Home>Cultura, Literatura e Filosofia>A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO VIGÉSIMO
Cultura, Literatura e Filosofia

A ALDEIA QUE EM MIM HABITA – SOLDO VIGÉSIMO

Pouca-terra-pouca-terra-pouca-terra.
Veios percorridos, importantes, que nos ligam. Ao interior, recôndito espaço de cada um. Amadeo, sentado, à janela, vagueia o olhar pela paleta de cores que estimulam emoções suas.
Acastelada casa, onde deixara seu amor maior, enquanto manifestava a sua alma, fervorosa, em telas que ansiavam toque seu. A torrencialidade dos sentimentos, levava-o a desenhar belas palavras, de avassaladora profundidade, destinando-as aos que mais estimava.
Comboio-purgatório. Uma vez dentro, em limbo definição de um destino que em si estaria, fado seu defendem uns, não propriamente um inferno e um céu mas um caminho, talvez tormenta próxima, mas necessária pelos vários andamentos de um processo que se quer estático para um catapultar da cinética, perante profunda contemplação das telas que não se cansam do olhar nosso, deixando a nu braços-mar de Amadeo que carpinteiros de almas são, cedendo toda uma herança, incomensurável, onde rasgados somos por artísticas erupções, amanhecendo, bramindo, uma constelação que até ao presente, irredutível, se nos revela.
Há quem diga, de soslaio, sem imposição alguma, que conspiração parida a favor da estética beleza do instante. Talvez, aqui, tumulto maior nosso, desarmados de pragmatismo perante sentimental acervo.
Comboio, elemento-motor de ligação entre pensamentos que se aconchegam em seus bancos, rasando o olhar com os costumes de toda uma época. Valioso estar que o ligará a aldeia nossa. Lembramos com ternura, páginas tantas em que sua filha da terra das estações da vida, da nossa vida, falou. Das suas gentes e dos gestos que densidade atribuíam às viagens, quando julgávamos um tardar de chegada, nele ancorando a nossa inquietação, enfatizando a escassez de compreensão perante o tempo que a nosso lado se senta e, tocando em nosso peito, sorri, como que apontando para a longevidade do que vamos acompanhando passar, nos trilhos que indeciso metrónomo se faz. Tempo que se satisfaz, imitando o que em caricatura o artista vai interpretando em amarelada folha, remetendo-o para tempos primeiros, afastados não da importância das telas de cromática beleza que nos vem apresentando.
De águas-furtadas detentor, em seu pensamento, agora em aldeia alocado, distração impossível, mesmo em analepses vivendo o que em carruagem densidade conferia ao momento, imagens e sentimentos se espraiavam, como edifício de senhorio não, olhando um céu, aguardando solarengo dia onde exteriorizar o que, ocasionalmente, rubor lhes conferia, pigmentação outra, intercedendo, alento dando, por obra próxima.
Secura em boca, como tela sem óleo, partilhado foi um jarro de mouchão, em mesa repousando, motivo de estórias de acrescido ponto, sem segredo somado, não vá por Manhufe negócio acrescer ao já aclamado vinho. De sua terra garrafas trazidas, de vinícola produção familiar agradecendo sobejo acolher.
Rústico espaço que, apesar de distante, o transportava para homólogo seu, em habitação de idos tempos de meninice, eternizado em tela, onde linhas se intersetam com pensamento nosso. Local de recolha, de partilha, nem sempre de refeição, pois humores há na natureza que estudos protelava a tão inquieto artista. Na cozinha desta aldeia, as paredes que objeto eram da sua atenção, não despidas, mas vestidas não também como as de Manhufe, onde pratos como quadros olhavam para quem ali se recolhia de maleitas muitas.
Apenas o pequeno quadro de sacra imagem a ponte fazia a equidistantes geografias, agigantando a redução de luz em túnel fundo. Istmos que se lhe surgiam ante a saudade dos seus, e não menos, sua também, de profundo amor, aguardando sua chegada, olhando de seu quarto o Marão que o levava a compartimentos da sua imaginação e criatividade que os aproximava, mesmo que milhas muitas contadas. Contava com seu coração-batuta que orquestrava relação que lhe garantia a montante maravilhar-se com a incólume profundidade do amor que os sobrepunha em fotografia a mesma.
