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Cultura, Literatura e Filosofia

A ALDEIA QUE EM MIM HABITA SOLDO DÉCIMO OITAVO

Emoções dispostas como parida ninhada, focinho em busca, onde só a ternura acalenta.
Agustina, menina-do-tempo, paleta outonal aprofundando presença na aldeia, em mesa de pedra, em convidativo quintal, escutava, atentamente, aldeão coro, que se manifestava por musical pentagrama, sonorizando o que natalícia alma ensurdecer fazia, em ricochete, em paredes suas.
Dizia que adulta nascido tinha. Mas siamesa criança não conseguira de materno ventre desligar. Como que a natural ordem das coisas, meninice traquina, sorriso antecipado, rasteira passar quisesse.
Só assim detentora de um tempo que mesclava no vincado olhar, que despertava as almas e as gentes que a rodeavam e que, torrencialmente, sem qualquer tipo de receio de seguinte palavra, desenhava nas vazias páginas que dela se socorriam para densidade e corpo adicionarem à sua natureza.
Domável em nada quando se confrontava com a nudez da página, régua e esquadro em mesa consentidos não, derramando o que absorvera nos livros que antecedera maiúscula primeira.
Bonitos lugares que lutam por espaço nas memórias criadas, vezes muitas suturadas, urgências várias. Lugares que encolhem como primárias escolas que nos atribuem peso maior, mas o mesmo, se fiéis a primordiais princípios e valores.
Árvores, páginas outras, que folhas, caracteres também, lidas por leitor nem sempre assíduo, mas estimulado pelo decalque de suas letras no chão que corpo rasava. O desprender talvez do virar de mais uma das páginas de uma humanidade que se demite de seu coletivo labor, sendo que neste espaço de tempo, propícia poderá ser a lucidez que até então de cegueira, joelhos no solo, sobrevivia como manto de uma pele gasta de apatia.
É na leveza do seu estar, onde a liberdade no pensar e no agir se manifestam na candura do seu sorriso, como que pueril, espontâneo, ou um toque de mão na boca onde gargalhando, aferimos a autora da brincadeira, que concluímos que Agustina é mais do que o seu Douro. Talvez ela o próprio Douro, toda uma região-pessoa que desagua nas bacias que todos representamos, esquiva impossível desta aldeia de em seu leito receber a torrencialidade do seu pensamento que em folhas decalcado é, despoletado pela cavernosa observação, cuidada, do limbo que nos diferencia.
Se escutarmos o rasgar do silêncio que até então se fazia sentir, verificamos o arredondar da disponibilidade para a procura de elementos que no espaço vagueiam, sem partitura onde passo seguinte ler um fado que não se esconde, esperando rasteira pelo autor promulgada. Dizem que se aproxima lentamente e bajulado quer ser, quando, supostamente, o livre arbítrio peca, a confessionário nunca recorrer.
O mesmo se passa com amarantina escritora, que se dimensiona na aldeia que temos visitado, sem questionar o porquê. Perante beleza esta, desnecessário o interrogar. Apenas o estar sintetiza, sem ornamentos, o percorrer de cultural e humano tecido, sem o tempo abreviar.
Viúva da felicidade jamais, labora a sua demanda pela descrição dos espaços e das gentes, aprofundando a certeza do desconhecimento de humana alma. A anatomia da crueldade das suas criações terá, certamente, integrante parte do que este povo representa e o duro vinco selado no decorrer dos dias que por aqui vão anoitecendo.
Recorreremos aos dias que Agustina tem partilhado nesta aldeia, mas em pezinhos-de-lã, não vá senhora esta das palavras a nossa presença notar e doença nos atribuir, personagem em livro plasmar, agora sim, um fado atribuir.
Poderia optar pela exaustão de uma descrição, profícua, mas acreditemos que esta leitora de homens e mulheres um dia captará em personagens suas o que tem vivido em acolhedora comunidade. Apesar de distantes, ao tempo presente poderíamos chamar femininas personagens, poucas não o são, obra que se faz vida, no interesse pelo inacabado, convidando-as a sentar em mesas do café da aldeia, no desprender de orações que se complementam com a afiada conjugação do verbo sentir.
