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OPINIÕES HÁ MUITAS, SEU PALERMA

No outro dia, presenciei uma conversa de café que me deixou pensativa.

Numa mesa, 2 homens, em tom aceso, discutiam um tema que se tornou secundário, quando, às páginas tantas, um deles proclama: “não te pedi opinião”.

Ao que parecia, o primeiro emitia opiniões sobre um facto da vida do outro, sem para isso ter sido requisitado.

Vim com esta conversa no pensamento, e de facto é até muito fácil encontrar casos de pessoas que, obviamente, valorizam em muito a sua opinião sobre tudo e sobre nada. Há quem comente, quase sempre em tom crítico ou jocoso, as opções de terceiros, a maioria das vezes nas suas costas.

Sem que lhe tenha sido requerido qualquer palavra, espalham-se em grandes desenvolvimentos sobre a vida alheia. Isto é, antes de mais, uma profunda falta de educação. Seguidamente, é de uma soberba imensa, presumindo-se dono de uma opinião que pelo seu valor não pode ser mantida em si, discorrendo publicamente sobre o tema. E é, também, uma intensa falta de consideração pela individualidade e opções do outro. Talvez, na maioria das vezes, estes doutoramentos sobre a vida alheia ocorram na ignorância do visado. No adágio “olhos que não vêm, coração que não sente”, mais recorrido em casos de infidelidade, mas também aplicável neste caso, é caso para dizer que, ouvidos que não ouvem, não se irritam. Ora, se a pessoa se julga tão avisada, que tente impressionar terceiros com a sua visão tão especifica sobre o mundo, porque não fazê-lo particularmente?

 

Isto leva-me a outra questão:  costuma dizer-se que devemos elogiar em público, e criticar em privado. Completamente de acordo. Se me apercebo que alguém fez algo errado, por lapso ou distração, posso abordá-lo pessoalmente e comentar o facto. Nos meus grupos de escrita existe essa solidariedade entre os autores… às vezes lemos o texto com tão pouca isenção, viciados na ideia ou cegos por o ter escrito e lido algumas vezes, que nos escapa qualquer acento ou vírgula. As pessoas de bem abordam o autor pessoalmente, o que habitualmente é bem recebido pelo próprio, que prontamente reconhece o erro e o corrige. E os leitores em geral, que talvez se tivessem apercebido, mas por pudor não o referiram publicamente, vêm que o autor se apercebeu do erro e fez o que era suposto: alterou. Quem diz isto, que é um exemplo simples e prático, diz outras situações em que alguém faz um comentário despropositado, mas não maldoso, não intencional, e alguma alma mais atenta vai procurar minimizar a afronta, explicando-lhe porque o não deveria ter feito. Nestes casos, parece-me, há uma confiança derivada duma relação pessoal, egos equilibrados, que sabem que erram, e até alguma gratidão pela discreta correcção.

Mas o problema são os outros. Aqueles que, usando ainda o exemplo do texto publicado, entram armados em grandes senhores, catedráticos especializados em encontrar erros alheios (que próprios não há, obviamente), a denegrir o lapso do colega. A presunção e a soberba coexistem frequentemente, e os edifícios humanos onde habitam, um dia, falharão também, por muito impossível que essa situação lhes pareça realizável. E no dia em que acontecer, talvez alguém opte por não o avisar, amigavelmente, e deixe perpetuar o erro, que o soberbo, maravilhando-se com a sua escrita, não encontrará.

 

Ora, se comentar de forma alheia é mau, comentar com o próprio é melhor, sem dúvida. É mais nobre, corajoso e directo. Mas, e se não houver uma ligação pessoal que o justifique? E se o comentário for considerado intrusivo? E se o mesmo não for de todo requerido?

Não podemos dirigir-nos às pessoas em geral, vomitando opiniões, manifestando julgamentos, dando pareceres ou sugestões. É necessária alguma inteligência emocional para percebermos quando somos valorizados e bem-vindos nos nossos comentários, e caso tenhamos arriscado fazê-lo sem requisição prévia, travar no momento em que o outro não se mostre confortável com tal. Isto, obviamente se as intenções forem boas, ainda que expressas de forma desajeitada.  O que não devemos fazer, é impor unilateralmente a nossa opinião ao outro, sobretudo no caso em que é a vida dele que está em causa. Não podemos querer-nos sobrepor ao seu livre arbítrio, dizendo-lhe o que deve fazer, ou ridicularizando as suas opções. Quem somos nós, para tal? Com que direito insistimos num juízo que o outro não quer ouvir da nossa parte? Quando percebemos que a nossa opinião não lhe é importante?

 

Não pude deixar de pensar que as opiniões válidas são consideradas e muitas vezes pagas.

O banalizado direito de liberdade de expressão não pressupõe a extinção do direito de vida privada, da reserva da mesma, e sobretudo não gera a obrigação de qualquer grito grotesco ser considerada uma opinião a ter em conta.

Parece-me que as opiniões seguem as valências económicas: por norma, aquele que opina pontualmente e com tacto, terá mais valor no que diz, do que aquele que só precisa libertar a ira, a mágoa ou o espanto.

A contrário, uma opinião não requisitada, rude e insistente, é apenas ruído, poluição sonora.

 

No caso, havia um homem que não se calava, e outro que de forma educada foi dando sinais da sua saturação.

O outro não se calou, e o visado não teve outra opção senão por os pontos nos is: “não te pedi opinião”.

Quem é o agressor? O que tem que usar da assertividade para defender o seu espaço? Ou o que invade o espaço do outro?

Parece-me, como diria o Diácono Remédios, que não havia necessidade.

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