inesperado das sensações.  Era livre.
Desta liberdade estamos todos carentes mesmo não sabendo que somos prisioneiros adormecidos, ávidos de muitos despertares.

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