Sem o sabermos, e sem livros folhearmos, a Sibila, a Ema, a Fanny, máscaras de ferro a chão deitadas, na recusa da desigualdade, rubor algum que as intimide, pelas veias da aldeia vagueiam, pertencendo a este, também, herói coletivo agustiniano. Propriedades para tal não lhe faltam, distribuído pelas pessoas que corpo dimensão lhe confere.
Tempo tarde que se fazia a levaram para uma divisão da casa, que não se distanciava muito do habitado em lar seu. Vezes várias aqui vinha para apreciar a companhia de quem estimava, sabendo que não careceria de atributos para o que andava a idealizar para a continuidade da sua obra. Recolhia, no simples processo de partilha de emoções e sentimentos, o que transparecia, sem filtro algum, guarda levantada sempre, das estórias, pontuadas com gestos, que lhes davam sério toque.
Optava pelo confortável sofá, escuro, pequeno o candeeiro de adormecidas tonalidades, não se pense que sepulcrais. O cansaço não lhe era evidente, tamanha a força que encontrava na mão, que por vezes, em folha repousada, no seu sol-a-sol trabalhando, se centrava no deixar de pontas soltas para os já certos curiosos navegarem e rumo pensarem certo desde página primeira.
Seria uma demanda aos confins do humano comportamento e as relações dos poderes que em muito menosprezam o Outro. Não que a sua genialidade pretenda defender tamanha arrogância dos homens perante semelhante seu, pois se tal não se verifica, é precisamente nesta comunidade que se prepara para a entrada nos sonhos que, diariamente, lutam para que concretização inválida não seja. Agustina apenas nos apresenta quem nos acompanhará nos próximos dias. Caberá a cada um de nós permitir a realidade, retirando a possibilidade que a precedia.
Espaço houve, manhã sentida, para conversas que dimensão davam aos contares. Não descurava pormenor algum, sabendo-os fundamentais para futuro conhecimento dos emoldurados retratos captados com o olhar e eternizados nas bordadas palavras com a singular caligrafia que apaixonaria toda uma aldeia pela dedicação à sua causa. Viver.
Nesse fixar, e ao ler o sentimos, os cheiros, famélicos não eram. A suavidade com que permitia que habitassem a página, quase sem conta dar, era de tal magnitude que nada os poderia retirar do estatuto de pertença ao imaginário coletivo.
Tornava cada habitante da aldeia como ruga sua, coração destemido, desobediente, às minudências da existência. Batimento emotivo que permeava o brotar de emoções que estatura atribuía aos comungados momentos.
Esta menina não se intimida com o peso das palavras que eterniza, transparência da lealdade que os aldeões aplicam no compromisso com os seus. Ternos guerreiros, homens e mulheres, inseparáveis de uma cidadania cultural, incuráveis perante os contágios que se querem no tempo cristalizados. Falo-vos como que colocada mão na dela, certo de que a minúcia e a veemência com que descreveria a beleza destes humanistas, textura daria à demanda por um mundo mais fraterno e solidário.
Ancorava a sua atenção na roda criada, em largo maior da aldeia, pelas crianças que sorriam, laborando a amizade que, sem o saberem, seria o seu fiel de vida, motivo para a seu berço voltar, sempre que dúbio o pensar. A camaradagem, digna de salgado marujo, vislumbrava-se naquele hipocentro emocional de dedicada plenitude do sentir, plágio possível não. Talvez heroicidade perante a incógnita de uma vida que apenas passos primeiros dava, mas com um propósito, mesmo que latente, e de coragem sem possível atenuar.
A alegria do mundo saberia ali ver todos os seus estágios de desenvolvimento, sem largada mão, pois crianças estas não se demitiam do seu progenitor papel.
As relações que tecidas eram, desde tenra idade, menosprezavam nada a igualdade perante o Outro. Meninas que mulheres seriam, já o sendo, mesmo ante o princípio da incerteza, sabiam que o respeito disseminado era por cada recôndito espaço da aldeia, parte sendo do agir, encarquilhado não, dos autóctones.
