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“VÔZITO QUIDO” OU “PICA DO 7”

Sempre que tenho um bocadinho, gosto de passear em Lisboa, cidade onde cresci e onde trabalho. Tenho a sorte de trabalhar à beira-rio, em Alcântara, e de facilmente chegar à Baixa. Acerco-me da paragem da Carris, que fujo sempre de levar o carro para o centro, e espero pelo transporte. Olho ao fundo da extensa Av. 24 de Julho, que tem um corredor específico para transportes públicos, e se o tempo o permite, se não houver pressa, deixo passar os autocarros, simples ou de lagarta, e dou prioridade aos eléctricos, sobretudo ao velhinho e pequeno amarelinho.

Há um inegável charme no eléctrico. Mal subo nele, às vezes ainda apenas o avistei ao longe, e já me sinto a viajar. Não é só uma viagem em distâncias, é uma viagem no tempo. Imagino facilmente mulheres e homens bem compostos, do início do século passado, em direcção ao Chiado, e atento nos odores do metal, passo a mão pelos ferros a descolorar entre o dourado e o prateado, abro a janela de madeira que se sobrepõe na parte superior. E saboreio a viagem, quer vá sentada naqueles bancos de pele, cujas costas em tempos eram bi-direccionais, ou em pé, equilibrando os saltos no chão de metal listado. Quando possível, fico perto do condutor, a olhar extasiada a forma como usa o leme de bordo ou como aplica as mudanças com aqueles sons pujantes e metálicos a lembrar o código morse. Regresso ao passado, em versão charme.

Tenho uma ligação muito sentimental com os eléctricos. Curiosamente, o meu filho também. Quando tinha 6 anos, levei-o ao Museu da Carris, no Calvário, e ainda não tínhamos saído de lá, já me fizera prometer que voltaríamos. O meu avô, nascido em 1920, foi guarda-freio. Se mais não explicasse esta paixão, seria isto. Eu já não conheci o meu avô a trabalhar, dado que, por razões de saúde se reformou, por invalidez, aos 50 e poucos anos. Mas talvez por isso, por já se encontrar em casa, pude beneficiar mais da companhia dele. Contava-me que, no início, os eléctricos eram abertos dos lados, e só depois se foram completando. Falava da cadeira do vendedor de bilhetes e do homem que alinhava os cabos eléctricos na mudança de direcção. Era um óptimo contador de histórias, assim como, nos dias em que eu adoecia e ficava de cama, era um óptimo dj, designação que ambos desconhecíamos nesse tempo. Ele vinha com o gira-discos para a minha beira, e tocava intermináveis músicas infantis. Recordo um disco do Pedro Couceiro “Eu já namoro”…sim, o dos automóveis, e pergunto-me se mais alguém se lembra disso…

E de música em música, lembro-me do “Pica do 7”, que adoro. Gostaria de dizer ao Zambujo e ao Miguel Araújo que essa música poderia muito bem ter sido inspirada no meu avô. Se eles tivessem conhecido o meu avô, acredito que teria sido inspirada nele. Assim não sendo, tomo-a como minha, como sua descendente, e saboreio-a, divertida, a imaginar a cena. Os seus olhos azuis, os seus belíssimos e meigos olhos azuis, deverão ter causado grandes arritmias nas senhoras da cidade.

Não tardará muito, aparecerão os elétricos conduzidos pelo Pai Natal, num claro desafio ao entendimento da ubiquidade, já que ainda agora passou no sentido oposto. Quanto a mim, não procuro o Pai Natal. Ainda assim, não deixo de pensar naquela cabeça que se há-de virar para a porta de entrada, após se certificar pelo espelho retrovisor que já saíram todos pela porta de acordeão traseira. Sabendo da impossibilidade, não deixo de imaginar que ele me olha, com os seus olhos azuis, e que me diz como sempre o fazia, na sua preocupação extrema com a pontualidade:

-Bom dia, Jóia. Vamos lá a subir, para não chegarmos atrasados.


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