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Cultura, Literatura e Filosofia

O SISTEMA DE ENSINO PORTUGUÊS – OS PILARES

O sistema de ensino português,  no seu todo, enferma de falta de perspectiva, ancorado que se mantém em programas e métodos retrógrados, cujas matérias os curriculos espartilham. Os estudantes não adquirem a noção da harmonia dos saberes, a sua relação com o crescimento pessoal e a possibilidade efectiva da aplicação prática, de todos e de cada um, na vida quotidiana.  Além disso, encerrados na sala de aula, reféns de um conjunto de conhecimentos que lhes são apresentados já constituídos,  escassamente compreendem que podem participar na sua construção e que, por essa razão,  o conhecimento é radicalmente seu.
A propósito evoco um exemplo da minha própria escolaridade. Davam-me a fórmula resolvente para as equações de segundo grau  (em anexo) e um problema para resolver, aplicando-a. Eu, que sempre gostei de solucionar problemas ,  entusiasmava-me bastante com o “milagre” de resolver o “x” realizando as operações prescritas na fórmula.  De vez em quando questionava -me sobre a origem da fórmula;  contudo nunca me foi explicado, de modo exacto, como surgiu o processo de resolução das equações de segundo grau que a fórmula possibilitava. Muito mais tarde, e por conta própria,  quando a matemática já não fazia parte do elenco das minhas disciplinas de curso, investiguei o enigma e percebi-o.
Creio que, a certos níveis,  o sistema de ensino continua a oferecer as fórmulas,  quer em matemática,  quer noutras matérias,  impossibilitando a criança e o jovem de investigar, obtendo os seus próprios esquemas de resolução de problemas, integrando-os em si, comparando-os com outros, etc.
Este parece-me ser o ponto de partida para a alteração básica do sistema de ensino: a criança não é um robô a ser programado por professores e manuais, tornada apta a dar a resposta certa, no momento certo, feita autómato,  mas um ser vivo e actuante, pronto para descobrir o mundo (na natureza e na sociedade ) numa perspectiva criadora,  pela qual se constrói e constrói o seu próprio ambiente humano. O homem é produtor e produto da cultura e só nessa dialéctica deve ser levado a crescer, tornando-se pessoa.
Esta última proposta, também ela dialéctica – “tornar-se pessoa” – deverá ser o plano psicológico de fundo de todo o ensino. O indivíduo humano não nasce acabado é,  pelo contrário,  um ser incipiente e prematuro, carente de muitos cuidados até atingir a autonomia. A personalidade é uma construção permanente, e nela interagem factores fisiológicos,  psicológicos,  atitudes, valores, crenças,  todo um acervo considerável de condicionantes que, ao serem integrados criadoramente, deixam de ser “condicionantes “, potencialmente restritivas,  para engendrarem o ser humano, livre e actuante, a que chamamos, justamente, “pessoa”.
Estes dois factores – propiciar, pelo ensino, a dialéctica produto/produtor da cultura e a construção da pessoa – parecem-me dever ser os pilares de toda a educação.
Quando a criança acede à escola, numa idade, por natureza, aberta a todas as influências, e dotada de um organismo,  físico e psicológico, absolutamente permeável e propenso à descoberta, deve encontrar os mestres capazes de entenderem este seu estado, orientando-lhes a investigação de si e do mundo. Eles próprios,  os docentes, precisarão de ter ou de obter os instrumentos adequados a esta tarefa que, nas escolas de hoje, não são a regra geral. Logo, o professor, por mais conhecimentos que possa ter adquirido em licenciaturas,  mestrados ou doutoramentos, falhará o seu propósito se não for capaz de uma espécie de esvaziamento intelectual que lhe permita aceder à criança como seu igual e assim compreendê -la integralmente.  Não se trata, como é evidente,  de infantilizar a mente e aí permanecer, mas antes de efectuar uma escalada descendente, pela qual se acede a igualar o grau de imaturidade do jovem; e depois, subtilmente, trazê-lo consigo, degrau a degrau, pelos trilhos do crescimento. Deste modo,  cresce o jovem,  porque se dá conta da sua especificidade e do seu poder individual, ao mesmo tempo que é parte e acompanha o desenvolvimento dos seus pares, na necessária convivência e partilha;  e cresce também o docente porque,  uma e outra vez, é levado a escalar , re-escalando-as, as suas próprias etapas evolutivas.
Serão precisos novos professores? Novas especializações,  cursos ou acções de formação?  Não creio. As pessoas estão todas aí,  e prontas para desempenhar as tarefas que, verdadeiramente, farão deles professores. Talvez andem, de momento,  distraídas com lutas estéreis e esgotadas em trabalhos anquilosantes: é necessário que despertem, que os façam despertar.

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