No desconstruído estar, a nossa escritora deparava-se com novel coletivo, querendo-o seu, atestando outra forma de presenciar a força da mulher perante as relações de poderes, ensarilhando, muitas vezes, a comunidade em que se insere.
Sua centrípeta força, motivo era do repensar de uma sociedade que do moderar carecia, aquando da decisão do caminho a seguir pela guarnição que a bordo tinha subido. Ao descrever a força que emanava do comportamento destas mulheres, Agustina firmava seus dedos, abraçando azul caneta, com a mesma força, deixando que aqueles se emocionassem com o por si imaginado. Beleza inerente assim que vulnerabilidade somada ao seu pensar e ao decidir do que em folha desenhar.
Lido, e passível de aqui decalcar, a sinceridade gesticulava, mesmo que a seu parido coletivo doesse. Que parturiente amálgama deixaria no nascimento de obra que ao mundo apresentada seria, desprendida de títulos de maior que de sobremaneira a colocassem num patamar alcoolizado de indiferença e injustiça?
Facilitado o caminho não seria, nem pela mão de Agustina, como pelas dissonâncias e segmentação de humana existência. Era sabido, assim como a certeza de não descurar a importância dos outros na vida de cada um. E só no respeito por esses, a bom porto se poderia chegar e pertencer ao âmago da comunidade que lhes era querida.
Se pelo fracasso e falhas dos homens, nos seus livros, a mulher se destacava, na aldeia que recebe o seu descanso, não tardio, lúcido se apresenta um coletivo herói que labora, afincadamente, nos solavancos do habitar, ciúmes nenhuns, atribuindo horizontal plano, uniformizando os papéis que representam no grupo, num imiscuir que a pluralidade acolhe. Consuetudinário se sentia, sendo isso motivo de não desprezo pelo que gerações alimentavam em social tecido.
Assim como com esta amarantina acontecia, por detrás de uma grande mulher, coabitava um grande homem. Talvez seja por aqui que deveríamos ter iniciado o nosso discorrer de palavras e pensamentos, garantindo a igualdade em populares ditos. Talvez só essa conclusão chegasse para o que aqui vamos observando. Mas isso não satisfaria Agustina. Eis-nos perante ponto acrescentado às estórias que nos confortam em mesa de café, como este da aldeia em que alguém, sabendo da sua presença, apela ao aprofundar do conhecimento dos grandes prosadores da História da Literatura.
No deambular diário, vários são as pessoas que com ela partilham o dia, as peripécias que lhe roubam o caraterístico sorriso, como que querendo ter sido ela a autora dessa brincadeira, para o prolongamento do seu rasgado gargalhar.
Alimentava-se da humana imprevisibilidade, nunca cética em relação ao poder que lhe era inerente, reconhecido, praticado. No momento da criação das suas personagens, não preteria este povo que a acolhia, a singularidade de cada um que enternecidamente a abraçava e a temia, quando de caneta em riste, não vá a doença a si pontapear. Resistente quando recetora de depreciativo olhar, do calcar, quando firme voz impor ideia sua quer.
Agustina, escrevendo-nos, não disfarçava a dor. Assim como a saudade que a alagaria quando um até breve a esta aldeia atribuísse. O seu olhar traduzia a imposição de sintomática doença, para nesta procurar a cura para o que a rodeia. O cheiro da saudade persistiria em colheres de maior barriga. Inquestionável. Como padecido mal, recortado, também, em personagem sua. Talvez agustiniano heterónimo defensor de uma saudade que se aprende.
Contaria com a força destas mulheres, onde amizade e sinceridade estanques não eram. A sua forma de estar, era a destas mulheres, que as mangas arregaçavam e por aquela comunidade que integravam o bem faziam. Assim se assumia Agustina perante o rico leque de personagens-nós, jamais as pazes fazendo com os de então, que agora crescidos, perante o folhear das páginas, vivem. Nela se concentrará cada ínfimo e cirúrgico pormenor deste povo.
Personagens que ondas são, enrolando emoções em zona de rebentação, Agustina, que se leia, e chegam para reatar conversa de página última deixada, num eterno elogio ao inacabado da sua obra. A compreensão disto, que é o ser-se humano.
