Cultura, Literatura e Filosofia

O OLHAR FILOSÓFICO

Regina Sardoeira

“(…)Ora, viver sem filosofar é ter os olhos fechados e nunca se esforçar por abri-los; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é nada comparado com a satisfação que dá o conhecimento das que se encontram pela filosofia; e enfim, este estudo é mais necessário para regular os nossos costumes e nos conduzir nesta vida do que os nossos olhos para guiarem os nossos passos.(…)”

René Descartes, Princípios da Filosofia (1644)

Descartes afirma e reitera que o acto de filosofar traduz um bem mais precioso do que o uso da visão, pois é muito mais intenso o prazer que se obtém com o conhecimento dado pela filosofia do que aquele que resulta da visão de tudo o que conseguimos alcançar através do uso dos olhos, já que o filosofar é um excelente auxiliar para nos guiar na vida.

Ora – pensaremos – se fossemos privados, bruscamente, da visão, sem dúvida consideraríamos esse o nosso bem mais elevado pois, habituados a conduzir os nossos passos através desse sentido físico, seríamos subitamente precipitados num enorme desconforto. Nesses momentos iniciais, certamente, não daríamos apreço a todos os conhecimentos obtidos pelo filosofar, crentes de que nos havia sido retirado o maior dos nossos bens.

No entanto, com o tempo, aprenderíamos a escutar a voz interior e a ver, de dentro para fora, ou seja, a usar todo o esclarecimento obtido através do estudo para suprir a deficiência causada pela falta de visão. E poderíamos descobrir a importância de todos os outros sentidos, até então menos desenvolvidos, ficando aptos, doravante, a utilizá-los como substitutos da visão que nos faltara.

Por outro lado, o exemplo utilizado por Descartes é uma metáfora. Quando ele se refere aos «olhos» está a querer significar capacidade de orientação, discernimento na busca do caminho correcto, perspicácia na análise dos nossos actos, clareza nas tomadas de decisão. Portanto, a visão a que o filósofo alude é muito mais do que o uso dos olhos físicos com os quais vemos o mundo à nossa volta, sendo, por excelência, a consciência lúcida da nossa caminhada de seres humanos.

De acordo com esta perspectiva, é possível, então, admitir que, mesmo com os olhos fechados, podemos obter um maior entendimento do mundo que nos rodeia pois a maior parte das vezes, limitamo-nos a lançar um olhar distraído sobre as coisas, esquecendo-nos de as observar, de reparar nelas. Ora a filosofia e o exercício do filosofar, persistente e contínuo,possibilitam, a todo aquele que os pratica, uma visão muito mais apurada, quer no sentido físico do termo – ver com os olhos – quer no metafórico – ver com o nosso sentido interior.

Podemos então discordar e concordar simultaneamente com Descartes: discordar, se acaso levarmos ao pé da letra a superioridade que ele atribui à filosofia relativamente à visão, pois ninguém na posse das suas faculdades mentais aceitaria privar-se da visão para aceder ao olhar filosófico; mas concordar em pleno, se entendermos que o olhar a que o filósofo se refere é o olhar integral, aquele que desperta para as coisas, dentro e fora de nós, e pode tudo observar claramente mesmo na mais completa escuridão.

Filosofar é ver, ver com uma espécie de visão esclarecida, ver para orientarmos os passos nas decisões existenciais de todos os dias, ver para nos conseguirmos adaptar ao mundo e dele darmos testemunho. O autor compara, com justeza, o uso dos olhos e o exercício da visão como metáfora desse olhar o mundo, simultaneamente observando e analisando cada partícula do real e podendo, desse modo, obter da vida muito maior prazer e benefício do que se nunca nos dispuséssemos a filosofar no verdadeiro sentido que a palavra comporta.
E, como complemento, podemos ainda citar Hegel, não para esclarecer as palavras de Descartes, que um filósofo tão complexo como foi o idealista alemão não poderá facilitar seja o que for, mas para reforçar a acuidade do olhar filosófico que tal como a coruja (a ave de Minerva) apenas levanta voo ao escurecer. A coruja consegue ver na escuridão e por isso prefere – a para os seus voos – tal como aquele que cultiva a filosofia.

“A Filosofia, como o pensamento do mundo, não aparecerá até a realidade concluir o seu processo formativo, e finalizá-lo. Esta história corrobora o ensino da concepção, que apenas na maturidade da realidade é que faz o ideal aparecer como contrapartida para o real, de forma a compreender o mundo real em sua substância, e moldá-lo num reino intelectual. Quando a filosofia pinta a sua cinza em cinza, uma forma de vida torna-se velha, e por meio da cinza não pode ser rejuvenescida, mas apenas conhecida. A coruja de Minerva levanta o seu voo apenas quando as sombras da noite estão a reunir – se.”

G.W.F. Hegel, Princípios da Filosofia do Direito (1820)

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

Livro dos Conselhos, in O Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago (1995)


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