Cultura, Literatura e Filosofia

O OUTRO NATAL

É eventualmente forçoso falar do Natal, quando a data se aproxima e, por todo o lado, uma evocação gritante atordoa todos os ouvidos. E não são somente os ouvidos  que sofrem este atordoamento que refiro. Os olhos, sim, também eles não conseguem escapar ao delírio e, afinal, todos os sentidos,  já que a multidão se atropela, e então há toques, e os ares rescendem,  e assim há cheiros. Tudo poderia, afinal, ser belo, pela música,  pelas luzes, pelos aromas, pelos gestos, pelo gosto, enfim, e os sentidos sairiam gratos e acrescidos desta apoteose.
Contudo, a demasia das luzes incomoda o olhar educado para a beleza : e todos nós sabemos que, nessa noite longínqua feita efeméride, estava escuro, e apenas uma estrela extremamente brilhante iluminava o monte rude onde os pastores guardavam ovelhas. Também os odores dessa noite ancestral tinham o travo acre dos animais do estábulo e decerto os cheiros de um parto recente. Os toques seriam feitos dos afagos de um pai e de uma mãe e a multidão nada mais seria que o conjunto de alguns pastores surpreendidos e tímidos perante a ocorrência invulgar.
Todos nós sabemos,  de facto, que é desta simples evocação que veio a fazer-se o Natal. E sabemo – lo, não porque o tenhamos podido testemunhar, mas na medida em que desse nascimento humílimo resultou uma vida feita prodígio,  surgiu uma figura que iniciou uma era histórica, marcando inevitavelmente o tempo.
Sabemo-lo, de facto. Mas muito mais deveríamos saber, muito mais deveríamos reter na memória, usando esse conhecimento para celebrar a data como deve ser.
Quando eu era criança,  fazia – o. Em minha casa havia um presépio,  construído com materiais da terra e representações simples das figuras sagradas. Celebrava – se a tradição,  comendo o jantar em família,  com todo o ritual dos costumes : e era saboroso,  doce, fragrante e quente. Deixávamos um sapato junto à chaminé e acreditávamos que, por um milagre qualquer, que não nos ocorria perceber, o menino deus viria, pela noite, dizer – nos que estava vivo e nos conhecia e que, por isso, nos dava um pequeno presente – símbolo.  No dia seguinte, de manhã cedo, íamos à  missa que, muito justamente, evocava o divino nascituro. E para o celebrar éramos todos convidados, no final, a beijar os pés de um menino simbólico, rendendo – lhe homenagem.
Creio que não havia na cidade (que era, então,  uma vila) luzes a brilhar insidiosamente, por todas as ruas e travessas (ou se havia eram discretas e raras) e a corrida ao comércio tinha um ligeiro fulgor porque havia mais pessoas em reunião nesses dias de festa – mas era assim mesmo,  ligeiro… e confesso que nunca o testemunhei, ou se aconteceu, esqueci-me.
Dir-me-ão que os tempos são outros e que outra terá que ser também a celebração. Eu respondo dizendo que está errado quem assim pensa.
O Jesus que se festeja é o mesmo bebé de outrora, nascido na frialdade de um estábulo, aquecido pelos animais presentes e deitado na manjedoura; e estão ali, somente,  a sua mãe e o seu pai e depois alguns pastores com oferendas . O facto é  este, relatam – no muitos textos ancestrais, e é por causa dele que celebramos a efeméride,  tornada, depois,  sagrada. Sagrada, na exacta medida em que logrou quebrar o ritmo profano do tempo e impor-se a muitas gerações,  sagrada, ainda mais, porque  mesmo o ateu é compelido a celebrar, invocando, decerto, valores não religiosos de uma forma canónica, mas outros que a tradição lhe foi deixando como marca. O sagrado representa esta ruptura espácio -temporal que aproxima as épocas e os sítios, em celebração.
O facto de vivermos num tempo de euforia consumista e vício tecnológico, não deveria impedir -nos de perceber o alcance desta comemoração, não deveria fazer com que os nossos gestos pervertessem a real simplicidade e o profundo mistério do acontecimento que somos levados a festejar. Deveríamos estabelecer a ruptura que o fenómeno produziu no tempo e mantermo – nos fiéis ao espírito cuja marca representa a matriz principal da nossa cultura. Deveríamos ser capazes de, por dois dias apenas,  interrompermos a corrida insensata em que transformamos a nossa existência e acedermos a ser simples e humildes, tal como foi essa família cuja memória pretendemos honrar.
Claro que nada disso acontece. E o Natal transformou – se numa festa pagã, em que as luzes ocupam todo o espaço,  ofuscando e corrompendo a natureza  à sua volta, as músicas estridulam, destruindo a necessidade do silêncio, e todos se acotovelam numa ânsia devoradora de prazeres e bens que nada representam. E nada representam, como é evidente,  porque esse não é o espírito do acontecimento que há dois mil e dezoito anos mudou o curso da história.

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