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REVIVER O FINAL DO ANO

Não acreditem em ninguém que vos diga “isto a passagem de ano é um dia como outro qualquer’ porque de facto nunca o poderá ser.

É um sentimento que trago de todos os Dezembros como um déjà vu que pousa sobre a minha cabeça e me entrega ao optimismo porque a esperança é de agora, sobretudo.

 

Apetece-me desligar, alienar e vegetar. Ligar só a quem quero bem, falar só com quem me apetece, pensar em coisas boas e recordar as noites frias na terra em que no natal lá em casa a única criança era eu. E depois ler os signos, rabiscar até um levantamento da odisseia esplendorosa que vem a caminho, anotar com afinco os melhores meses e ignorar os que alguém escreveu que correrão mal (aí já não se acredita!).

 

As cores e as luzes combinam e vivem porque é tudo tão escuro tão cedo. Parece que o Natal foi criado de propósito por isso mesmo. Como seria viver tantos meses quase sem sol sem esta coloração de enfeites?

 

Só me falta o silêncio igual ao de uma fogueira apagada depois de uma noite inteira a arder, igual ao que vem depois de um ano inteiro que precisa de ser averiguado.  O silêncio igual ao silêncio. Aquele que não existe no centro comercial, nem nas ruas. Talvez o natal e o ano novo não devessem estar tão juntos. Faz-me falta tempo para apreciar um ano que passou e o natal enfarda tudo até á última rabanada. Egoísta cada vez mais, simbólico cada vez menos. Lembro-me então de como era ir á missa por esta altura. Todos juntos íamos do colégio até ao seminário e o professor de moral fazia daquela hora um espectáculo que nunca me permiti esquecer. Talvez fosse pelo sentimento que têm os inícios de férias, ou pelo passeio de poucas centenas de metros ou pela bateria em cima do altar, ou tudo junto, a vida parecia perfeita. Ficava tudo perdoado, tudo limpo e sarado. Aquilo que seria um ano novo era algo a sério e não apenas uma passagem de dia para dia que por acaso dava avanço a um ano. Escrevia então eu as prendas que recebia para a composição da escola para as comparar com as dos outros, misturava a canela e o açúcar para as filhós, encantava-me com a publicidade de bonecas nos intervalos dos desenhos animados, roubava mais um cartucho de amêndoa, desenhava nos postais de natal e não me faltava a esperança rara e precisa. Sim, a esperança que sinto hoje é um pouco diferente da daquele tempo. Faria mais sentido? Haveria mais para esperar?

 

Este tempo é bem vindo. Talvez nos toque e nos devolva alguma da ligeireza que deixámos, talvez nos junte aos que querem salvar o mundo, talvez nos faça dizer sim a alguma coisa, nem que seja só por enquanto. Não há nada mais necessário no final de um ano do que esta paragem obrigatória, um beijo na contemplação do que fizemos chegar. Pode até ter sido um mau ano, mas nada nos pode tirar esta coisa cá de dentro que outros natais nos deram. A leveza de que aconteça o que acontecer é possível recomeçar. Não acreditem em ninguém que vos diga “isto a passagem de ano é um dia como outro qualquer’ porque de facto nunca o poderá ser. Passagem, passar, o passo, ir daqui para outro ano é sempre uma viagem carregada de símbolos e memórias. E estes dias são especiais e raros mesmo para quem acha que não acredita.

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