Onde duas eram, aqui apenas uma arcada dividia dois espaços, apesar do mesmo, com central mesa de culinário labor, aconchegada por bancos, ora longos, junto a lareira que crepitava, ora pequenos que, como que em modo de revisitação de feliz infância, nome seu cravado tinham, reforçando autoria das embarcações e humanas formas, de cavado traço, que vida lhes garantia. Quiçá forma outra de jamais olvidarem sua passagem em tão generosa aldeia, mal sabendo, ou se sabendo, que ligação maior a este povo cimentada se encontrava, somente pela sua disponibilidade em respeitar quem aqui encontrou e estética atribuindo a comunitária existência.
Enquanto circundávamos a cozinha, não perdemos a vista daquele jovem que sorri perante as diabruras das crianças com pequenos cavalos de pau, onde se baloiçavam, como que entregues a montanhosa aventura, o desconhecido desbravando.
Singular porte seu, mesmo que austero se compreenda, permitia a transparência de uma pontual serenidade, necessária, para descanso de marujo em longos mares. Rosto que segurança nos dava quando entregue a tela se encontrava. Encimando a sua estrutura, uns olhos, de profundidade senhores, não deixando ninguém indiferente, aquando de presença sua, como que torre de encastelada casa, garantindo ocular varrimento, entre o cuidar do que o rodeava e os estudos que o levariam a pincelada última. Atalaia, onde cerrados os olhos, como que aberturas poucas, finalidade de então, defesa maior garantia, olhando para dentro de si, certo da segurança do que o inquietava. E nele, um mundo. Todo um mundo.
De erudição todo um corpo esculpido, desenhada escarpa no confronto com magistral e natural silêncio que, ante o toque, o encontro, permeabilidade toda, o absorve, hóspede seu, gritando, de encontro às paredes de irrequieto pensamento seu.
Pela janela, olhava verde e sereno lugar que parte da aldeia fazia, nutrindo-a da essência que o levava a tão interior espaço. Apesar de entregue a um mundo que, de vasta obra, insaciável se mostra perante a possibilidade de tela acrescer, não olvidava Paris ou centros outros de visibilidade maior, em partilha com os grandes, onde, irrevogavelmente, parte de um todo faz, o retorno a pacífico espaço, a atelier seu, importante o era. Destino este não de impulso próprio, mas diabruras da vida o levavam a estadia prolongada, não planeada. Somamos, agora, aldeia esta. Talvez aldeia-atelier da conjugação cromática que intensifica o pormenor do real. Do crepitar do seu interesse perante a tela, entre o abafar e o respirar, elegia este.
Da importância, também, do contacto com as pessoas e com urbes várias, surge-nos a aldeia como útero do que nascituro se salienta, sensibilidade e feroz vontade do concretizar, parteiras a bloco se apresentando. Do respirar, em tempo não censor, falamos.
Parir este, proporcional a veloz labuta. Como em tempo pouco tanto se faz, não fosse indomável espírito, insaciável e perfecionista, sabendo-se bom? Tendo abeirado o erro, rasteira passando a quem incólume se pensa, não que falando deste amarantino artista, pois desassossegado na criação, importância lhe confere, salientando, em reforço, virtudes suas, seguindo escolas não, ele sendo. É a sua tela na multiplicidade de expressões que pincela, dentro de si procurando o todo que era.
Apesar de truncadas obras nos deixar, perdoem-me prolepse esta, sabemo-lo empenhado no término do que neste solo inicia. Não pintará, linhas sim, como que folhas, os móveis que nos remetem para a casa que o conforta em aldeia descoberta, não tempo muito antes deste que vos conto. Pequeno o era e salientava já a vida que em potência sentia. Erupção que aprende a controlar assim que próximo, em frente, de telas que se apresentam para, por si, tocadas serem, percebendo quem as olha.
Jusante de uma fervorosa alma, onde espaço para o trágico encontramos, jazendo não, ansioso pela descoberta, pelo mundo, quando em si, para nós, um mundo todo, em potência, que em ponto o mesmo, contemplando, em muito o conhecemos, em alagar constante de si, extravasando-se-lhe como que por generosidade para com quem o estima, acentuando fertilidade sua. Tão-só, Amadeo.
No agora seu recriado atelier, tendendo a lembrar o que por seu pai construído fora na Casa do Rio, haveres seus espalhados estavam pelo espaço, que se apresentava de humildade vestido. Referências muitas as tinha mas a essência da aldeia entrava-se-lhe pelas janelas que impossível seria diminuir a força que aquele povo tinha perante o ato da criação da obra que robustez conferindo vai, num acumular de experiências solidificadas desde terna idade.
Poucas não as vezes que paupérrimo se sentia de curiosos, entre o café da aldeia e o salão de convívio, onde em tertúlias embarcava, e o espaço onde agora nos sentamos, olhando-o, fruindo da beleza de cromática dispersão, na contenção do traço que a olho despido identificamos como do nosso Amadeo.
