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PIADAS COM 2000 ANOS, TESOUROS E VÍTIMAS DE ASSASSINATO ENCONTRADOS EM ANTIOCHIA AD CRAGUM

Processo de limpeza dos mosaicos encontrados em Antiochia as Cragum, Turquia.

Em época romana usar a casa de banho pública era uma maneira como tantas outras de socializar. Numa sala retangular, fileiras de bancos de pedra corriam de maneira a poder ver-se as pessoas que estivessem à volta; por baixo dos bancos uma corrente de água constante mantinha a limpeza do sítio, e ao lado, uma vara com (o que hoje chamaríamos esponja) seria o papel higiénico. Nesse processo biológico podias: negociar, conversar, ser convidado para jantares e ser entretido com mosaicos humorísticos.

Na antiga cidade de Antiochia ad Cragum (atual Turquia) uma equipa de arqueólogos descobriu as latrinas públicas e com elas dois mosaicos com piadas que provavelmente fez muita gente rir ou pelo menos sorrir há 2000 anos.

Estabelecida no séc. II d.C., a cidade de Antiochia ad Cragum aquando do seu auge pode ter atingido os 6000 habitantes e viria a ser abandonada por volta do séc. XI d.C. Durante os séculos seguintes, as isoladas ruínas romanas podem ter sido um bom lugar para esconder um tesouro ou um corpo, pelo menos, de acordo com outras evidências que os arqueólogos descobriram no local (este ano) e dos quais falarei mais à frente.

 As anedotas são inspiradas na mitologia greco-romana e parodiam os mitos de Ganímedes e Narciso, num humor curto, visual, obsceno e com trocadilhos que seria apreciado nestes espaços usados de passagem.

Mosaico onde é visível a paródia do mito de Ganímedes.

“Ficamos surpreendidos com o que estávamos a ver”, disse Michael Hoff, arqueólogo da Universidade de Nebraska-Lincoln e co-diretor do projeto. “Vocês têm que entender os mitos para torná-los realmente vivos, mas o humor das casas de banho públicas é universal como se pode ver.”

No primeiro mosaico temos Ganímedes, um belo adolescente troiano, que na mitologia é raptado por Zeus disfarçado de águia e o leva para o Olimpo fazendo dele o copeiro e amante dos deuses (o mito oferece assim um modelo para as relações entre homens e meninos adolescentes na Grécia antiga.) Ganímedes é frequentemente retratado como o deus do amor homossexual e na arte é geralmente retratado a rolar um aro com uma vara (demonstração da sua inocência segundo alguns especialistas) mas no mosaico, no entanto, Ganímedes é representado com uma vara com uma esponja na ponta, possivelmente, para poder limpar as latrinas. Enquanto isso, Zeus é retratado na cena não como uma águia mas como uma garça, sugando sugestivamente as partes íntimas de Ganímedes com seu longo bico.

Mosaico onde é visível a paródia do mito de Narciso.

No segundo mosaico (do qual só metade se preservou) Narciso que na mitologia se apaixona pelo seu próprio reflexo refletido nas águas de uma nascente e de tão concentrado que está no seu reflexo acaba por cair à água e afogar-se. Na piada, no entanto, Narciso é representado com um nariz muito comprido, que para os romanos era reconhecido como um sinal de feiura. Então, em vez de admirar o reflexo do seu rosto na água, ele observa o reflexo dos seus bem dotados genitais.

Não se sabe se esta casa de banho era especialmente impertinente ou se estes tipos de mosaicos eram um elemento comum dos espaços. O que sabemos de Pompeia e de outros locais é que os murais sexualmente sugestivos eram comuns em lugares como tabernas, bordéis e em algumas casas. Embora as latrinas públicas fossem comuns nas cidades e vilas da época romana, muito poucas sobreviveram. Toilets decorados com mosaicos são ainda mais incomuns.

Para além deste vislumbre sobre o humor na época romana, a equipa de arqueólogos também descobriu na câmara de outro edifício público, fora dos portões da cidade, mais de 3000 moedas de prata, datadas do início do século XVII, provenientes tanto da Europa como do Império Otomano.

“É bastante claro que as moedas foram propositadamente enterradas para mantê-las escondidas, com o intuito de recuperá-las mais tarde”, disse Hoff.

Claramente, o dono do tesouro não encontrou tempo ou oportunidade para recuperar as moedas. O isolamento do local parece ser perfeito para esconder coisas pois alguns metros abaixo do sítio onde as moedas foram recuperadas apareceu um esqueleto, que segundo o antropólogo físico, sofreu uma morte violenta o que leva os arqueólogos a suspeitar que terá sido vítima de assassinato, e o seu corpo abandonado no local.

Uma local cheio de esconderijos. Mas que mostra sobretudo que o humor (seja qual for o género humorístico) acompanhou o ser humano ao longo da história. Portanto, não se esqueçam de exercitar esses músculos rindo, sorrindo e gracejando.


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