Cultura, Literatura e Filosofia

CÉPTICA

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.
Odes, Ricardo Reis
(Deixemo-nos de paráfrases, eu sei falar com as minhas próprias palavras.)
Nunca quis alicerçar fosse o que fosse em carência, defendo acima de tudo, o encontro na plenitude. Se há carência, há desigualdade, se há desigualdade não acontece o encontro. E mais: pela carência usamos o outro e, ao mesmo tempo que dizemos amá-lo, usamo-lo como se ele fosse um  meio e não o FIM que cada um é para si próprio e em si próprio, que cada um deve ser para aquele que o ama.
Somos fins, não somos meios, não podemos permitir a nós mesmos sermos  o nosso próprio instrumento ou deixarmo-nos cair na vilania de instrumentalizar quem quer que seja. Se  o amor leva a semelhantes fraquezas, se nos obriga a rastejar por alimento e a espremer até ao cerne aquele que dizemos amar, então, maldito seja este amor dos mortais, maldito seja este arroubo que cremos metafísico mas que mais não é que vício e perversão!
Sou nihilista, céptica, radical e profundamente céptica. A vida – ou lá o que é! – não aceita em si esta postura radical, a vida quer meios termos e meios compromissos. E o céptico radical, como eu me assumo, vive esfomeado ou então devora-se a si mesmo numa autofagia compulsiva e extrema.
Enquanto céptica, existencialmente céptica, nem quero comer nem dormir, quero agarrar-me às fímbrias deste paradoxo ambulante que é estar viva apesar de… Mas como posso ser céptica, dizer que sou céptica sem negar-me, no exacto momento em que me alimento e durmo?
A minha filosofia é a minha própria existência, não são os tratados, nem sequer os filósofos. Servem, momentaneamente, como paradigmas, dão-me o arrojo para prosseguir nesta escalada sem objectivo à vista, revelam-me a luz que a espaços lhes doirou a mente e que a obnubilou em muitos outros!
Clarividência tenho-a que baste; mas ela dói-me! Como custa saber que nos prepararam o cálice da cicuta e que o fizeram às escondidas, enquanto nos serviam ambrósia e mel! Como custa rever o passado e perceber que nunca houve ambrósia nem mel mas apenas veneno mortal e que o bebemos na inebriação de uma espécie de crença derradeira!
Pois é: não vale a pena  invocar Nietzsche, Pessoa, Rousseau ou atirar o O’Neil para a frente de olhos sensíveis – também temos bocas próprias e ouvidos, também podemos provar da vida os píncaros e os abismos! Nada há no meio, apenas uma morna lassidão que engendra todo o vício e onde só pode rastejar-se!
Desço, pois, aos infernos, deixo-me queimar ou enregelar nas regiões inóspitas dos abismos, onde nenhum corpo resiste a menos que possua a textura do mármore! E eu sei que posso esculpi-la em mim e viver a assombrosa solidão das correntes e o espectáculo delirante dos deuses invertidos!
Além do mais… sou céptica e nem sequer creio nas palavras que escrevo, não sei do que estou a falar, mas talvez o sinta: e decerto não pode haver um cepticismo sensível, talvez tenhamos que deixar as categorias do pensamento apenas para o pensamento e vivermos o pavor das sete solidões numa torpeza esquizofrénica que nada suaviza!

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