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UMA CASA EM BISSAU A QUE CHAMARAM COIMBRA

Apesar de dizer (e sentir) muitas vezes que a minha casa é a minha mala de viagem, confesso que por vezes sabe bem pousá-la por uns dias e ficar onde me sinto bem. Acontece-me em alguns sítios e ainda bem. Onde não acontece, basta olhar para a mala,  recolher os tarecos e partir sem amarras para melhores ventos que nos acolham.

Em Bissau existe um daqueles cantinhos a que me dá um especial prazer voltar e onde me sinto como se sempre ali tivesse pertencido. É o Hotel Coimbra, um verdadeiro hotel de charme, plantado mesmo ao lado da Sé Catedral, pincelado com aquele rosa pombalino que me lembra as minhas raizes, já que cresci quase paredes meias com a Quinta da Gramela, onde viveu o Marquês de Pombal e que guarda a traça e as cores que marcaram a sua época. Entrei lá pela primeira vez pela mão de um colega dos tempos de Direito em Coimbra que me recomendou o hotel de uns familiares próximos. Uns antigos armazéns tranformados em quartos, suites, sala de jantar, ginásio, um bonito jardim suspenso e sobretudo uma maravilhosa biblioteca que convive, paredes meias com os hóspedes que ali vivem e convivem num ambiente quase familiar.

No hotel Coimbra  passa gente de todas as proveniências. O historiador de renome internacional que se desloca ao país para pesquisas ou palestras, o consultor de uma Organização internacional que aqui vem em trabalho, um repórter em busca de estórias e de furos jornalísticos, políticos, intelectuais, actores, músicos, nesta casa podemos encontrar de tudo.

E invariavelmente ali está a família Nunes, discreta, quase transparente, a recebê-los na retaguarda de empregados profissionais e simpáticos, sempre prontos a resolver, sempre disponíveis para um sorriso, uma palavra simpática ou para uma ajuda, por insignificante que seja. Os funcionários são também eles uma extensão da família a quem chega sempre uma ajuda para o familiar doente, ao filho a precisar de apoio para continuar os estudos ou um complemento para acorrer a uma emergência. Conheço-os desde o primeiro dia em que lá entrei, são sempre os mesmos, já lá vão uns anos.

E os livros? Que prazer dormir numa casa rodeada de livros por corredores e paredes sem fim. À noite, são cuidadosamente cobertos com um pano branco para os proteger do teimoso pó que se levanta em excesso em Bissau e de dia, voltam a ser limpos e expostos na livraria no rés-do-chão do hotel para venda a preço simbólico. O fundo documental é imenso: livros de autores guineenses, livros técnicos, romances, livros infantis e tantos outros que enchem o olho a qualquer apreciador da leitura. Ainda mais num país onde um livro é um luxo ao dispor de muito poucos.

Nos quartos, fotografias e telas inspiradas no país, não nos deixam esquecer onde estamos, como acontece em muitos hóteis de linhas e decoração estilizada que com toda a probabilidade pode ser igual em Bissau, em Nova Iorque, Bruxelas ou Istambul.

Aqui, no hotel Coimbra respira-se Guiné-Bissau e sobretudo um ar familiar. Por isso a minha mala se demora por ali, sempre com pouca vontade de se fechar e voltar a partir.


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