Cultura, Literatura e Filosofia

ESTRELA D´ALVA

(Homenagem póstuma)

Clara, translúcida como a água fresca de um riacho, adoçaste no teu leito as bocas de todos aqueles que por amor te habitaram o peito.

E com o olhar sem sal, partiste em paz, para o céu negro onde todas as noites pouso a alma que adormece, agora, a teu lado.

Sem ti, o ar tornou-se denso, rarefeito e irrespirável, a primavera esmoreceu e os pássaros mudaram de melodia no dia em que a tua luz subiu ao céu.

E agora, como será o acordar nas manhãs de sol? Que sabor terá o pão torrado e a manteiga que não se derrete? Como poderei levantar-me se não consigo arrancar-me do colchão?
Como posso viver sem desviar os olhos que me prendem ao firmamento onde brilhas tão distante deste chão?

A tua história é diferente de todas as outras, mas terei de superar, de aprender que os desvelos não se apagam e que a memória nunca atraiçoa o que o coração não esquece.

Nada será igual, nada brilhará como antes, nada disto pode ser real.
Em tudo te vejo, em tudo te sinto, estás presente, em alma sem corpo, entrando pela porta, escancarando sorrisos sob a ombreira por onde todos os dias atravessaste amor verdadeiro.

Sinto-te nos pequenos nadas, numa saudade atroz que rasga tudo, mas sei que, de hoje em diante, o céu nunca mais será mudo.

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