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A GARAGEM

A forma mais fácil de explicar a relação quase automática que se faz de Bissau a um bom gin tónico passa muitas vezes pela jocosa explicação de necessitarmos de quinino da água tónica no organismo para combater a malária que algum mosquito mais atrevido possa trazer em si quando nos pica.

Também pode ajudar, sem dúvida. Até porque os repelentes nem sempre são suficientes para afastar os danados dos insetos que podem estragar o dia (e a noite) a qualquer um.

Mas é mais que isso. Há de facto um lugar muito especial na cidade de Bissau que desarma até os mais renitentes a provar aquela bebida incolor e de travo amargo. Chama-se “Garagem”.

Nem mais nem menos. Trata-se de uma garagem, daquelas feitas em gradeamento de ferro, ligada a uma casa de esquina de dois andares e ao quintal, onde em vez do carro, existem umas três mesas, encostadas a cada um dos lados, cada uma com duas cadeiras. Ao fundo da garagem, uma mesa com a taça das limas, a garrafa de gin ladeada de outras bebidas já com o doseador, o balde do gelo e os copos. E no pátio, onde se estende a roupa e lava a loiça, mais umas mesas guardadas por uns dois ou três gatinhos que dormem pachorrentos na sombra do mangueiro da casa.

Entrei ali pela primeira vez já lá vão uns bons anos com a promessa de beber o melhor gin do mundo. E bebi, não tenham dúvidas! Ainda hoje bebo, sempre que posso.

O Tony, dono da casa, prepara o Gin Tónico com uma concentração e um preciosismo como se estivesse a tratar com algo de sagrado. O copo repleto de gordos cubos de gelo é regado com o sumo da lima (o limão da Guiné-Bissau) e bem envolvido por este antes de receber o Gin. Sempre Gordon’s, que ali não há espaço para gostos refinados, pretensiosismos nem grandes floreados à volta do Gin Tónico. A tónica já é servida na mesa também pela mão do Tony e a partir daí é uma viagem dos sentidos pelo prazer desta bebida.

A “Garagem” é local de romaria dos apreciadores de uma boa bebida, mas é, sobretudo, local de poiso certo de um conjunto de figuras da sociedade guineense. Ministros, Secretários de Estado, militares, parlamentares, jornalistas, arquitetos, empresários, funcionários de organizações internacionais ali estabelecidas ou gente como nós. Simples forasteiros que conhecem este cantinho do céu. Ali as cadeiras têm dono e, salvo algum cliente mais novato ou distraído, todos sabem o lugar que cada um ocupa no “tabuleiro” da casa. Começam a chegar ao final da manhã e, por ali passam ou vão ficando até depois do cair da noite. Ali fala-se e trata-se de tudo. Negócios, assuntos da política local, assuntos privados, criam-se factos e fazem-se tréguas. Pouco ou nada sai de lá por resolver. Mas também quase nada sai de lá para fora. O que acontece ou se fala na “Garagem”, fica na “Garagem”. A oralidade e a capacidade argumentativa de cada um dos clientes é testada ao máximo nas longas horas que por ali se passam. O tom por vezes sobe e pode assustar os mais desprevenidos, mas quase sempre acaba em bem.

A Maria, uma velha senhora que mora ainda a uns bons quilómetros de Bissau vagueia por ali todos os dias com os seus alguidares cheios de frutas e legumes da época à cabeça para vender aos clientes da casa ou a quem por lá passa. Transporta quilos e quilos na cabeça, sempre com um sorriso na cara e uma resposta pronta a quem a provoca, desdenhando da qualidade dos seus produtos, pela pura vontade de a ver picada e a responder à letra. Por vezes bebe uma cervejinha que alguém lhe paga ou leva-a embrulhada nos panos que lhe envolvem a cintura antes de partir, já de noite, de regresso a casa num “toca-toca” que vai apanhar ainda longe com o que não conseguiu vender.

Também meninas passam durante o dia com mancarra (amendoim) numa cestinha na cabeça que vendem em medidas de copinho espalhada na mesa. Na cozinha existente mesmo ao lado preparam-se petiscos típicos quando um motivo especial o dita e que deliciam qualquer um dos clientes. Há canja, rissóis ou pasteis de peixe, cafriela ou peixe e, por vezes, até torresmos vindos da vizinha da frente que mata o porco para venda da carne e frita ali uns deliciosos nacos da gordura do porco para consumo de quem passa e compra.

Em dia de aniversário de algum dos frequentadores da “Garagem”, há na certa bar aberto pago pelo aniversariante aos outros “habitués”. Umas garrafas previamente contratadas ao Tony ficam ali à disposição de quem vai passando ao longo do dia para refrescar o corpo e sobretudo a alma com uma bebida.

O Tony é cabo-verdiano, assim como a mulher, o irmão e a cunhada, a equipa que nos acolhe naquele espaço. Ao fim-de-semana as colunas de som são ligadas e as mornas de Cabo verde enchem o espaço e a rua. Dança-se e fala-se mais alto. O ambiente é de festa. As mesas saem para o passeio quando está bom tempo e a festa é rija. Quando há futebol, sobretudo jogos do Benfica, a casa ainda está mais cheia e vive-se e sofre-se o jogo como se estivessem na Luz.

Por ali a porta está sempre aberta e o Tony sempre pronto para nos servir. Excecionalmente encosta o portão em ferro para ir na sua moto-quatro levar a filha mais nova à escola, mas é questão de esperar um bocadinho que ele não tarda a chegar.

O segredo do melhor gin do mundo? Francamente não sei explicar… dizem uns que será pelo gelo, feito de água Penacova. Eu acho que o segredo está nas mãos do Tony Cabriano. E a verdade é que não passo sem lá ir quando estou por Bissau. Para beber o melhor “Gin-Tony-co” que já provei. E que sabe pela vida.


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