Gaguez nenhuma no desenho, órfão do despotismo da razão, mas espaço muito cedendo, jamais permitindo obra sua a obituário somada, numa inegável perpetuidade na existência dos outros, nós, em cavado solo nunca.
Seguro se sabe, de vanguardista espírito munido, devoto à Arte, tecendo-a, alimentando-a, que réstia alguma de tortura interdita, possível se entregue a labor outro, como o que abastado viver e sociais grilhões promoveriam.
A beleza associada à sua estimada caixa de tintas de madeira, de Manhufe transportada, para no abrir de portas, ar outro desassossegar o que se instalava no interior, jazendo nunca. Nas duas divisões que a constituíam, o caos ordenava-se na segurança com que o artista abraçava cada tubo de tinta, numa molecular paleta singular onde viviam, em comunhão, os azuis, o vermelho, o carmim, o viridian, os amarelos, o branco e o sulfato de bário. Fórmulas não vos apresentarei, deixando-vos ao sabor de comuns nomes de peculiar trato, que o interior e o litoral pintam.
As crianças que o circundavam, atentas ao génio que se lhes apresentava todo um mundo de possibilidades, de sóbria disciplina, eram as mesmas a quem, pontualmente, iniciava em mágica arte, para aproximação de pueril observação, escutada pelo amarantino. Não desnutria o encantamento e a liberdade que tal olhar perpetuava naqueles seres.
Outros, também, o admiravam como que poeta sem verso algum escrito, de adejos maiores que o próprio Universo, mesmo o que severamente, de austeridade em riste quando para dentro de si debruçado, criava, aos olhos de um mundo transformado em aldeia e que representava o que de mais comunitário até então conhecido tinha.
Olhava a construção coletiva e a entrega e aposta na Arte, ali de quota paga, sem associado soldo, que se entenda, como o motor de crescimento daquele espaço e das suas gentes, fomentando o exercício de liberdade criativa, poroso a sensibilidades várias, em geracional transversalidade, num constante capacitar de um eu e de um nós, em horizontal plano onde o individual e o comunitário coabitam. Um povo que a lenha não reduz vanguarda ou dissonante voz. Momentos enxutos não de compreensão, discussão, assimilação, partilhar.
Alvéolo outro nesta aldeia encontrara para o respirar geometrizar, traduzindo a vontade em telas e desenhos que representavam o povo da aldeia, assim como envolvente espaço, de imediata absorção, por contemplação, aquando dos seus passeios a cavalo e a dedicação à fotografia.
Talvez um dia retrato seu em singular comunidade encontremos e confirmemos possibilidade esta que vos apresento. Não terá montanhas as mesmas, ai saudoso Marão, que fotografa do seu quarto, mas estes recortes, rasando azulado céu, cumprimentavam-nos com a mesma sensatez e veemência que aqueles, nas alvoradas e ocasos ali passados.
Paisagens que o aconchegam bem perto do coração desta aldeia que Helena chamada poderia ser, assim como irmã sua. Honestas confidentes, ambas. Sentia que na simplicidade e ternura dos gestos e palavras de quem nestas ruas vida atribui, poderia encontrar ouvintes que o compreenderiam e nele um seu encontrariam.
Árvores, caminhos, plantas, animais, sol, montanhas, bravas umas, outras nem tanto, águas, desenhadas iam sendo, como que siamês sentimento aquando de suas estadias em Manhufe. Apesar do seu encanto pela Natureza, por tradicionais elementos se adentrou que nos remetem para a aldeia que se deixa, nua, pintar, sem coradas faces. As conversas em torno das mesas de comuns espaços, a mulher, musicais instrumentos que a aldeã orquestra tocava de exímia forma, religiosos momentos que não os vividos em terras de São Gonçalo, mas por este povo que se deixa caricaturar, a gargalhadas vistas, estanques não, somando humor, respeito em pilar, vida outra conferia para além da vista por madrugador olhar, focado não no reparar.
E ao observar esta quadro que por terminado deu, estremecemos, como que dentro de sua obra vivendo, de braço dado, enumerando, facilmente, o que a aldeia tem que obra sua professa.
Poeta este que as palavras traduzem, entre o cavalete e a mesa, a tela e o papel. Dramaturgo que a estes leva aquilo que sente, em técnica que modos vários integra, onde num só, muitos quadros se pintam, uma vez que o tempo não lhe permite coisa outra, musculado por cavernosa ansiedade e um espírito e ferocidade criadora em acelerações mil. Instabilidade emocional que o leva à poética interpretação de singular roupagem, ornamentada, de tudo o que o envolve.
