Cultura, Literatura e Filosofia

A MINHA ESTRADA

Trinados de pássaros soprados nas flautas indígenas do Equador, saem do leitor de CD do meu carro e enchem-no de uma doce harmonia que me embala e me faz sonhar, proporcionando-me a calmaria de que necessito para empreender a viagem que tenho pela frente. Ao longe, no horizonte, recortam-se montanhas altaneiras que erguem os seus cumes agrestes em direção às alturas, em gloriosa ascensão.

As nuvens esbranquiçadas, surgindo dispersas por entre os tons de azul claro do céu, parecem gigantescos farrapos de neve, por onde a luz do sol se vai filtrando em raios luminescentes, conferindo às primeiras horas da manhã um encanto quase sobrenatural.

Sigo o meu caminho, estrada fora, ao volante do meu veículo que avança prazerosamente, embora de forma cautelosa, como se percorresse uma estrada do paraíso.

            São as primeiras horas de um longo dia, a caminho do trabalho, um dia que sei que vai ser cansativo, talvez até extenuante, um dia que, como de costume, começa e acaba com um percurso por uma estrada de alguns quilómetros, cheia de curvas e precipícios.

Dito desta forma, não parece muito animador. Mas eu tenho outra forma muito diferente, muito minha, de encarar a rotina desta viagem.

            São instantes, vividos numa profunda intimidade, em que o meu ser, a música e a paisagem se confundem, melhor, se fundem numa espécie de identidade única. Já não sei se sou apenas eu que ali estou, ou se comungo de algo mais abrangente, batendo o meu coração em uníssono com o da Terra.

            Penso, muitas vezes, em todos aqueles que não têm a minha sorte.

            Aqueles que, a caminho do emprego, enfrentam filas intermináveis, num trânsito de arrepiar os nervos ao mais calmo dos mortais. Aqueles que, viajando, nada conseguem ver a não ser outros a si iguais, numa correria desenfreada, num stresse doentio, para quem cada amanhecer representa mais uma dor de cabeça a acrescentar a tantas outras que o dia há de trazer.

Mas, quem eu mais lamento, são tantos e tantos outros, percorrendo a mesma estrada que eu, sem nada ver a não ser curvas e contracurvas infindáveis, quilómetros de asfalto entre picos agrestes e precipícios, que, penosamente, é preciso percorrer para, enfim, chegar ao local de trabalho tão cansados como se o dia já estivesse findo.

Dá que pensar. Cada um de nós, viajantes da mesma estrada, mas, no fundo, com caminhos bem distintos para percorrer. Porque o caminho é, afinal, algo profundamente pessoal. Mesmo que a paisagem exterior seja a mesma, são tantas e tão diversas as maneiras de a olhar e interpretar!

A minha estrada, que percorro todos os dias, a caminho do trabalho, é uma pequena porção do planeta com trinta quilómetros de uma beleza indescritível. De cortar o fôlego.

O sol, que vai subindo sem pressa, brinda-me com a sua intensa claridade. Poderia compará-lo com um diamante primorosamente lapidado, não fosse o caso de nem a joia mais valiosa saída de mão humana ter a mínima possibilidade de comparação com a luz acalentadora do nosso astro-rei. Nos seus raios protetores, para além, de luz e calor, transporta diariamente as bênçãos dos céus, trazendo a certeza de que, a cada novo dia que amanhece, novas oportunidades desfilarão ao longo da estrada, prontas a ser colhidas na beira do caminho.

É como a própria vida. Seja qual for a nossa maneira de pensar, sentir, agir ou desejar, sejam quais forem os nossos objetivos e sonhos, seja qual for a nossa proveniência ou as nossas expectativas para o futuro, não passamos de companheiros da mesma estrada. Serão algo semelhantes, ou totalmente divergentes, as formas como empreendemos o percurso, tudo dependendo da vivência e sensibilidade de cada um. Serão, talvez, tantos os olhares e visões da paisagem da vida, como os seres que se cruzam na estrada, mas, no fundo, bem lá no fundo, a meta é só uma: chegar a bom porto, sãos e salvos.

           Seja lá o que isso for para cada um de nós.    

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