Cultura, Literatura e Filosofia

FILHA DA FUGA

Há dias maus que se repetem nos intrincados labirintos, desnorteando os olhos daqueles que não encontram a saída. A coragem não se bebe de um copo vazio de boas memórias nem se resgatam alegrias em olhares de crianças felizes que nunca existiram.

São demasiados os incapazes de olharem o futuro, apagando, no gesto de um adeus, os passados sombrios que se perpetuam em presentes ausentes de si mesmos.

E aquela miúda, que nunca o foi, repousará amanhã o seu corpo no colo de granito gelado, lugar onde os medos se desvanecem e as dores da alma se esquecem.

Mas só amanhã. Por hoje, por agora, tudo fica fechado naquele quarto impoluto onde se deitou, embalada pelos químicos que percorreram o sangue até que o sono eterno a encontrou, repousando em si uma vontade perene.
Podia ter recorrido à pólvora quente, estridente e acre que perfura a dor ou à corda alada que balouça na árvore solitária, albergando ninhos de desespero.
Na verdade, o que importa o como foi?

A quem fica, restará recordar os dias em que ela viveu e a data em que partiu, mesmo que não entendam os “porquês” ou o “por quem” na dúvida cimentada sobre a agonia cancerígena da impotência.

O que sobra para contar é que ela decidiu colocar um fim aos dias maus, pontuando, na finitude de um parágrafo, o futuro repleto de interrogações que, na gramática da dor profunda, entendeu como retóricas.

Alguns chamar-lhe-ão cobardia, outros exultarão a sua coragem, e outros ainda tratá-la-ão como um número frio da estatística que compõe a prática suicida.

Eu, que não faço julgamentos nem juízos de valor, direi apenas que foi uma habitante dos dias sem amor, uma eterna filha da fuga ou, se preferirem, uma solitária transeunte na cidade da chuva!


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