A cada não truncada pintura, como que a certeza de que tudo maior que ontem, onde a bordo, de paleta-leme, comandante na ponte, olha para o mar que o lembra do imprevisível da existência, de morte-senhoria renda requerendo, até que despejo concretizado. E por resiliência muita, nem todos os edifícios da vida se dão bem com a possibilidade de terrena imortalidade.
Olhamos o homem. Amadeu. Olhamos o artista. Amadeo. A jusante, o mesmo, deixando, de educada forma, a propensão à heteronímia. Sabemo-lo atento à sua fragilidade perante Natureza-fera que se deita, eloquentemente, nas margens do seu pensamento, onde se permite contemplar, diluindo-se nunca, garantindo a reciprocidade, de respeito súmula sua.
As crianças que assistem a cíclicas ressurreições, fascinados se mantêm perante a disciplina do Mestre que jamais esquecerão, assistindo a parto, cesariana não, quiçá em finais momentos de vida sua, de um microcosmo que Amadeo potencia a cada olhar, como o desta aldeia, a cada partilhar.
É racional, afirmativo, imperativo, apesar da densidade do que o espírito exalta e em si malagueiro persista. Tormenta onde, bordejando, avistadas velas sempre e pagaias em mar tocando, rumo seguindo, certo de que o farol que, mesmo que longe sinais de vida dando, jamais marujo esquece.
Não obstante premissa esta, o mar chão que banha a aldeia, local é de apaziguamento seu, mesmo que não de um todo pacífico, pois não olvidamos ao muito que o desassossego fundear o leva, sem atracagem em firme solo, em fado, nas asas da ponte do seu pensamento.
Levantando o seu corpo de engelhada cadeira, descidas as íngremes escadas de acesso ao atelier, na corrente das artérias se deixou levar, onde ancião vento, de longos braços, murmurava a generosidade de uma aldeia que alimenta a insaciável sede de obra parir. Lugar que pintará com cromáticas emoções que nele despoletam, paredes-meias com a saudade não, a conterrâneo seu se unindo.
Em sua volta, crianças movimentos mimetizando. Sorriso rasgado e o toque de sua mão na cabeça de algumas, significando o respeito e o carinho tão caraterístico daquela aldeia. Um lugar de acumulação de afetos, do conhecimento, das emoções. Sentimos textura essa que passeia entre a ação da comunidade.
Dia que se esconde, acompanha a locomoção de Amadeo, desaguando numa habitação que se abeira de artístico impulso, aviso à navegação feito, onde albergar possível é seres que não prescindem de pintar este mundo de emoções através da consumação de obra sua. Uma aldeia que pilar tem na sustentabilidade sem a identidade alienar, onde cultura sobrenome se regista. Muitos não o sabendo, mas é já aqui ao lado que prosseguir conseguimos com sonhos que à utopia, utopia chamam.
A generosidade deste povo para com o Outro, leva o nosso Amadeo a inequívoco concluir. A certeza de um retorno a tão esperançoso local.  Aldeia esta longe de imaginar que tão jovem rapaz adensaria sensibilidade sua.
Reunido agora, em redonda mesa, marca sua deixada, tecendo coletiva exposição, onde artistas muitos, idades em demasia nunca, traduzirão toda uma aldeia, de distinta, humilde, essência. Crianças que colagens aplicavam em quadros seus, tal como Amadeo em posterior fase o fez, namorando, em compromisso, a Arte, como expoente de humana essência. Entre todos, a certeza de uma amizade que bebe da certeza de uma paixão que os une, acreditando nas capacidades enquanto homens e mulheres e artistas.
Somos uma aldeia. Muito mais do que julgamos. No prelo, estórias muitas do todo que desenhamos, em coletiva memória esculpidos.
Aproximem-se de povo este. Ouçam a orquestração dos pincéis que em paleta sua, pauta de leitura encontra. Não obstante o desfecho de Amadeo, tardemos na beleza da sua vida, torrencial, que nos permite entrar em qualquer uma das carruagens do seu vincado artístico percurso, madrugando a cada possibilidade de alvorada, na contemplação da caligrafia que as demais janelas que para dentro de si se abrem e observação permeiam. Cromáticas paisagens que cabal prólogo ensejam.
Da aldeia partimos. Talvez, aqui nos demoremos, sem nunca a ter deixado.
Pouca-terra-pouca-terra-pouca-terra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.