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Cidadania e Sociedade

E DEPOIS NASCERAM PAPOILAS

Atividade na biblioteca

Escrevo no dia 13 de Novembro de 2018.

Os dias 13 de Novembro podem ser tão tristes. Ou não.

O dia acordou límpido, luminoso. Acordou num claro contraste com o dia que fez anteontem (há dois dias atrás apenas), que esteve fosco, frio, chuvoso – eu diria mesmo que o dia de anteontem não nasceu, que foi noite apenas.

E eu fiquei logo cheia de energia, porque os dias claros despertam em mim muito boa disposição. Tratei de fazer arrumações, o meu ritmo de movimentos aumentou claramente em relação ao que tinha sido dois dias antes. A certa altura fui apanhar hortênsias para colocar nas jarras (a casa também fica mais alegre quando os dias têm mais luz). E pensei nelas, nas hortênsias, em como têm uma tenacidade fora do comum para uma flor – minúsculas flores em pedúnculos, como eu costumo dizer, pétalas infinitas, a juntarem-se para formarem grandes e pesadas florações. As hortênsias do meu jardim duram muitos meses floridas, e passam pelo mesmo processo outonal das folhas das árvores, variando as tonalidades, desde a sua cor natural até ficarem esverdeadas-amareladas-alaranjadas-avermelhadas, até, por fim, caírem. É Novembro e o meu jardim ainda está carregado de hortênsias e isso deixa-me feliz.

E o facto de me por assim a tecer considerações acerca da robustez e longevidade das hortênsias levou-me também a pensar na fragilidade e frugalidade da maioria das flores. Levou-me a pensar nas papoilas.

Os Campos de Flandres

É que umas e outras são dignas do maior respeito e consideração, porque, na verdade, umas não são mais de maior valor do que as outras. Pensando bem: uma papoila não será mais forte do que uma hortênsia, atendendo a que, no seu tão curto período de vida, tem que enfrentar tantas adversidades? Tão depressa as suas pétalas expostas ao vento sobre o fino caule se desmancham ao vento!

“… e depois nasceram papoilas!”

É o título da actividade que celebra o ARMISTÍCIO – 100 anos do fim da Primeira Grande Guerra, a decorrer na biblioteca escolar da minha escola, onde sou professora bibliotecária.

A professora de História, Maria do Céu Guedes, preparou uma exposição de cartazes, e cada cartaz continha essa bela inscrição “… e depois nasceram papoilas!”

Durante a exposição, exibimos um documentário da BBC, que aconselho vivamente a assistirem (disponível online). E aquelas vozes desfilavam rosários: “Oh, que dias de terror! Tudo está em desordem! Houve destruição na cidade, na noite passada. As vítimas foram chacinadas no café Kaiserhof. Multidões em fúria (…) gritavam palavras que eu não ouso repetir.” – Diário de Hanna Hormann, Áustria.

A guerra é aquele lugar de Inferno. A guerra é a maior estupidez humana, porque dela advêm todos os males. A guerra é o que não queremos ver. Mas a professora de História repetia, para os alunos, na biblioteca: “temos que ver e temos que ouvir, para não repetirmos os erros do passado. É para isso que serve a escola, é por isso que estudamos o passado”.

E, de seguida, um aluno, de caracóis saindo para fora do bivaque que usava em representação de um soldado leu o poema:

“Os campos da Flandres

Nos campos da Flandres crescem papoilas

Entre as cruzes que, fila a fila,

Marcam o nosso lugar; e no céu

As cotovias, ainda corajosamente a cantar, voam

Escassas, fazendo-se ouvir entre as armas abaixo.

Nós somos os Mortos.

Há poucos dias atrás

Vivíamos, sentíamos o amanhecer, éramos amados; agora repousamos

Nos campos da Flandres.

Tomem a nossa guerra com o inimigo

A vós entregamos, das nossas mãos moribundas,

A tocha; que seja vossa, para que a mantenhais ao alto.

Se traírdes a nossa fé, dos que morremos,

Jamais dormiremos, ainda que cresçam papoilas

Nos campos da Flandres.”*

A papoila simboliza os soldados que perderam a sua vida em combate na Primeira Guerra Mundial – o sangue dos soldados – e é o símbolo de uma campanha de solidariedade que nasceu do poema de John McCrae (um médico do contingente canadiano estacionado na frente de batalha belga), escrito no campo de batalha em Maio de 1915, depois da morte de um dos seus amigos, o tenente Alexis Helmer, uma das vítimas da segunda batalha de Ipres. O poema foi publicado meses depois na revista inglesa Punch, sob o título “Os Campos da Flandres”, tendo alcançado rápida popularidade e aclamação unânime.

O Dia do Armistício é também conhecido por Dia da Lembrança, Dia da Memória, Dia da Papoila.

A escola iluminou-se com a sensibilidade e o saber, como se iluminou de energia e boa disposição o meu dia de hoje. E depois… “… e depois nasceram papoilas!”

*Poema de John McCrae, tradução livre [a partir do Inglês]

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