Esta menina, que não se esconde no crescida, um dia olhará para labuta sua com um sentimento de terminada, mesmo que o seu ímpeto para branca folha lhe sussurre que truncada se encontre.
E nós lhe agradeceremos. Lendo. Lendo-nos, afinal. Com a certeza de que muito nos deu.
Nesta aldeia-heterónimo de Agustina, ou ortónimo seu, tamanha a tenacidade que emana do que cria, mundos fechados, outrora, agora se abrem e lhes pertence, percorrendo corredores que trespassam as entranhas  destes construtores de homens e mulheres, percorrendo-os, astutamente, sem abdicar da contemplação do lugar a quem alma é conferida pela presença dos seus, garantindo humana substância ao que árido não se quer.
No armar do cão, apesar de não abdicar da sua austeridade para com o que descreve, o descontrolo da sua ficção, não lhe permite ser da História. E, por certo, não o pretende. Sentada à mesa de quem a porta lhe deixará encostada para visita outra, olha para dentro de cada um que a rodeia, almoço primeiro aconchegando novo dia que agora desperta, e certeza temos que cousa pouca o não é, tem que se lhe diga, isto de nos abeiraremos e pragmática propensão a peregrinar, combativamente, por residentes memórias, ladras não do real.
Questionemos a distância que nos une, no mundo onde sibilas proliferam, sem passagem dar à esperança, mesmo que imberbe, antes do degelo que, não se desejando, poderá diluir a singularidade de aldeias como esta. Mas força muita precisa seria para que tal se confirmasse. Este povo não permitirá tamanho interregno, e Agustina suasória será no encadear dos seus diálogos, confrontando pródigas pessoas com o poder que cada um detém. O resto será com elas. A páginas tantas saberemos o que com o seu esboçar fizeram.
Sentada ficará, sorrindo, como farol-conselheiro. Rasando, com suas mãos, até ao desaparecimento, o rasto que estas embarcações promovem no mar que os sustenta, guia, entrada e saída à barra para um incógnito porto, truncado deixado, como desenhadas linhas com todas as possíveis estórias de uma aldeia que por si decidirá comum objetivo, perpetuando a sua essência, absorvida, em muito, desde que por si sentida.
Uns apregoam que o mundo pequeno é, pela facilidade do encontro, demitindo a distância da sua função. Talvez pequenos sejam, sim, os livros. Toda uma aldeia, um livro de Agustina, onde suas linhas definem os andares-lares avizinhando-se em páginas que, folheadas, perfumam o nosso imaginário, sabendo-o real, próximo.
À hora que vos falo já Agustina espraia o seu pensamento pelas ruas da aldeia. Persegue o brilhante despontar que assegura a continuidade da sua caminhada. Repousando num pequeno degrau de uma das casas, aconchega no seu colo um gato, seu próximo já, e delicia-se com o seu ronronar, como que lhe segredando que ali deverá permanecer. Até ela, por ela passando, toda uma densidade emocional. Gente que lhe furtará um sorriso, uma lágrima, mesmo que as esconda nas entrelinhas que, ora olvidou, ora povoam, ainda o seu pensar, num arquivo precioso de condição humana etiquetado.
Não lhe direi para a berço, ou a Douro outro voltar. Ficará onde se sentir próxima o suficiente para a partilha do seu maior legado. A compreensão dos homens e das mulheres que nela habitam.
Mais, contar não posso. Talvez, tempo outro, amanhecido, em páginas visitaremos este povo, esta aldeia, pelas meticulosas palavras, encrespado mar, da escritora. Ou, quiçá, um pouco por cada livro seu, já caminhem, respirem, ansiando atenção nossa. O cuidado para com o Outro.
Muda voz essa que às palavras os dedos conferem, revestindo-se de aforismos que em safra colheremos para traduzir a nossa existência, num lugar que não se assemelha a um deserto. Dele não se amamenta. De pessoas e de afetos povoado é.
Agustina sabe-o. Por isso, severamente, êxodo algum permite deste advento que lhe sussurra um ímpio e oblíquo mundo.

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