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CEM ANOS DE SOLIDÃO E UM DIA DE NATAL

(o meu conto de Natal de 2018)

À semelhança de anos anteriores, em Dezembro, deixo, neste espaço, um cheirinho do meu conto de Natal. Este é o meu sétimo conto de Natal, pois que escrevo um todos os anos, consecutivamente desde 2012, com a Editora Lugar da Palavra.

Este ano, fortemente influenciada pela viagem que realizei à Colômbia, o conto tem lá a sua acção central – lá na Colômbia, na lendária aldeia de Macondo. Aqui fica, então, um excerto:

«Gabriel García Márquez chega numa tarde quente de dezembro, véspera de Natal. As velas do “Alumbrado” iluminam a casa dos Buendía e seguem pelas ruas, rodeando todas as cem casas, como uma serpente enfeitiçada de fogo. Um vento morno, como uma voz ciciada, abafa Macondo numa vasta lentidão, um início de vento como “por uma antecipação do vento profético que anos depois haveria de apagar Macondo da face da terra”.

GABO Abeira-se da casa e, num gesto de cortesia, é convidado a sentar-se junto do velho castanheiro. O cigano Melquíades faz-lhe companhia. As folhas ciciam pequenas rezas e orações natalícias, acompanham o desfile da gente que passa a fazer a novena de Natal, em vozes: Ven ven ven! A nuestras almas Jesús ven ven! No tardes tanto, nooo tardes tanto! Jesús ven ven!

Melquíades tem um ar gasto e cansado, o rosto marcado por mapas, linhas traçadas e buracos negros. Cem vezes tinha morrido, e ali está novamente, sentado, com os joelhos pontiagudos e os pergaminhos nas mãos. Termina os trabalhos de escrita e relata-os ao amado escritor. Gabo escuta, consternado, o ditado do que haveriam de ser os destinos de Macondo e da família Buendía.

[…]

É noite de Natal. Vamos a isto, para que me liberte da história que me aprisiona – García Márquez escutou o final com grande atenção:

Os pergaminhos de Melquíades seriam decifrados por Aureliano Babilónia, pai do último Buendía à face da terra. Aquela seria a última florescência da árvore familiar, “como se estivesse a ver-se num espelho falado”.

O outrora lugar feliz onde ninguém morria era agora um povoado decadente e envelhecido, caminhando para a extinção, perturbação e desnorte: “Então começou o vento, morno, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às notalgias”. No final, tudo se finda entre uma variedade de lacraus e borboletas amarelas, num “pavoroso remoinho de pó e escombros”. Até ser só isto:

Essa Macondo, essa que já não é mais – varrida de vento e pó – porque “estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no momento em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que neles estava escrito era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra”.

Gabo respirou fundo. Nada mais poderia fazer. Os ventos proféticos falaram. A história escreveu-se. É a noite de Natal, e o Natal rebrilha sempre como um eterno retorno, noite de sonho. Sem solidão. Cartagena brilha à luz das velas do “Alumbrado” e das muralhas douradas, o mar ao fundo é todo negritude, apenas revisitado por Francis Drake e uma turba de piratas.

Gabo está em paz, a beber um copo de rum e a comer uma arepa de coco, doce e branquinha, tão branquinha como a neve que, nos tempos antigos, cobria os terrenos em volta do que haveria de ser – e mais tarde deixar de ser – a mítica Macondo.»

Votos de um Feliz Natal, com mais ou menos fantasia; mais ou menos ficção.

*Todas as passagens colocadas entre aspas são citações da obra Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, Dom Quixote, 26.ª edição (tradução de Margarida Santiago), 2009.

ANABELA BORGES, “Cem Anos de Solidão e Um Dia de Natal”, conto, Editora Lugar da Palavra, Dezembro de 2018

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