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Cultura, Literatura e Filosofia

ACOLHER COMPROMETIDOS COM A ESPERANÇA

Num final de dia em junho de 2007, uma mulher idosa abraçou-se a mim, no meio da rua, completamente dominada pelo medo e pelas lágrimas. No ar havia todos os sinais de uma guerra civil. Muitos haviam fugido horas antes. Na aldeia ficaram homens, para defender as casas, e velhos que não tinham mais pernas para correr. O desespero em cada músculo da Dª Francisca, que se contorcia em espasmos de angústia enquanto soltava gemidos no dialeto local, era fundado num passado de luta, torturas e morte mas não na realidade presente. Alguns tiros de gás lacrimogéneo foram suficientes para acalmar a situação e em breve os gritos deram lugar ao silêncio, o desespero à calma, a angústia à esperança de uma noite calma, uma noite calma a um novo dia de paz.

Há muitos sinais de violência e sofrimento nos dias de hoje que nos levam ao desespero e a reduzir os horizontes da nossa esperança. Tudo parece mau. Mas nem tudo é mau! Temos de nos animar e levantar bem a cabeça (Cf. Lc 21,28) para vermos os horizontes além do nosso horizonte, para abraçarmos a esperança além do medo.

Muitos cristãos procuram nos astros, nos signos, nas cartas, nas energias e outros “gases” poluentes do espírito o que querem ouvir para um embebedamento ensimesmado do coração no imediato: vais ter sorte no amor, vais ganhar muito dinheiro, é fulana ou sicrana que te está a fazer mal, que te lançou um mau olhado, tens de te livrar dessas energias negativas, etc. A esperança cristã não faz promessas gasosas; a esperança cristã é encarnada. Deus faz-se Homem para nos conduzir a uma verdadeira humanidade e, no cultivo da nossa liberdade, nos reconduzir a Ele.

É isso que celebramos no tempo do Advento que hoje começamos. A espera do esperado, do Messias, desse rebento de justiça (Cf. Jer 33,15). Não são energias! Mas antes a espera de uma pessoa, que é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que tem um rosto, chama-se Emanuel, que é Deus-connosco e que nos compromete na construção de um mundo mais justo.

Por isso nós cristãos temos necessariamente de nos erguer e levantar a cabeça / para ver Jesus que vem, / para ver o mundo com olhos de ver, / para discernir o que Deus nos chama a ser neste mundo, / para ver longe, para lá do horizonte do nosso umbigo, / para lá do desespero e da angústia, / para ver e ajudar os outros a verem essa Luz ao fundo do túnel.

O Advento não é uma espera passiva, de adormecimento, de uma religião de frases feitas, quentes e boas como as castanhas no outono. O Advento é uma espera ativa, fazendo o bem, vigiando e orando, e sobretudo acolhendo com todas as nossas forças o desafio de São Paulo à comunidade de Tessalónica: «deveis progredir ainda mais». (1 Tes 4,1). O Advento é, então, crescer, progredir em ordem a podermos acolher com verdadeira liberdade Aquele que se torna razão da nossa Esperança. Quem acha que sabe tudo, que tem respostas para tudo, que não precisa de crescer, pode ter mil presépios em casa mas nunca conseguirá acolher o Menino Jesus, Deus da Esperança, na sua vida.

Erguei-vos e levantai a cabeça, mexei-vos, fazei o bem, transformai o mundo à vossa volta! A vossa libertação está próxima!


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